O melhor do segundo dia da SPFW: street pop de luxo na LAB, À La Garçonne e Reinaldo Lourenço

Maria Rita Alonso - Especial para O Estado de S. Paulo

O estilo urbano encontrou o refinamento da moda de ateliê

O desfile da LAB, dos rappers Emicida e Evandro Fióti, emocionou os expectadores.

O desfile da LAB, dos rappers Emicida e Evandro Fióti, emocionou os expectadores. Foto: DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Estreou na segunda, 24, na São Paulo Fashion Week a marca LAB, dos rappers Emicida e Evandro Fióti. Foi uma comoção na sala de desfile. Com uma entrada triunfante, Emicida surgiu cantando a trilha feita especialmente para o evento. Na passarela, a maioria dos modelos eram negros. Alguns eram gordos. Uns tinham impressionantes cabelos black power, enquanto outros apareceram quase carecas. Incluindo as meninas. Havia uma fúria na maneira de desfilar e uma postura altiva. O músico Seu Jorge participou do desfile vestindo uma saia longa plissada e um moletom. O look resumiu bem o tom da coleção. “Sou uma mistura de referências muito bagunçada”, diz Emicida. “Partimos da inspiração de um samurai negro, o Yasuke. Mas o rap está bem representado nas criações. A essência da marca ‘é nóis’”. 

 

Em parceria com o estilista João Pimenta, os músicos investiram em estampas gráficas, peças amplas e estruturadas, quimonos e casacos com ombreiras. Capuz e golas exageradas arrematavam as produções. As calças não ficaram no meio termo. Eram amplas pantalonas ou leggins justinhas. A cartela de cores manteve-se no preto, no branco e no vermelho, dando ainda mais classe às roupas. No final, Emicida deu um show na tenda armada para o evento, no Parque do Ibirapuera.

A modelo Valentina Sampaio, que desfilou para À La Garçonne, é um dos destaques da temporada.

A modelo Valentina Sampaio, que desfilou para À La Garçonne, é um dos destaques da temporada. Foto: WERTHER SANTANA/ESTADÂO

 

O dia de desfiles começou com Alexandre Hertchcovitch. Aos 45 anos, ele se reinventou no comando da À La Garçonne, marca de seu marido Fábio Souza, que até outro dia vendia apenas móveis e objetos antigos restaurados. Juntos, Alexandre e Fábio fizeram uma apresentação pop, jovem, real e repleta de clássicos do estilo de rua. Tudo meio descolado, meio refinado. Trata-se de uma linha de criação que lá fora, em Paris e Milão, os críticos andam chamando de “streetwear couture”. Para entender o conceito, tenha em mente que a moda está celebrando o vestuário do cotidiano — calça jeans, camisa de algodão, moletom­, tênis, jaquetas de sarja — ao lado de elementos bem mais sofisticados, com tecidos fluidos, modelagens elaboradas e acabamentos de primeira. “A mistura da renda com o camuflado é tudo de bom, é o suprassumo do chique descontraído”, diz o stylist Paulo Martinez, que assistia ao desfile no subsolo do MASP. 

 

Para dar cara nova às peças de brechó, uma proposta da marca, o estilista convidou um pintor hiper-realista que decorou as paredes do hall de sua casa. A linha de jaquetas militares grandonas, folgadas, com pinturas decorativas feitas à mão foi o auge do desfile. Valentina Sampaio, uma modelo transgênero, vestiu uma delas. Nascida em Aquiraz, no Ceará, filha de um pescador e uma professora, ela é um dos destaques da temporada e já tem outros desfiles confirmados.

Os luxuosos vestidos de tule com aplicações de couro feitos por Reinaldo Lourenço. 

Os luxuosos vestidos de tule com aplicações de couro feitos por Reinaldo Lourenço.  Foto: AFP PHOTO / Nelson ALMEIDA

Veterano, Reinaldo Lourenço fez um desfile de encher os olhos. Brincou com uma estampa folk florida, depois apresentou uma linha de alfaiataria superchique, na qual usou um tecido de gravataria. Seguiu as proporções da temporada, que encurta o comprimento da calça e infla o volume dos casacos.  Falando assim, parece estranho, mas a combinação funciona em frente ao espelho. Engrandece a parte de cima da silhueta. Por fim, Reinaldo brilhou com uma linha de vestidos de tule com aplicações de couro, vazados em forma de pequenos losangos e faixas de cores fortes contrastando com preto. Um luxo bem contemporâneo.