Por que a indústria de beleza ignora as modelos plus size

Crystal Martin - The New York Times

Garotas de tamanhos maiores estão usando as mídias sociais para serem vistas e ouvidas

Da esquerda para direita, Clémentine Desseaux, Jennie Runk, Philomena Kwao e Paloma Elsesser, todas modelos plus size. 

Da esquerda para direita, Clémentine Desseaux, Jennie Runk, Philomena Kwao e Paloma Elsesser, todas modelos plus size.  Foto: Isak Tiner/The New York Times

A foto de Philomena Kwao arranca logo um profundo “uau!” de quem olha: ela é linda de doer. Seus olhos são ao mesmo tempo vivos e serenos, as maçãs do rosto e a testa são altas, o queixo é fino e arredondado. É um visual diferente, mas nem tanto para monopolizar a atenção. Em outras palavras, Philomena tem um rosto feito para ser maquiado, mostrando o poder dessa arte e o talento de seus artistas.

 

Mas Philomena e outras modelos “plus size” como ela são ostensivamente ignoradas pela indústria de cosméticos.

 

“Não há trabalho para nós nesse ramo”, diz Philomena, nascida em Londres. “Tive sorte de fazer alguns anúncios e ensaios no Reino Unido, mas nunca fui chamada para participar de comerciais de grande divulgação. Acho que é porque as pessoas têm medo de tentar coisas novas. É algo como ‘se tenho uma fórmula que funciona, para que mudar?’”

A londrina Philomena Kwao é uma das modelos plus size que luta pela inclusão na indústria da beleza. 

A londrina Philomena Kwao é uma das modelos plus size que luta pela inclusão na indústria da beleza.  Foto: Isak Tiner/The New York Time

Um comercial de batom não exige que a modelo seja magra. Por que, então, não se contratam as cheinhas? Para alguns, a culpa é da transformação da beleza em mercadoria.

 

“Beleza implica imaginar onde você pode estar no futuro”, diz Brooke Erin Duffy, professora na Universidade Cornell especializada em estudos da mídia feminista e cultura do consumo. “É você se imaginar parecendo-se como uma celebridade ou modelo. É essa promessa de recompensa futura que gera a procura.”

 

Brooke assinala que essa mulher idealizada geralmente é alta, branca, magra e com porte aristocrático. É um ideal de moda nascido do conceito de classe e raça dos anos 1920, quando a cultura de consumo americana e o ramo de modelos cresceram simultaneamente. Enquanto alguns elementos desse ideal de beleza mudaram com o tempo, o padrão de corpo permanece o mesmo.

 

Palmo Elsesser, escritora e modelo plus size foi garota-propaganda da marca da renomada maquiadora Pat McGrath

Palmo Elsesser, escritora e modelo plus size foi garota-propaganda da marca da renomada maquiadora Pat McGrath Foto: Isak Tiner/The New York Times

“Os anos 1950 são frequentemente citados como a época das curvilíneas, mas isso não é totalmente verdadeiro”, diz Elizabeth Wissinger, autora de “This Year’s Model” (A modelo do ano) e professora de estudos da moda na City University de Nova York. “Sim, as gordinhas eram populares, mas as pessoas tinham mais naturalmente esse corpo, consagrado por estrelas do cinema como Marilyn Monroe. Moda, porém, era outra coisa, e as modelos eram magras.”

 

Decisões práticas e de negócios também influenciam. “Modelos plus-size obviamente são necessários , pois há linhas plus-size”, diz Jennie Runk, modelo que ganhou popularidade com a campanha de maiôs H&M de 2013. “Mas quando se pensa em imagens em que corpos não estão envolvidos, não há muito a discutir sobre diversificação de tamanhos.”

 

Empresas de moda podem conquistar mais publicidade e simpatia se usarem modelos gordinhas. Já os fabricantes de cosméticos alegam que não se beneficiaram com esse uso, pois corpos não entram em suas campanhas publicitárias.

 

Jennie Runk ficou conhecida no mercado após aparecer na campanha de moda praia da H&M em 2013

Jennie Runk ficou conhecida no mercado após aparecer na campanha de moda praia da H&M em 2013 Foto: Isak Tiner/The New York Times

“As pessoas não costumam ir até o fim dos sites das agências”, diz Jennie Runk. Nesses sites, os primeiros rostos que se vê são de modelos-padrão. Se uma agência tiver modelos plus-size, elas aparecerão alguns cliques adiante, tornando improvável que os responsáveis pela escolha cheguem até uma modelo gordinha, a menos que olhassem logo para uma.

 

Há exceções. Nos anos 1990, a modelo plus-size e personalidade de TV Emme Aronson tornou-se a voz dos cosméticos Revlon. Queen Latifah foi por mais de uma década o rosto da Queen Collection, da CoverGirl, uma linha de maquilagem para pele escura. Numa parceria com a série de TV “Empire”, a CoverGirl apresentou Gabourey Sidibe, uma das atrizes do seriado. E há quatro anos a MAC apresentou uma coleção com a cantora Beth Ditto.

