5 mitos sobre o namoro online

Christian Rudder - O Estado de S.Paulo

Diretor do site OkCupid desfaz os equívocos mais comuns com relação à busca do amor na Internet

Era uma vez, os usuários que namoravam online eram alvo de piadas porque eram vistos como indivíduos derrotados, solitários. Mas isto já não acontece. Hoje, pelo menos 40 milhões de americanos procuram o amor pela internet. Mas isto não significa que tenhamos consciência do que fazemos. Como o sexo, o amor e a atração, o namoro online é objeto de fascínio e confusão. Alguns comentaristas acreditam que isto ajuda pessoas solteiras a se sentirem mais seguras e confiantes, enquanto outros o acusam de “acabar com o romance”, de “destruir o compromisso” e contribuir para a ascensão da cultura da conexão na web. Como diretor do site OkCupid, procurei desfazer muitos dos equívocos que a busca do amor na internet suscita. Mas alguns persistem; os mais comuns são estes:

1. Os homens não estão interessados em mulheres com mais de 30 anos (ou, Deus me livre, mais de 40).

Os dados são inquestionáveis. Embora as mulheres em geral prefiram homens mais ou menos da sua idade, os homens se sentem mais atraídos por jovens de 20 anos, e ponto final. É por isso que o Daily Mail chama as mulheres acima dos 45 de “geração plankton” - no fundo da cadeia alimentar do romance. Os editores da revista Time acharam a ideia de os homens namorarem mulheres com mais de 30 anos tão desconcertante que convidaram 15 especialistas a explicarem o fenômeno.

Para diretor de site, web facilita encontro de quem procura compromissos de longo prazo

Para diretor de site, web facilita encontro de quem procura compromissos de longo prazo Foto: Pixabay

Mas como aprendi no OkCupid, os homens não acabam necessariamente namorando jovens, mesmo que as considerem lindas. Os homens do site em geral mandam mensagens a mulheres de idade mais próxima da sua; e poucos acima de 30 que procuram mulheres de 20 anos. Embora seja verdade que, se você for mais velha e solteira, enfrenta um mercado romântico “escasso”, tanto na Internet quanto fora dela, a escala de encontros online suaviza esta situação. Afinal, a melhor maneira de ir contra as probabilidades é experimentar bastante, por outro lado, os sites que favorecem estes encontros proporcionam milhões de opções até para os usuários mais velhos.

2. O namoro online deve ser responsabilizado por nossa cultura da internet.

Esta é uma das frase mais comuns: O namoro online facilita o sexo casual, mas os relacionamentos ficam mais difíceis. Um artigo um tanto histérico da Vanity Fair afirmava recentemente que sites como Tinder deram origem a um “apocalipse do namoro”, porque os jovens (homens e mulheres) se conhecem online, encontram-se para o sexo, e depois nunca mais voltam a conversar. The Guardian adverte que estes sites criaram uma “cultura do namoro descartável”.

Que bobagem! As pessoas sempre procuraram o sexo casual - as aventuras são elementos fundamentais do enredo em Orgulho e Preconceito (1813) e Fogueiras de Outono (1942). Um sociólogo constatou que, hoje, os estudantes universitários não fazem mais sexo do que em 1988. Na realidade, o namoro online facilita o encontro dos que procuram compromissos de longo prazo. Segundo os especialistas, um terço dos casamentos realizados recentemente nos EUA começou online. Em geral, estes casais são mais felizes também, conclui a pesquisa.

3. Todo mundo mente online.

Este pressuposto predomina, a ponto de a MTV ter um programa inteiro, Catfish, para investigar se as pessoas que mantêm relacionamentos online se apresentam de maneira honesta aos seus parceiros. Em um exemplo extremo de mentira online, o astro do futebol americano de Notre Dame, Manti Te’o, foi vítima de um engano, há alguns anos, e namorou uma mulher inexistente.

