O que aconteceu na Oscar de la Renta?

Vanessa Friedman - The New York Times 

A saída de mais um estilista de uma grande maison levanta discussão sobre o futuro dos criadores em uma nova era da indústria da moda

O estilista Peter Copping deixou a direção criativa da Oscar de la Renta após menos de dois anos no cargo.

O estilista Peter Copping deixou a direção criativa da Oscar de la Renta após menos de dois anos no cargo. Foto: Elizabeth Lippman for The New York Times

"Não sei se vai funcionar. Mas o que eu vi está muito bonito. Saberemos em breve."

Quem disse isso no início do ano passado foi Alex Bolen, diretor executivo da Oscar de la Renta, pouco antes do primeiro desfile de Peter Copping como novo estilista da marca. Era também o primeiro grande desfile da grife desde a morte de Oscar de la Renta em outubro de 2014. E, acima de tudo, era o primeiro teste para determinar se a decisão de de La Renta em nomear um sucessor (em uma indústria na qual a maioria dos estilista se recusa a admitir a possibilidade da própria morte) significaria um novo marco para seus colegas. 

A resposta veio no último dia 20, nem dois anos depois: não.

Copping deixou a grife, nenhum substituto foi nomeado e um time interino ficou responsável pela coleção de primavera 2017.

O que aconteceu?

Em um comunicado notavelmente curto e grosso para a imprensa, a única razão sugerida para a partida de Copping foi "motivos pessoais". O estilista, baseado em Nova York, disse que iria voltar à Europa. Ele é britânico e passou quase toda a carreira em Paris, trabalhando para marcas como Nina Ricci, onde foi diretor criativo, assim como Louis Vuitton, Sonia Rykiel e Christian Lacroix.

Em sua declaração, Alex Bolen desejou boa sorte ao estilista, mas ele não fez o que se tornou padrão nesse tipo de comunicado no último ano, que teve uma grande dança das cadeiras no mundo de estilistas: Bolen não agradeceu a Copping pelo que ele fez na marca muito menos sugeriu que quaisquer "projeto" que eles tenham combinado foi concluído, e que que portanto estaria na hora de dar um novo passo.

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(Isso foi, por exemplo, o que Gildo Zegna disse quando Stefano Pilati saiu da Emernegildo Zegna em fevereiro, depois de três anos na marca, e o que os executivo da Yves Saint Laurent disseram quando Hedi Simane deixou a empresa em março.)

Também é sabido que o estilista tinha um contrato de longo prazo - o padrão na indústria é de três ou cinco anos - que ainda não havia expirado, então ele não saiu por causa de renegociações. E ele mudou toda a vida para se mudar para Nova York.

Tudo isso sugere que embora sua saída possa ser por razões não ligadas ao trabalho, isso parece improvável. (Nenhum dos dois estavam disponíveis para comentários). E, ao mesmo tempo, realça a alquimia necessária para um casamento entre estilista e marca. Em tempos em que os estilistas cada vez mais parecem estar pulando de grife em grife, e as empresas estão testando e rejeitando os estilistas cada vez mais rápido, vale a pena parar e reconhecer que o casamento de um criador e uma companhia é mais complicado do que parecia e que, como qualquer relacionamento, vai passar por altos e baixos.

Se você consegue superá-los, o resultado final é frequentemente mais rico, cheio de experiência compartilhada e história. Mesmo assim, nós parecemos estar em um ciclo de divórcios rápidos.

No papel, Copping parecia ser o parceiro perfeito para de la Renta. Assim como o lendário estilista, ele era conhecido por sua apreciação ousada da feminilidade. No caso de Copping ela frequentemente se transformava em vestidos camisola de seda e renda, enquanto no de de la Renta ela pendia mais para o tafetá. Assim como de la Renta, que trabalhou como costureiro na Balmain, ele tinha experiência trabalhando em um ateliê parisiense. Ainda como de la Renta, ele adorava colecionar móveis e pinturas, e trabalhar em jardins. E ele tinha o apoio da indústria, especialmente de Anna Wintour, editora da revista Vogue americana, que foi crucial para que ele chegasse até a grife. 

Peter Copping durante um desfile da Oscar de la Renta em setembro deo 2015. Mr. Copping during a fashion show in September.

Peter Copping durante um desfile da Oscar de la Renta em setembro deo 2015. Mr. Copping during a fashion show in September. Foto: Erin Baiano for The New York Times

No entanto, ele só durou três ciclos de prêt-à-porter.

É possível que, dadas as circunstâncias nas quais Copping começou - uma companhia de luto, um mercado estagnado por temores geopolíticos - o casamento nunca teria dado certo. E que não importa como a empresa articulasse suas expectativas, seria impossível saber o que ela realmente queria (a marca nunca teve a liderança de ninguém além de Oscar de la Renta). Ela podia estar aprendendo ao longo da experiência, e aprendeu que o que ela queria ao escolher Copping não era, na verdade, o que ela queria.

É possível que tentar absorver um estranho no que era uma empresa essencialmente familiar (Bolen é enteado de de la Renta; sua esposa, Eliza, também trabalha na empresa e a maior parte da equipe esteve com o estilista por décadas), mesmo alguém como Copping, que tentou fazer mudanças sutis, fosse algo simplesmente muito chocante, internamente e externamente. 

É possível que, em vez de optar por um estilista já conhecido internacionalmente, o melhor teria sido eles escolherem um nome tão famoso. 

Certamente, você consegue perceber a tensão nas coleções, que parecem divididas entre Oscarismos e Coppinismos, entre o desejo de arejar um pouco uma marca conhecida por sua perfeição imaculada, e apelar para um conjunto de coloque-o-vestido-de-baile-e-vá, e a necessidade de satisfazer o cliente tradicional e clássico.

Mesmo assim, estes são julgamentos fáceis de serem feitos em retrospectiva, e é possível que, com o tempo, isso tivesse sido resolvido. Empurrar uma marca em uma nova linguagem de estilo e conseguir que seus consumidores a falem é complicado, especialmente quando você não pode fazer uma revolução do dia para a noite, como Phoebe Philo fez na Céline e Hedi Slimane fez na Saint Laurent. Mas o tempo é o único luxo que não parece ser mais parte da indústria de luxo.

De qualquer forma, a saída de Copping deixa outra marca sem líder e cria uma nova vaga, perpetuando o ciclo.

O que levanta outra questão que a moda precisa encarar: será essa nossa a nova realidade - estilistas saindo, ou sendo demitidos, a cada poucos anos? Até agora, todo esse vai e vem tem sido tratado como uma aberração na indústria, mas Copping é o oitavo estilista a sair de uma marca após um único contrato (ou menos, no caso dele) desde julho passado.

Oito!

Isso não é casualidade. É tendência. E não é boa, tanto para as marcas quanto para as mulheres que compram as roupas. Talvez seja hora de considerar a ideia de que mais do que instalar novos estilistas em maisons clássicas, a estratégia atual mais popular, nós devamos apoiá-los a abrir suas próprias marcas (ou pelo menos estética). Quando você cria seu próprio legado, a responsabilidade emocional e criativa é, afinal, muito maior. 

Assim como o custo, sem dúvidas. Mas talvez, só talvez, o que isso tudo nos mostra é que, no fim, vale a pena.

Tradução de Marília Marasciulo