Vetements leva a disrupção à Alta Costura

MATTHEW SCHNEIER - The New York Times

Coletivo de moda francês se uniu a outras 17 marcas, como Levi’s, Brioni e Manolo Blahnik, para sua coleção de estreia na Semana de Alta Costura de Paris

Demna Gvasalia da Vetements

Demna Gvasalia da Vetements Foto: Julien Mignot for The New York Times

Segundo Demna Gvasalia, líder do coletivo de moda Vetements, a inspiração por trás de uma de suas peças mais famosas foi puramente prática. Ele e seu time criaram uma camiseta amarela com um logo vermelho da DHL - uma variação daquelas que os funcionários da empresa de entregas de fato vestem - porque a DHL era uma constante na vida da jovem marca, essencial para enviar amostras e protótipos internacionalmente entre as fábricas, estúdios e showrooms. A camiseta virou o look de abertura do desfile da coleção de primavera de 2016, realizado em um sombrio restaurante chinês, com um cast que misturava amigos estranhos e modelos. 

 

"Nós nos inspiramos em nossas rotinas", diz Gvasalia, 35 anos, em entrevista concedida em Paris, onde ele divide o tempo entre o estúdio da Vetements, na feiosa Rue du Faubourg Saint-Martin, e os escritórios suntuosos da Balenciaga, marca da qual é diretor criativo desde ano passado. "A DHL é uma grande parte das nossas rotinas no escritório. Ela estava lá desde sempre", afirma. É claro que nem toda camiseta com um logo da DHL é um item de alta moda, assim como nem todos os moletons Champion, revitalizados pela Vetements, custam US$ 775. 

Da mesma maneira, nem todas as grifes célebres por sua disrupção calculada e ataque ao status quo são convidadas para participar da semana mais prestigiada da moda, a de Alta Costura. No domingo, 3, a Vetements conseguiu essa proeza e participou do primeiro dia de desfiles da Semana de Alta Costura em Paris. E fez isso com a ajuda e colaboração de outras 17 marcas estabelecidas, entre elas Levi's, Hanes, Reebok, Juicy Couture, Brioni e Manolo Blahnik. 

 

É uma medida do quão longe a Vetements, que foi criada em 2014 por Gvasalia e seus colegas, chegou em dois anos. E de quão rápido a moda e as empresas de roupas, das de luxo até as de moda de massa, começaram a fazer fila para trabalhar com o estilista. "O apoio da indústria é bastante incrível, tendo em vista de onde viemos e há quanto tempo existimos", afirma Gvasalia. A marca existe em mais de 200 lojas no mundo inteiro, e Guram Gvasalia, 30 anos, irmão de Demna e diretor executivo da Vetements, diz que as vendas ultrapassam os oito dígitos.

Guram Gvasalia, diretor executivo da Vetements. 

Guram Gvasalia, diretor executivo da Vetements.  Foto: Julien Mignot/The New York Times

 

Depois que os Gvasalias decidiram mudar os desfiles de outubro para julho para deixas a coleção por mais tempo à venda, a Fédération Française de la Couture du Prêt à Porter des Couturiers et des Créateurs de Mode ofereceu a eles um espaço no calendário de Alta Costura. "Nós temos muita demanda para Alta Costura, muita", diz Ralph Toledano, o presidente da instituição. "Nós não podemos aceitar todo mundo. Mas a proposta da Vetements era interessante. Você tem que promover ideias novas, tem que ajudar novos estilistas com novas marcas."

 

Questionado sobre se alguma grife mais tradicional de Alta Costura reclamou da inclusão da Vetements, ele ri: "Quando você é forte, não tem medo de ninguém".

Demna Gvasalia conta que a decisão de trabalhar com marcas de fora foi pensada para simplificar a produção da coleção por causa do tempo apertado. "Foi para espalhar o trabalho, para a gente poder simplesmente relaxar e trabalhar nos conceitos", explica.

 

Mas ele admite que, na prática, não funcionou bem assim. Trabalhar com 17 marcas do mundo inteiro foi um desafio logístico. Ainda assim, além dos vestidos próprios da Vetements, todas as peças da coleção de primavera são colaborativas. A coleção foi apresentada nas Galeries Lafayette, a icônica loja de departamento parisiense, o que faz bastante sentido: a Vetements basicamente se reinventou como uma loja de departamentos ela mesma, uma parada única em uma loja para um guarda-roupa inteiro cheio de produtos grifados.

 

Gvasalia e seu time passaram a trabalhar com os  melhores produtos de cada marca (camisetas Hanes, sapatos Manolo Blahnik) e os retrabalharam à la Vetements, o que em geral acaba em uma espécie de desfiguração criativa. "Eu disse para Blahnik:  'nós provavelmente vamos querer lavar e ferver e queimar os sapatos, tudo bem para você?", lembra Gvasalia, citando como abordou o famoso designer de sapatos. "Ele disse 'por favor!'"

 

Nem todos se adaptaram logo de cara à proposta ousada, mas, no fim, todos os colaboradores concordaram em se "Vetementizar". "Nós recebíamos as peças, cortávamos, enviávamos de volta e ficávamos chocados com e-mails que diziam, basicamente, 'o que aconteceu?'", conta o estilista. Ainda assim, o retorno potencial para uma marca, especialmente para aquelas não geralmente associadas à alta moda, é ótimo. "É nossa primeira vez na passarela de Alta Costura de Paris", afirma Adriana Rizzo, diretora sênior de produtos da Lucchese, que faz botas de cowboy no Texas desde 1883.

 

Mesmo para empresas reconhecidas mundialmente, a chance de ser parte da gangue da Vetements supera qualquer hesitação. "Foi uma decisão fácil de tomar", admite Chris Haggarty, diretor da Champion Products Europa, que concordou rapidamente quando a Vetements o contatou (apesar de pouco antes ela ter "quebrado as regras" ao produzir os produtos com o logo Champion sem permissão). 

 

"Você nunca sabe - essas marcas vêm e voltam, algumas duram muito tempo, algumas perdem o poder de atração", diz Haggarty. "Eles são tão quentes e tão atuais. Pensamos que é melhor aproveitar enquanto temos a oportunidade." As recompensas também são muitas para a Vetements. O projeto aproveita a sabedoria de seus parceiros - a expertise de alfaiataria da Brioni, digamos - para criar o que Gvasalia define como "uma ideia moderna de alta costura, firmando parcerias com quem faz melhor cada produto.  

 

Isso deixa a Vetements no controle do destino comercial, no comando das vendas, distribuição e preços de todas as peças colaborativas. E eleva seu status por associação. Levi's, Hanes, Schott: todas são grandes marcas. Agora, por consequência, a Vetements também, alçada do underground para o centro do establishment.

 "A Vetements nesta temporada é como uma cola que une várias grifes", define Guram Gvasalia. 

"O que eu queria alcançar era realmente algo que eu tinha em mente desde que comecei a Vetements", diz Demna. "Claro que ninguém nos conhecia, não tínhamos recursos, nada - mas era um conceito bastante voltado para o produto." Agora a Vetements está resistindo às ofertas de venda e investimentos, e cresceu de quatro pessoas em um quarto para 25 em um estúdio e escritórios que já estão pequenos, com um ateliê na própria casa, parceiros e um time de desenvolvimento. "Agora finalmente podemos enviar os pacotes da DHL no modo 'expresso'", afirma o estilista.