Semana de Moda Masculina de Nova York: sincera, inclusiva e engajada

Guy Trebay - The New York Times

Ao contrário da temporada europeia, desfiles americanos pareceram mais atentos às causas e à situação política dos Estados Unidos, discutindo os temas do racismo e do militarismo

Coleção de primavera 2017 de Davidr Hart.

Coleção de primavera 2017 de Davidr Hart. Foto: Casey Kelbaugh for The New York Times

Ao terminar o líquido transparente em seu copo de plástico, o estilista Michael Kors sinalizou que era hora de começar o desfile. "Eu reabasteci meu copo de vodka, então estou pronto", disse. Eram 11 horas da manhã de uma terça-feira e Kors estava brincando. Eu acho. Daquele ponto em diante, o designer não estava para brincadeira, apresentando uma bonita e contida coleção de primavera masculina para um público pequeno de críticos e editores.

Para observar a intensidade do foco de Kors enquanto ele descreve, digamos, calças com pernas amplas de jeans perfeitamente proporcionais ou um blazer cor cáqui desenhado para um jovem rico imaginário, é obter um insight de uma qualidade que ele constantemente mostra, seja no programa "Project Runway", seja numa conferência para investidores ou em um desfile em uma loja de departamentos: sinceridade.

E a sinceridade, inesperadamente, foi uma temática na Semana de Moda Masculina de Nova York, que ocorreu entre os dias 11 e 14 de julho. Em sua terceira temporada, ela continua a desafiar os pessimistas provando que existem muitas razões para a sua existência. Logo de cara, um estilista americano de 26 anos desconhecido mostrou uma coleção inspirada nas vestimentas da Coreia do Sul. Esse é o local onde ele - Julian Woodhouse, um homossexual negro - está servindo como primeiro tenente do exército americano.

Coleção da marca Wood House.

Coleção da marca Wood House. Foto: Casey Kelbaugh for The New York Times

O estilista tirou uma licença para ir à Semana de Moda Masculina de Nova York e usou seu fundo militar para pagar pelo desfile da Wood House. Uma paixão assim não pode ser falsa. O passo das semanas de moda costuma ser tão intenso, os estilistas tão frenéticos, que é fácil deixar de perceber que as mensagens mais cruciais às vezes têm pouco a ver com tendências de passarela.

Claro, houve coleções de jovens talentos como David Hart, um designer cuidadoso que partiu de uma fascinação com o trabalho de LeRoy Grannis, uma lenda da fotografia de surf, e filmes de fotos de viagens de décadas atrás que pertenciam ao seu avô de 94 anos, para criar uma versão contemporânea certeira e discreta de roupas do sul da Califórnia.

Houve desfiles igualmente cuidadosos de outras marcas em ascensão, como o de Carlos Campos, que apresentou uma versão bem acabada das camisas guayaberas, e o dos estilistas Cadet, marca do Brooklyn, que recentemente receberam suporte financeiro da indústria para expandir os horizontes de uma grife inspirada - como o nome sugere - em roupas militares.

Em uma visita privada às galerias de tapetes do Vaticano, os estilistas da Cadet, Raul Arevalo e Brad Schmidt, tiveram a ideia de fazer um desfile de ternos e shorts com cinturas com elásticos e camisas que pareciam túnicas. "Eu pensei: 'vamos brincar com a arte, mas não ser tão literais'", disse Arevalo antes do desfile. As frases em latim em algumas das roupas também foram resultados da viagem à Europa, traduzidas nas notas sobre o desfile. 

Um modelo no backstage do estilista David Hart.

Um modelo no backstage do estilista David Hart. Foto: Casey Kelbaugh for The New York Times

E se por um acaso os estilistas escreveram errado a mais famosas delas, Amor Vincit Omnia (O Amor Conquista Tudo), eles ainda assim assim merecem pontos por tentar e, mais que tudo, por produzir um blusão de moletom cuja filosofia, Fac Fortia et Patere (Seja Corajoso e Resista, tradução livre), tem grande relevância neste momento da história americana.