Mas embora seja tentador tirar alguns quilinhos ou acrescentar uns centímetros, os estudos mostram que os perfis do namoro online são fundamentalmente muito honestos. Gwendolyn Seidman, que escreve para a revista Psychology Today, explica isto muito bem: “Os namorados online sabem que embora, por um lado, queiram produzir a melhor impressão possível em seu perfil, por outro, se quiserem dar continuidade a um relacionamento offline, não poderão começar com falsidades que rapidamente acabarão sendo desmascaradas”.

Isto não significa, é claro, que todo perfil expresse a mais pura verdade. As pessoas exageram, como, aliás, fazem pessoalmente. OkCupid concluiu, por exemplo, que homens e mulheres acrescentam, mais ou menos de maneira uniforme, uns centímetros à sua altura. Em toda interação humana, haverá sempre um pouco de exibicionismo. Mas o namoro online não é especialmente vulnerável à nossa fraqueza coletiva por mentiras que lisonjeiam o próprio ego.

4. O namoro online é perigoso.

As histórias sinistras são bastante numerosas. Em 2010, o “matador da Craigslist” foi acusado de matar uma mulher que conhecera online (e posteriormente suicidou-se na cadeia). Em 2013, Mary Kay Beckman processou o Match.com exigindo uma indenização de US$ 10 milhões depois que um homem que ela conhecera no site foi até sua casa em Las Vegas armado de uma faca com o intuito de matá-la. 

Mas apesar das más notícias ocasionais divulgadas pela imprensa, os números sugerem que o namoro online é muito seguro. O OkCupid dá origem a cerca de 30 mil primeiros encontros todos os dias, e as queixas a respeito de encontros perigosos são extremamente raras. Lembro de apenas alguns nos meus 12 anos na companhia. Embora não existam números abrangentes, os executivos de outros sites informam níveis igualmente baixos de abusos. Além disso, os sites de namoro adotaram medidas para responder às preocupações. O Match.com, por exemplo, agora verifica os antecedentes dos seus usuários por meio do National Sex Offender Registry e deleta os perfis dos que se encontram na lista deste departamento.

O namoro online permite que as pessoas recebam informações sobre o sujeito sem precisar sair de casa, em comparação com os encontros com desconhecidos num bar ou em festas, em que as pessoas em geral já tomaram alguns drinques ao iniciar o flerte (estudos mostram que o uso de álcool aumenta o risco de ataques sexuais). Além disso, quase todas as pessoas usam locais públicos para seus primeiros encontros online: cafés, restaurantes e algo parecido. A escolha é deliberada - afinal, você está procurando um parceiro por meio de uma interface - e isto proporciona um ambiente mais seguro.

5. Fotos são a melhor maneira para saber se você será atraente para alguém. 

Parece óbvio, não? Esta premissa é tão gasta que ferramentas como Tinder, Hinge e Coffee Meets Bagel oferecem poucas informações a respeito dos usuários além de uma coleção de fotos e um perfil de duas linhas. “Serviços online proporcionam um grau de minuciosidade totalmente superficial”, lamentou um artigo da Fortune. Eles “deram origem a um comportamento de shopping escolha o que quiser que prioriza o aspecto mais do que nunca”.

Na realidade, como a pessoa aparece em algumas fotos não indica se você sentirá atração. Compreendi esta premissa durante um pequeno comercial que o OkCupid fez para promover um aplicativo para encontros às cegas; que chamamos Love is Blind Day. A premissa era simples: Por um dia, retiramos todas as imagens dos perfis do site. Os usuários gritaram - o tráfego do site despencou mais de 80% naquele dia. Mas os que ficaram, mantiveram conversas muito mais profundas e mais produtivas do que o normal. As respostas às mensagens chegaram rapidamente, e os encontros foram marcados mais depressa. O mesmo aconteceu entre pessoas que usaram nosso aplicativo do encontro às cegas. O atrativo de uma pessoa não teve nenhuma correlação com o sucesso do encontro. No fim das contas, o OkCupid funcionou melhor sem nenhuma imagem.

Evidentemente, o que limitava era o fato de que, sem as imagens para alegrar os usuários, o OkCupid sairia do ramo. Então voltamos a pôr as fotos, dando às pessoas a experiência do namoro que queriam: superficial, leve e provavelmente pior.

Tradução de Anna Capovilla