O estilista sem fronteiras

Guy Trebay - The New York Times

Preceito de que a moda sem uma história é apenas costura ajuda a impulsionar a marca de Hiroki Nakamura, a Visvim, do status de indie de Tóquio para um negócio de US$ 100 milhões em vendas

O estilista japonês Hiroki Nakamura, da marca Visvim.

O estilista japonês Hiroki Nakamura, da marca Visvim. Foto: Chris Warde-Jones for The New York Times

O momento estava preparado para o kitsch ou a magia; poderia ir para qualquer um dos lados. Em uma manhã quente de verão em Florença, na Itália, o ar com um inebriante perfume de camélia em flor, o público da feira de moda masculina Pitti Uomo cruzava os túneis de plantas bem cuidadas nos Jardins Renascentistas de Boboli para um desfile do estilista japonês Hiroki Nakamura.

Parando primeiro em um quiosque, logo depois da Porta Romana, as pessoas vestiam quimonos com padrão chevron que Nakamura, de 45 anos, havia encomendado de um artesão tradicional de Kyoto. Assim vestidos, moviam-se como um grupo em direção à "Lemon House" de Zanobi del Rosso, do século 18, parecendo membros de uma delegação diplomática na corte de Medici em uma xilogravura de Hiroshige.

Na verdade, eram apenas os compradores, a imprensa e os organizadores do grande evento de moda. E mesmo assim, a moda sem uma história é apenas costura. É a perspicaz compreensão desse preceito que ajuda a impulsionar a marca de Nakamura, a Visvim, do status de indie de Tóquio para um negócio de US$ 100 milhões em vendas.

"Parte do que faz a Visvim ser tão poderosa é que ela evoca alguma coisa nas pessoas. Só levo Visvim em minhas turnês. Vou levar todas as madras xadrezes", disse o músico John Mayer, que usa criações de Nakamura no dia a dia e no palco.

Ele representa o topo da base de fãs do estilista, compartilhado com Pharrell Williams, Eric Clapton e ASAP Rocky. Embora ainda desconhecido do grande público, esse segredo "dos iniciados" cresceu em apenas 15 anos e hoje conta com sete lojas no Japão e 135 outras pelo mundo.

"Quando comecei meu negócio, me perguntava o que queria com isso e percebi que queria criar produtos que me fizessem feliz. Queria criar também uma marca que fosse atemporal e sem fronteiras", disse Nakamura uma vez a este repórter.

Nakamura viera para Florença com sua esposa americana, Kelsi, de Los Angeles, onde o casal passa metade do ano com Riko, filha de 11 anos de um relacionamento anterior dele. A outra metade eles passam em Tóquio, em uma casa de madeira centenária cercada por um exuberante jardim murado.

Foi lá que visitei Nakamura algumas semanas antes da Pitti Uomo, para melhor compreender as criações de um homem que, de certa forma, é tanto curador quanto estilista, um estudante de tudo, de têxteis tribais até cortes de cabelo rockabilly e automóveis clássicos.

"Comecei a colecionar quando tinha 14 anos. E ainda coleciono", disse Nakamura.

Nakamura abriu a porta de um tansu (armário/despensa). Lá dentro, dezenas de tecidos dobrados empilhados: kantha de Calcutá, na Índia; Teec Nos Pos de uma reserva navajo; fragmentos de seda bordada da província de Herat, no Afeganistão; lã cochonilha tingida do Nepal, tudo selado em sacos plásticos para protegê-los contra o mofo e os insetos.

"Minha inspiração vem principalmente dos tecidos antigos, coisas lindamente feitas no passado. Sempre quis fazer coisas que, mesmo que tenham o estilo vintage do qual tanto gosto, tenham também uma energia forte", disse Nakamura, que, desde a adolescência, fuçava brechós atrás de artigos da Segunda Guerra Mundial, jeans dos anos 50 e casacos de peregrinos budistas.

Ao ser perguntado por que certas coisas antigas possuem "energia" enquanto outras, não, Nakamura sorriu e encolheu os ombros.

A resposta pode estar, novamente, na filosofia japonesa tradicional. Acredita-se que os mestres de certas disciplinas do takumi, ou "ofício", chegaram a isso como resultado de habilidades desenvolvidas durante toda a vida.

Desfile da Visvim na Pitti Uomo.

Desfile da Visvim na Pitti Uomo. Foto: Chris Warde-Jones for The New York Times

O aperfeiçoamento dessas habilidades, ou waza – como um samurai polindo uma espada –, não é tanto um fim em si mesmo, mas uma prática que forma todas as dimensões de uma vida completa. Todo objeto bonito seria então um incentivo para considerar a mão por trás de sua criação.

"Artigos feitos à máquina são mais perfeitos que o objetivo original. No mundo moderno, as coisas são extremamente padronizadas. E para mim, isso é chato. Sou atraído para as coisas naturais e a irregularidade, a humanidade das coisas feitas à mão", disse Nakamura.

Nem sempre é claro o modo em que essa abordagem se ajusta ao ambiente distópico e sombrio da Tóquio moderna, mas ainda é possível ver como certa dicotomia entre as sensibilidades industrializadas do século 21 e um senso cultural tradicional de estética desempenha seu papel.

Para Gianluca Cantaro, editor-chefe da revista L'Officiel Hommes Italia, é precisamente essa duplicidade que fez da marca outrora obscura de Nakamura um sucesso.

"Eles são uma ilha e sempre serão uma ilha. Quaisquer influências que tomem de fora – e eles são superinspirados na vida americana e californiana, e nas imagens que isso envolve –, sua visão dos EUA nunca é exatamente os Estados Unidos. Não é uma citação. Não é uma tradução."

Nakamura pode ter começado sua carreira com a mais americana das marcas, a Burton Snowboards (desenvolveu suas habilidades com materiais de alta tecnologia ao trabalhar lá), em Vermont; ele pode dirigir um Jeep Wagoneer 1979 em Los Angeles e andar na sua moto Indian Chief 1948 pelos desertos da Califórnia; pode usar adornos de prata navajos e pendurar uma bandeira americana em uma parede de sua casa em Tóquio.

Porém, como muitos de seus compatriotas que assimilaram estilos americanos tradicionais – o movimento Ametora – ele continua, segundo Cantaro, "completamente japonês".

De qualquer forma, esse era o consenso de uma multidão um pouco perplexa em Florença. Trajando quimonos para entrar em um edifício no estilo barroco-francês, todos se viram assistindo a uma apresentação de um grupo de dançarinos vestidos de marinheiros americanos.

Girando suas garotas ou seus esfregões, dançaram o velho rock, daquele tipo que você ouve nas jukeboxes em qualquer Johnny Rockets.

O desfile continuou com um tema que parecia ser carregado de arquétipos americanos: rancheiros e cowboys, trabalhadores de caldeiras em seus uniformes, denim retrô e mantas quadriculadas, os primeiros anos de Marlon Brando e James Dean.

Reparando bem, no entanto, as jaquetas fechavam como quimonos e eram enfeitadas com imagens criadas por um artesão tradicional de Kyoto, que faz as bandeirolas de peixes usadas no feriado do dia das crianças.

Na verdade, quase nenhum dos tecidos ou técnicas usados para criar uma imagem americana da Visvim foi feito nos EUA, cujas próprias tradições de manufatura agora são, em grande parte, coisa do passado. Nem pastiche, nem homenagem, nem caricatura fácil, o desfile acabou sendo algo mais complexo e assombroso. Era a representação que um viajante faz de um lugar visto uma vez, ou mesmo nunca visto, apenas imaginado: os Estados Unidos, a mira.