Não é forçar a barra aliar este mote às hashtags do movimento "Black Lives Matter", cujos membros fizeram um pequeno, porém eficaz, protesto silencioso fora do local onde a maioria dos desfiles ocorreram. Com punhos e mãos levantados, vestindo camisetas pretas com os nomes Sandra Bland ou Walter Scott e o slogan arrepiador "Parem de Nos Matar", os manifestantes passaram o dia inteiro fora do QG da semana de moda, flanqueando um lugar na calçada onde os pavões de street style - a escritora Holly Brubach acertou em cheio quando ela os chamou de "ninguéns bonitos" - posavam para as câmeras.

Coleção de primavera 2017 da Cadet.

Coleção de primavera 2017 da Cadet. Foto: Casey Kelbaugh for The New York Times

Alguns pararam para encarar os manifestantes ou para tirar fotos. Outros, como uma jovem vestindo uma jaqueta bomber Yeezy com uma bandeira dos Confederados em uma das mangas, passaram com um ar de despreocupação.

"A indústria se beneficia de pessoas, estilistas, modelos e profissionais negros, mas se recusa a reconhecer a importância das vidas de negros", disse Hannah Stoudemire, uma blogueira que trabalha em vendas na Lanvin e concebeu o protesto.

Se na manhã Hannah expressou frustração com o Conselho de Estilistas dos Estados Unidos, que organizou a semana de moda, e a indústria como um todo, mais tarde naquele dia, quando os manifestantes se dispersaram, ela considerou a ação um sucesso."Eu falei com Steven Kolb", disse, referindo-se ao presidente do conselho. "E disse que estava com o coração partido porque a indústria que eu amo não me ama de volta, que ela não ama nem reconhece as vidas de negros, e ele me escutou. Ele publicou nossa foto na conta do conselho no Instagram, o que é grandioso."

Quaisquer que sejam suas intenções, a indústria de moda de Nova York merece crédito por se engajar em questões politicamente sensíveis que seus colegas mundo afora se recusam a reconhecer. Nas últimas cinco semanas, estilistas na Europa ignoraram o terrorismo, a violência armada e a vasta crise humanitária causada pela onda de imigração no continente. Eles alegremente mostraram coleções com inspiração militar ou se organizaram ao redor de temas como "glamping" (acampar com luxo) e a vida boêmia. 

Um protesto do movimento "Black Lives Matter" fora do QG da Semana de Moda Masculina de Nova York.

Um protesto do movimento "Black Lives Matter" fora do QG da Semana de Moda Masculina de Nova York. Foto: Guy Trebay/ The New York Times

Alguns tiveram desfiles com modelos exclusivamente brancas. Outros selecionaram menores de idade para desfilar. Embora a Semana de Moda Masculina de Nova York não tenha exatamente quebrado barreiras, ela ao menos mostrou uma consciência do mundo além dela. Isso pode ser visto, por exemplo, na bela dispersão cromática dentro e fora das passarelas, em desfiles que têm modelos de todas as etnicidades - como Cesar Ernesto, um belo rapaz moreno de 20 anos descoberto nas ruas do SoHo, o tatuado brasileiro Jonathan Bellini, e o lindo coreano Sung Jin Park - que foram vistos por um público igualmente diverso.

Dá para ver no protesto do movimento "Black Lives Matter" e a reação de um importante representante do conselho a ele, assim como nas pulseiras de couro usadas por muitas pessoas na primeira fila. Criadas por Donna Karan e Lise Evans como parte de um iniciativa da Urban Zen para protestar contra a violência armada, foram fabricadas no Haiti e os lucros são revertidos à organização "Everytown for Gun Safety". Cada uma é estampada com três palavras que viraram o mote do movimento para mudar as leis de controle de armas: "Nenhum a Mais".

Um slogan em uma camiseta não vai mudar o mundo muito mais do que uma hashtag. Mesmo assim, há motivo para apreciar quando estilistas como Arevalo e Schmidt usam um desfile de moda para transmitir uma mensagem que parece muito necessária. Bono Malum Superate, dizia uma das peças usadas por um dos modelos da Cadet: "Supere o Mal com o Bem."

Tradução de Marília Marasciulo