Temporada masculina de Paris reflete tempos sombrios na passarela

Matthew Schneier - The New York Times

Desfiles que terminaram no domingo, 26, foram pesados, assim como as últimas semanas têm sido para a humanidade

Coleção de primavera 2017 da grife Acne

Coleção de primavera 2017 da grife Acne Foto: NYTimes

PARIS - Durante semanas, centenas de profissionais da moda estiveram seguindo desfiles mais ou menos da mesma maneira que groupies uma vez seguiram suas bandas preferidas: em bandos que pensam igual, passando por países e nações, falando entre eles em seus próprios dialetos, focados ao ponto de excluírem todo o resto de entretenimento disponível.

As semanas de moda são uma bolha, protegidas do mundo e muito mesmo guiadas por um motorista. Mas mesmo em uma bolha, a realidade às vezes se intromete. Foi uma temporada sombria para a moda masculina, da mesma maneira como foram semanas sombrias para a humanidade. Em Londres, Florença, Milão e Paris, onde a temporada terminou no domingo, 26, um medo parece ter predominado nos desfiles. 

A campanha presidencial americana está tempestuosa; o Brexit, primeiro teoria e depois realidade, levou a uma descrença entorpecida de muitos britânicos e do mundo todo. Os estilistas mostraram coleções para a próxima primavera e verão, mas o sol e a diversão pareciam algo longíquo. Com as nuvens se reunindo, a tendência foi se proteger da chuva.

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Com sua marca Acne Studios, por exemplo, o diretor criativo baseado em Estocolmo Jonny Johansson construiu um império global super bem sucedido. Mas, ao mesmo tempo, ele mantém uma aura de crise existencial, e passou o desfile de sua coleção de primavera olhando por uma janela, ruminando sobre a chuva. A coleção era sobre "o vazio do verão sueco", disse. "Um verão sueco é repleto de chuva, mas não neste ano, pela primeira vez", acrescentou. 

Não muito antes da Semana de Moda de Paris, chuvas persistentes fizeram o rio Sena transbordar, e o que chamou mais a atenção no desfile da Acne foram as capas de chuva laminadas, com xadrez de toalha de mesa, colarinhos exagerados e volumes exagerados. Foi uma coleção forte para a Acne, a primeira com um novo estilista para a linha masculina, Paul Surridge, que já trabalhou para a Z Zegna.

No desfile da Lanvin no dia seguinte, no domingo, 26, o estilista da linha masculina, Lucas Ossendrijver, optou pela proteção do militarismo funcional. As tropas da Lanvin marcharam pelo Palais de Tokyo, o museu de arte contemporânea da capital francesa, vestindo ternos com a bainha mal acabada, camisetas e calças com fita adesiva refletiva, parkas oversized e tênis com cadarços de hiking. 

Desfile da coleção de primavera 2017 da grife Sacai

Desfile da coleção de primavera 2017 da grife Sacai Foto: Valerio Mezzanotti/ NYTimes

O estilista falou sobre a "urgência e a pressa" das roupas, que tinham uma espécie de elegância para sobrevivência na mata. Muitas tinham amassados e cicatrizes: roupas caras finalizadas em prensas quentes para tirar um pouco de preciosidade. Novas em folha, pareciam já ter passado por batalhas. "Tem um sentimento de perigo, de escuridão, mas também de sedução", disse Ossendrijver.

Havia uma ameaça de perigo assustadora na Sacai, a linha da estilista de Tóquio Chitose Abe, algo muito esperado de uma coleção inspirada em "Laranja Mecânica". A designer ofereceu suas próprias versões dos chapéus bowler e botas pesadas presentes no filme, além de camisetas com as palavras "Horrorshow" (show de horrores). Mas "show de horrores" em Nadsat, vocabulário criado pelo autor do livro, Anthony Burgess, significa "maravilhoso", e a coleção foi isso também: mágica e colorida, cheia de shorts esportivos e calças volumosas, roupas com estilo militar recriadas em tons brilhantes e pops. 

Chitose consegue misturar diferentes peças, estampas, texturas e tradições, de forma que em uma mesma coleção hibiscos havaianos encontram o paisley inglês e listras de cobertores mexicanos. Ela não hesita por causa das disparidades. "Ser livre é ser moderno", disse. "Nós selecionamos todos os detalhes de todos os lugares do mundo e colocamos tudo junto. Por que não podemos viver juntos?"

E aí, de novo, a escuridão tomou conta, embora a estilista, que nunca havia estado em Paris para apresentar uma coleção masculina, manteve o humor (principalmente) leve. "Nós temos que aproveitar enquanto estamos sobrevivendo", concluiu.