Ralph Lauren será o estilista oficial de Hillary Clinton na presidência?

Vanessa Friedman/The New York Times - O Estado de S.Paulo

De acordo com seus últimos looks, a democrata já escolheu a marca que vai prevalecer no guarda-roupa da Casa Branca

Hillary Clinton de Ralph Lauren no segundo debate dos candidatos à presidência dos Estados Unidos.

Hillary Clinton de Ralph Lauren no segundo debate dos candidatos à presidência dos Estados Unidos. Foto: Doug Mills/The New York Times

Enquanto os internautas estavam ocupados procurando possíveis mensagens subliminares na camisa “pussy-blow” usada por Melania Trump para acompanhar seu marido, Donald J. Trump, no segundo debate entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos no domingo, 8, a produção de Hillary Clinton pareceu mais significativa. Especificamente, sua escolha - um Ralph Lauren azul-marinho com lapela creme e blusa de lã no mesmo tom - serviu para melhor ilustrar a abordagem jovial-serena-superior que ela escolheu para contrastar com o Sr. Trump. 

Ela também usou um terninho vermelho Ralph Lauren para o primeiro debate presidencial, um duas peças gelo no discurso de aceitação da sua nomeação como candidata do partido Democrata, e um look azul royal da grife na abertura da campanha na Ilha Roosevelt. Em outras palavras, ela usou Ralph Lauren na maioria de suas recentes aparições na televisão. Se três são tendência, como eles dizem, quatro seria o que? Compromisso? Um padrão muito claro, para dizer o mínimo. 

Mrs. Clinton com look vermelho Ralph Lauren no primeiro debate da campanha.

Mrs. Clinton com look vermelho Ralph Lauren no primeiro debate da campanha. Foto: Doug Mills/The New York Times

Isso importa tanto porque significa que Hillary está usando roupas para endossar sua campanha, e por causa da importância que elas terão no futuro. Afinal, se ela ganhar as eleições, as roupas servirão de alicerce para construir a imagem da primeira presidenta dos Estados Unidos. E até agora, apesar do fato de uma representante afirmar que a marca não irá comentar sobre a relação, as evidências apontam que o Sr. Lauren será o responsável. 

Durante a campanha de 2008, a Sra. Clinton não se aliou a nenhum estilista. E mesmo que ela tenha usado muitas marcas nos meses de campanha e ainda que em seu tempo como secretária de Estado Hillary tenha optado por blazers Nina McLemore, o aumento do uso da Ralph Lauren recentemente e a capacidade do designer de fazer roupas que embelezam a candidata sem roubar os holofotes, tornam muito provável que essa parceria continue. 

Hillary também com look da grife americana na Convenção Nacional Democrata.

Hillary também com look da grife americana na Convenção Nacional Democrata. Foto: Jim Wilson/The New York Times

Certamente faria sentido, tanto do ponto de vista histórico quanto do profissional. Primeiras damas, de Jacqueline Kennedy (com Oleg Cassini) a Nancy Reagan (com Adolfo) frequentemente se aliam com um único estilista, que molda seu estilo e deixa o ato de se vestir mais simples. O Presidente Obama disse numa entrevista para a Vanity Fair durante seu primeiro governo que quanto menos decisões fizesse durante o dia, mais ele poderia focar em prioridades políticas. E um dos lugares mais fáceis de alguém reduzir opções é no guarda-roupa. Simplificando, o presidente tem coisas mais importantes para se preocupar do que roupas - o que não significa que elas não importam. 

Ralph Lauren é uma escolha interessante para a Sra. Clinton, tanto estética quanto estrategicamente. Lauren é, possivelmente, o mais americano dos estilistas: um homem que criou um império sobre a mitologia do selvagem velho oeste combinado com o estilo "reviver o passado em Brideshead". Ele é um homem que aparece no final dos seus desfiles usando botas de cowboy e jeans e tem um rancho com cabanas tão luxuosas que deixaram Oprah Winfrey verde de inveja. Um homem que vestiu o time norte-americano nas cerimônias de abertura e encerramento da Olimpíada do Rio de Janeiro e que (porque ele teve problemas) só produz suas peças nos Estados Unidos. Um homem que em 1998 doou US$13 milhões para a restauração da partitura original do hino americano. Nascido no Bronx, é um homem que começou sua carreira como vendedor de gravatas, e se tornou o típico estereótipo americano de sucesso. Ele também não é Europeu, o que soa bobo, mas distingue a Sra. Clinton de Trump, que prefere ternos Brioni, e de sua mulher, Melania, que usou as grifes italianas Fendi e Gucci e a britânica Roksanda Ilincic enquanto acompanhava seu marido.

Hillary Clinton de azul royal no lançamento de sua campanha em Nova York. 

Hillary Clinton de azul royal no lançamento de sua campanha em Nova York.  Foto: Doug Mills/The New York Times

Entretanto, ele não é um jovem necessitado de publicidade ou um designer aventureiro - como praticamente todos os estilistas que vestiram Michelle Obama nos últimos oito anos. A atual primeira-dama usou a sua figura pública para alavancar novos nomes americanos, para disseminar a ideia de que o país é um caldeirão de culturas e para expandir as definições de primeira-dama. E embora pareça que Ralph Lauren é uma escolha óbvia, dado sua influência no mundo da moda e suas roupas livres de polêmicas, ele na verdade não tem sido uma presença frequente na Casa Branca (deixando de lado um vestido preto usado por Michelle Obama). Essa honra pertence a Oscar de la Renta, que faleceu em 2014, mas vestiu primeiras-damas da Sra. Kennedy a Laura Bush durante sua carreira. 

A colaboração Clinton-Lauren iria gerar, sem dúvidas, resultados elegantes. Se ela se tornar presidente, iria estar sempre apropriada. Provavelmente os terninhos iriam continuar, porém ligeiramente mais ajustados do que de costume, e os vestidos estruturados iriam ficar mais suaves. Juntos, eles não iriam criar uma revolução da indumentária, abalar o “modo de vestir Angela Merkel” ou mudar o significado do visual de presidente. E isso provavelmente não é uma coisa ruim, já que o novo comandante do Salão Oval terá que fazer algumas mudanças, e não existe razão para desperdiçar capital político nas roupas. 

Porém, como mulher, eu não posso deixar de desejar que algo mais radical aconteça para que a feminilização do poder fique clara para todos, estejam eles escutando um discurso ou apenas rolando a linha do tempo do Instagram. E talvez, se Hillary for eleita, ela irá montar um guarda-roupa mais amplo e experimental. Nunca se sabe. Mas de qualquer forma, se a Sra. Clinton virar presidente, quem quer que ela use fará história. Pelo menos disso nós temos certeza.