Precisamos falar sobre o roubo da Louis Vuitton no Rio

Jorge Grimberg* - Especial para O Estado de S. Paulo

Dois dias depois do desfile apoteótico da grife na cidade, a loja da marca em Ipanema foi depredada e saqueada. Jorge Grimberg analisa o impacto do crime no mercado nacional

MAC. Local foi escolhido para sediar o desfile da Coleção Cruise 2017, da grife Louis Vuitton

MAC. Local foi escolhido para sediar o desfile da Coleção Cruise 2017, da grife Louis Vuitton Foto: Divulgação

Eu não fui ao desfile da Louis Vuitton no Rio. Não fui por diversos motivos, sendo o principal deles o fato de eu não ter sido convidado. Mas, como parte pensante e atuante da nossa indústria da moda, participei de diversas reuniões durante o ano em que o grande desfile foi assunto quente de discussão. A pergunta na boca dos profissionais de moda era: afinal, vai ter desfile?

No final de 2015, o diretor criativo da marca, Nicolas Ghesquière, veio ao Rio de Janeiro. Encantado, como todos ficam com a nossa Cidade Maravilhosa, decidiu que seria ali o fabuloso desfile da coleção cruise 2017 da grife. Imagens publicadas no Instagram dele já anunciavam o caso de amor do estilista com o Rio de Janeiro - ele usou várias vezes a hashtag #inlovewithrio. Todos amamos o Rio. Não é um sentimento difícil de se identificar e gerar desejo. 

Imagens publicadas no Instagram do diretor criativo da marca, Nicolas Ghesquière,  já anunciavam o caso de amor do estilista com o Rio de Janeiro - ele usou várias vezes a hashtag #inlovewithrio

Imagens publicadas no Instagram do diretor criativo da marca, Nicolas Ghesquière,  já anunciavam o caso de amor do estilista com o Rio de Janeiro - ele usou várias vezes a hashtag #inlovewithrio Foto: Instagram

Pois 2016 começou. Com a terrível situação da economia, o desemprego, a pior recessão em décadas, passeatas, briga de poderes em Brasília. Por alguns meses, a gigante francesa se silenciou. "Não vai ter mais desfile! Todas as reservas no hotel Fasano caíram!", disse uma poderosa editora do mercado nacional. "Mas ainda não podemos dizer nada até a marca se pronunciar", completou. Uma revista semanal chegou a publicar que o desfile fora cancelado.

Semanas se passaram, o processo de Impeachment da presidente aconteceu e, assim, como se nada houvesse, a imprensa internacional anuncia com louvor em seus principais veículos: "A Louis Vuitton aterrisa no Rio de Janeiro". Foi como em 1808, quando foi anunciada a chegada da família real portuguesa ao Rio, o que me fez refletir sobre o quanto evoluímos - ou não - nos últimos 200 anos.

LOUIS VUITTON Women Collection Fall-Winter 2016/2017 © Louis Vuitton Malletier – All rights reserved
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De repente, pela primeira vez em 2016, havia uma notícia positiva sobre o Brasil na mídia internacional. Após tantos escândalos políticos, o terrível acidente na novíssima ciclovia carioca e epidemia do zika vírus como tópico central, Niterói receberia um espetáculo internacional. As reservas dos hotéis ressurgiram e, como num passe de mágica, a esperança reapareceu por aqui. 

Clientes abastadas foram 'convidadas' a comprar looks de cinco dígitos para serem 'convidadas' para o grande show. Até Catherine Deneuve veio e o espetáculo foi grandioso. Em uma das mais emblemáticas obras de Oscar Niemeyer, o MAC, Museu de Arte Contemporânea de Niterói, recebeu as criações de Ghesquière, um dos maiores gênios da arquitetura de moda vivo. Foi lindo. O MAC não foi somente o cenário do desfile, mas também uma das principais inspirações da coleção, que apresentou peças com recortes complicados e arquitetura atlética e suntuosa, assim como a Cidade Maravilhosa no ano dos jogos Olímpicos. 

Dois dias após o grande evento, o Rio de Janeiro voltou às manchetes internacionais. Dessa vez, para um regresso ao nosso cotidiano de notícias perturbadoras e vergonhosas: a loja da grife francesa na Rua Garcia d'Avila, em Ipanema, foi depredada e saqueada. A mesma grife que investiu milhões no Brasil no meio dessa avalanche tropical fora roubada. Segundo porta voz da marca, os bandidos levaram aproximadamente R$500 mil em mercadorias, o equivalente a US$ 140 mil. 

O clima futurista que domina a moda da Louis Vuitton atualmente encontrou o cenário perfeito para apresentar sua Coleção Cruise 2017, no Rio de Janeiro

O clima futurista que domina a moda da Louis Vuitton atualmente encontrou o cenário perfeito para apresentar sua Coleção Cruise 2017, no Rio de Janeiro Foto: LOUIS VUITTON Women Collection Fall-Winter 2016/2017 © Louis Vuitton Malletier – All rights reserved

Nos morros do Rio de Janeiro, a moda da Louis Vuitton apresentada no grande evento vai ganhar as ladeiras da maneira mais brasileira possível. É tão absurdo que nem um autor de mistério seria tão criativo. Em São Paulo, a grife já havia fechado em 2014 sua única loja ao ar livre na cidade, na Rua Haddock Lobo, nos Jardins, concentrando toda a sua operação em shoppings centers. Talvez a mesma iniciativa no Rio de Janeiro tivesse poupado a situação.

É uma pena perceber que realmente os números não mentem e atualmente o Brasil não é um local seguro para investimentos internacionais. Ainda assim, nos resta continuar trabalhando para um Brasil melhor e um retorno à esperança. Que venham as Olimpíadas.

* Jorge Grimberg é empresário, escritor, consultor de moda e especialista em tendências