Quem pagaria R$ 1 milhão por uma bolsa?

Desiree Au - The New York Times

A recente venda de uma Birkin, da Hermès, em um leilão em Hong Kong, mostra que há um mercado em expansão de investidores no mundo todo dispostos a pagar uma fortuna por um acessório

Com um valor de pré-venda entre US$ 190 mil a US$ 260 mil, a peça da Hermés foi anunciada como “a bolsa mais valiosa do mundo”.

Com um valor de pré-venda entre US$ 190 mil a US$ 260 mil, a peça da Hermés foi anunciada como “a bolsa mais valiosa do mundo”. Foto: Lam Yik Fei/The New York Times

HONG KONG - Num salão de leilões abarrotado de pessoas, a Christie’s Hong Kong realizou um leilão comemorando seu 30º aniversário. O catálogo das peças cuidadosamente selecionadas era composto de 30 lotes, cada um deles escolhido pelo seu atrativo e origem, e incluía objetos de arte, cerâmica antiga, joias, relógios, vinhos raros. E bolsas. Uma das atrações do leilão foi uma bolsa modelo Birkin, da Hermès, feita de couro de crocodilo do Himalaia, com fechos e alças de ouro branco e diamantes com peso próximo de 10 quilates. Com um valor de pré-venda entre US$ 190 mil a US$ 260 mil, a peça foi anunciada como “a bolsa mais valiosa do mundo”.

A multidão de pé no local, a maior parte da China continental, com alguns colecionadores de Taiwan e Japão, observava com muita expectativa quando Jussi Pylkkanen, presidente global da casa de leilão, anunciava os lances oferecidos, com os preços pela Birkin rapidamente superando os US$ 128.679. Em quatro minutos a bolsa foi vendida (para um colecionador particular) e já tinha sido estabelecido valor recorde de US$ 244.490 antes do lance oferecido por um comprador, de US$ 300.168 (o equivalente a mais de R$ 1,08 milhão).

O fato de uma Hermès Birkin alcançar um preço mais caro do que um pergaminho de parede que pertenceu à imperatriz chinesa Dowager Cixi da dinastia Qing de Hong Kong (US$ 128.800) ou um raro relógio de cúpula movido a energia solar Patek Philippe (cerca  US$ 128.800) testemunha a condição mítica da bolsa. “Nosso escritório em Londres começou a leiloar artigos de moda como parte das vendas de bens patrimoniais nos anos 1990, e em 2000 passou a incluir bolsas contemporâneas como peças de colecionadores”, afirma Matthew Rubinger, diretor internacional da área de bolsas e acessórios para a Ásia da casa de leilão. 

O leilão aconteceu na comemoração dos 30 anos da casa Christie’s Hong Kong. 

O leilão aconteceu na comemoração dos 30 anos da casa Christie’s Hong Kong.  Foto: Lam Yik Fei/The New York Times

Depois de um período bem sucedido de vendas de bolsas em leilões online, a Christie's abriu seus departamentos de acessórios e bolsas em Hong Kong e Paris em 2014. Quanto ao frenesi causado pela Birkin, Rubinger justifica: "Além dos diamantes que ela tem nos fechos, o branco é a cor mais difícil de se conseguir no caso da pele de crocodilo, uma vez que é preciso remover todo o pigmento natural. Fora que encontrar uma bolsa como esta que não foi usada é ainda mais raro”. O vendedor era um colecionador particular que era proprietário da bolsa desde 2008. Acredita-se que apenas uma ou duas dessas bolsas são produzidas a cada ano pela maison francesa Hermès.

O trabalho de Rubinger agora é conseguir bolsas para sua crescente clientela e avaliar a qualidade dos produtos consignados numa escala que vai de um a quatro (um para uma bolsa de uma marca nova a quatro por uma usada). Muitos são clientes da Christie’s e colecionadores de joias e arte, mas os consumidores abastados da Ásia estão rapidamente alimentando a demanda. “Chanel sempre teve sucesso no mercado secundário, como também Gucci e Balenciaga, mas Hermès claramente é a líder”, conta Rubinger.

Pode parecer estranho que algumas pessoas tratem uma bolsa como investimento, mas para um colecionador de bolsas Birkin, como Emily Chan, que opera um banco de investimento com sede em Hong Kong, o negócio vale a pena. Ela possui mais de 50 dessas bolsas, que comprou como cliente VIP de butiques em Paris, Hong Kong e Tóquio, e também em mercados secundários, por meio de leilões. “As bolsas Birkin são como moeda: você pode transformar em dinheiro a qualquer tempo”, afirma. Sua bolsa Birkin favorita é a de crocodilo do Himalaia. “Nos últimos 35 anos, a tendência de preço dessa bolsa é sempre de alta, seu desempenho é melhor do que o do ouro”, diz Emily Chan, que começou sua coleção em 1993. “No caso de obras de arte e joias, as barreiras de entrada são muito mais altas e esses mercados são voláteis. E não têm tanta liquidez como as bolsas Birkin”.

Essas bolsas dispararam em valor, cerca de 500% nos últimos 35 anos, aumento que deve dobrar nos próximos dez anos, de acordo com o baghunter.com, plataforma online de compra e venda de bolsas de luxo. Isso porque - mesmo além das casas de leilão, floresceu um mercado secundário de bolsas Birkin operado por um punhado de revendedores em locais que vão do Japão à Flórida. A loja Brand Off’s, no distrito de Ginza, em Tóquio, está a poucos metros da butique de referência da Hermès. 

Já a Loïc Bocher, conhecida revendedora em Paris, fundadora da Collector Square, criou o LuxPrice Index, um gráfico referencial para a Hermès, como também para relógios e joias, com os resultados de 200.000 transações em leilões. Bocher adquire suas bolsas de uma rede de lojas na Europa e as revende para clientes na Europa e Oriente Médio. Em seu showroom, elegantemente decorado como uma casa e não uma butique vintage, estão à mostra uma variedade de bolsas Hermès, dos modelos Birkin e Kelly, além da clássica bolsa Chanel 2.55. 

Nos Estados Unidos, a Privé Porter, comerciante sediada em Boca Raton, Florida, vendeu recentemente uma Birkin de crocodilo vermelha com alças e fechos em diamantes por US$ 298.000. Jebb Berk, o fundador da loja, que antes vendia relógios de luxo, começou a vender bolsas Birkin no eBay em 2012. “O interesse pelas bolsas foi avassalador”, conta ele, sobre as duas peças que vendeu. “Minha mulher e eu juntamos US$ 250.000 para investir no nosso primeiro estoque. Vem ocorrendo um processo de consolidação à medida que começamos a trabalhar com uma clientela VIP, estilistas e pessoas com parentes na Hermès para obtermos um suprimento bom de bolsas”, diz.

Em 2014, Robert Smith, magnata do segmento de fundos de hedge, e sua mulher, Hope Dworaczyk, uma ex-coelhinha da Playboy, pediu a Berk para lhe fornecer 30 bolsas Birkin para ele presentear na festa de Natal dos funcionários (seu orçamento era de US$ 500.000). “Levamos 30 dias, mas conseguimos”, conta Berk, provando que há um mercado em expansão desse tipo de produto milionário.

Tradução de Terezinha Martino