 

“Não existe uma fórmula”, diz James Gager, diretor de criação e vice-presidente da MAC cosméticos, falando sobre como a companhia escolhe suas modelos. “Se a modelo tiver confiança em si mesma e em como atua, tamanho é irrelevante.”

 

Mesmo assim, ele acrescenta: “As pessoas estão acostumadas a ver apenas um tipo de beleza e leva tempo para mudar isso. Acho que a MAC é parte dessa mudança”. Gary Dakin, que dirigiu o setor de modelos “plus” da Ford Models até 2012 e depois abriu agência própria, a JAG Models, concorda: “Sei que diretores de escalação estão pressionando pela diversidade de tamanhos, e os agentes, por sua vez, também pressionam”, diz.

A modelo e blogueira Clémentine Desseaux postou um vídeo no seu Instagram usando batom vermelho da Christian Louboutin

A modelo e blogueira Clémentine Desseaux postou um vídeo no seu Instagram usando batom vermelho da Christian Louboutin Foto: Isak Tiner/The New York Times

 

Para ele, o problema é que a indústria se guia pelas celebridades. “As empresas querem tais e tais nomes, embora eles não necessariamente vendam. É isso que prejudica, mais que tudo, a causa plus.”

 

Contratos com empresas de cosméticos são o santo graal do setor de modelos, podendo torná-las famosas e ricas. Por isso são reservados para um seleto clube de estrelas do cinema, ícones pop e modelos já famosas. Como a categoria plus-size ainda é apenas um segmento no mercado americano, é difícil para modelos dessa categoria ficarem conhecidas.

 

Mas isso começa a mudar.

 

“O Instagram está dando voz a essas garotas”, diz Becca Thorpe, ex-modelo e hoje agente da Muse NYC, especializada em modelos cheiinhas. “Posso agora apresentá-las de um novo jeito. As empresas precisam saber qual a função de um modelo e se tal pessoa se alinha ou não com sua marca. Se estão procurando coisas diferentes, ousadas e com a voz das ruas, vão ter de começar a acompanhar o Instagram.”

 

O jeito despretensioso e cool da modelo-escritora Paloma Elesser é habilmente articulado em sua conta no Instagram, o que chamou a atenção da artista da maquilagem Pat McGrath. No ano passado ela escolheu Paloma como o rosto de sua linha Pat McGrath Labs.

“Há algo fantástico na mistura de excentricidade e beleza”, diz Pat. “Paloma é uma voz forte da diversidade e da atitude positiva em relação ao corpo na moda e na indústria e cosméticos. As grifes de cosméticos começam aos poucos a adotar a diversidade, mas ainda há muito a ser feito antes que mulheres de todas as cores, tamanhos e identidade sexual sejam representadas com equidade. Se estou conseguindo fazer isso é porque posso estabelecer meus próprios termos.”

 

A modelo e blogueira de estilo de vida Clémentine Desseaux também sacudiu a indústria no fim do ano passado ao postar no Instagram um vídeo em que aparece de cara lavada usando um batom vermelho Christian Louboutin, em Paris. O vídeo viralizou, e embora não haja relação oficial entre a marca e a modelo, o público viu possibilidade disso. “Todo mundo ficou parado naquele rosto limpo com batom vermelho. É inusual, – um choque entre essa grife classuda e algo natural e sem retoques”, diz Clémentine.

 

Talvez mais promissor seja o crescente apelo de massa de modelos cheiinhas. Ashley Graham, modelo de capa este ano do número de Sports Illustrateddedicado a trajes de banho, apresentou em maio uma coleção de esmaltes de unha da Sephora. Neste julho ela também pôs no Instagram fotos em que aparece maquilada com produtos Revlon (embora não tenha até agora relações formais com a marca).

 

Iskra Lawrence,conhecida por suas campanhas de lingerie e maiôs da rede de varejo de lingerie Aerie, vem reunindo uma legião de seguidores. Sua defesa da aceitação do corpo, desafiadora e às vezes agressiva, frequentemente se torna viral. Como o selfie que postou em maio no qual aparece numa academia de ginástica, com o rosto afogueado pelo exercício, tendo como texto: “Faço isto para poder comer o que quero (com moderação). Não faço dieta, não conto calorias e há seis anos não me peso”. Essa franqueza e confiabilidade ainda podem lhe valer um contrato com a indústria de moda ou de cosméticos.

“Estou sempre trabalhando para ampliar minha base”, diz Iskra. “Penso que se as modelos curvilíneas fizerem isso, os fabricantes de cosméticos vão começar a trabalhar conosco também. Se fizermos bastante barulho, podemos mudar as coisas.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