Você pagaria US$ 800 por um corte de cabelo?

Laura M. Holson - The New York Times

O presidente francês, François Hollande, gerou indignação quando foi divulgado que ele gasta mais de US$ 10 mil no salão por mês. Mas, em Nova York, há muitos homens que pagam valores altos por um corte

O cabeleireiro francês Christophe Robin é conhecido por cuidar dos cabelos dos estilistas John Galliano e Alber Elbaz.

O cabeleireiro francês Christophe Robin é conhecido por cuidar dos cabelos dos estilistas John Galliano e Alber Elbaz. Foto: Guia Besana for The New York Times

Quando os parisienses souberam que o presidente François Hollande pagava a seu cabeleireiro mais de US$ 10 mil por mês, um urro de indignação foi ouvido de Montmartre ao Marais. Desde que o presidente Bill Clinton fechou duas pistas de um aeroporto para um corte de US$ 200 a bordo do Air Force One, em 1993, as madeixas de um chefe de Estado não causavam tanta discussão. Mas, como o cuidado dos homens com a aparência vai empatando com o das mulheres – botox, plástica e depilação “lá embaixo”, também o preço do corte de cabelo masculino vai subindo. 

Que diga Tim Rogers, um estilista do salão Sally Hershberg, no centro de Nova York, que cobra um mínimo de US$ 400 e até US$ 800 por um corte. Tim vai regularmente aos Hamptons, de helicóptero, para atender uma clientela de operadores de fundos de cobertura e banqueiros de investimentos. Às 10 da manhã, esteve na casa de uma celebridade. No salão também atende clientela que inclui o campeão de tênis Roger Federer e John Kennedy Schlossberg, neto do presidente JFK. 

“Entendo que os preços para homens devem ser os mesmos cobrados às mulheres”, disse Tim, por telefone, de sua casa em Connecticut. Segundo ele, os homens são frequentemente mais exigentes que as mulheres. “Você tem de estar disponível para atender a qualquer hora, em qualquer lugar.” Mesmo que isso signifique estar conectado 24 horas por dia. “Para os clientes, não existe hora imprópria. Mas tudo tem seu preço.”

O cabeleireiro estrela Frédéric Fekkai causou espanto quando começou a cobrar das mulheres US$ 300 por um corte no fim dos anos 1990. Em meados de 2000, foi superado por Sally Hershberger e seu famoso corte de US$ 600 “esfregão desgrenhado” que definiu o estilo descuidado de Meg Ryan na época. Mas foi só nos últimos anos que o preço do corte de cabelo masculino começou a rivalizar com do feminino.

Hoje, em Nova York, não é difícil um salão de luxo cobrar US$ 300 pelo corte. E isso não inclui luzes, alisamento ou silken glosses. Martial Vivot, um parisiense que fundou em 2008 o Salon Pour Hommes em Nova York, cobra US$ 320 por um de seus cortes mais pedidos.

Lakshman Achuthan, chefe de operações do Economic Cycle Research Institute, tem seus curtos cabelos cuidados por April Barton, famosa pelos cortes de cabelo de roqueiros. Ele paga um pouco menos que a tabela de US$ 300 porque vai ao salão uma vez por mês. “Não tenho nada a ver com Hollande”, afirma. “Não me considero um gastador espalhafatoso.”

A cabeleireira April Barton é conhecida por seus cortes rock and roll.

A cabeleireira April Barton é conhecida por seus cortes rock and roll. Foto: Jessica Lehrman for The New York Times

Ele é cliente desde os anos 1990 e diz que com April procura não só cortar o cabelo, mas orientação. “Dez anos atrás ela disse que eu estava perdendo cabelo”, contou Achuthan, mostrando que hoje tem muito menos para cortar. “Ela disse que mantendo os cabelos limpos e não engordando eu estaria bem.” 

Achuthan aparece muito na televisão, o que significa que precisa estar sempre pronto para as câmeras. “Pensei que seria fácil para quem tem cabelo curto resolver com uma passada de máquina”, diz ele. “Mas, como todo nova-iorquino, não gosto que nada dê errado.”

April disse que, embora existe um boom nos salões de luxo, homens com cabelos compridos ou muito rebeldes ainda precisam de mais instruções. "A maioria dos barbeiros não são bons stylists", explicou. Ela já ensinou banqueiros a como usar corretivos para a raiz para esconder os fios cinzas. Recentemente, ela teve um cliente que pagou US$ 670 para um corte, alisamento e coloração. E isso não incluiu os produtos e a gorjeta. "O tipo de homens que pagam por isso são empreendedores de tecnologia", disse.

Rogers, do Sally Hershberger, disse que o tenista Federer, que possui vários stylists no mundo, é descontraído, se comparado a outros clientes. "Quem decide em geral é Mirka", disse, referindo-se a esposa de Federer. "Ele só não quer que o cabelo caia nos olhos." Federer, disse o cabeleireiro, "ama seu cabelo. E eu o amo."

Mas US$ 10 mil por mês gastos em salão não seria um pouco ridículo? Por décadas, muitos banqueiros do Goldman Sachs tiveram seus cabelos cortados por Salvatore Anzalone, um barbeiro com um salão no lobby do hotel Conrad. Ele cobra US$ 30 por um corte a seco (o shampoo custa US$ 7 a mais).

Não exatamente, disse Vivot. "A França é a capital da moda, e ele é o presidente do país", disse, referindo-se a Hollande. O cabeleireiro está sempre de plantão, como um médico. "Talvez se ele estivesse na Coreia, ele usasse um cabelo com volume cortado reto no topo", disse.

Robin Capili, um stylist no Sally Hershberger que treinou em uma barbearia (e que cobra um preço mais amigável de US$ 200), disse que ele nunca gastaria US$ 10 mil por mês. "Eu investiria em propriedades", disse.

Um de seus clientes, Drew O'Connell, que mora em Dallas, disse que US$ 800 seria um pouco demais. Mas depois de calcular o voo para Nova York a cada seis semanas (cerca de US$ 400) e outros custos, ele riu. "Não sei", disse. "Eu não quero pensar sobre isso."

April disse que, há algum tempo, ela teria gostado de arrumar o cabelo do candidato Republicano Donald Trump. Mas agora, ela diz, "eu não quero vê-lo."

Trump dedicou um capítulo de seu livro, "Trump: Como ficar Rico", para "A Arte do Cabelo", no qual ele falou sobre sua filosofia de cuidados com o cabelo. Se ele ficasse careca, ele escreveu, ele usaria uma peruca. "Eu nunca disse que meu cabelo é meu ponto mais forte", disse.

É pouco provável que ele visite o salão de April.