O circo dos looks de street style toma conta das fashion weeks

Guy Trebay - The New York Times

Por que cada vez mais os frequentadores das semanas de moda estão lá para serem vistos - e não para ver

Pandora Sykes, editora de moda do Sunday Times, durante a Semana de Londres.

Pandora Sykes, editora de moda do Sunday Times, durante a Semana de Londres. Foto: Marcy Swingle/The New York Times

Você se lembra da época em que víamos, nas semanas de moda, grupos de fotógrafos se ajoelhando para fotografar o sapato de alguém? Agora essa época parece distante e pitoresca.

Como bem observaram os editores da Vogue em um texto sobre a Semana da Moda de Milão, recebido com elogios por jornalistas e escárnio por blogueiros, as ruas agora são um meio de promoção de estilos e tendências já em circulação, com praticamente nenhuma relação com as novidades de dentro das salas de desfiles. A revista vê a prática do street style - e o fato dele ser o foco de todas as fotos do Instagram - com pesar, atribuindo a esse fator a morte do verdadeiro estilo. 

Os blogueiros contra-atacaram criticando a politicagem dos veículos que se beneficiam ricamente do relacionamento próximo com estilistas e marcas. "Blogueiros que vestem roupas pagas ou emprestadas estão meramente utilizando do sistema de crédito editorial de uma maneira mais óbvia", escreveu  blogger britânica Susanna Lau (perfil: @susiebubble) para seus 277 mil seguidores no Twitter. E acrescentou: blogueiros também têm contas para pagar.

A extravagante Anna Dello Russo, editora chefe da Vogue Japão, é conhecida por suas muitas trocas de roupa. 

A extravagante Anna Dello Russo, editora chefe da Vogue Japão, é conhecida por suas muitas trocas de roupa.  Foto: Marcy Swingle/The New York Times

Em última análise, foi uma tempestade passageira gerada por uma terminologia descuidada. As criaturas sobre as quais a equipe da Vogue se referiu não são blogueiros – não criam conteúdo original, escrito ou visual –, mas sim exibicionistas. Seja de que lado for, no entanto, essa nova realidade destaca uma dificuldade enfrentada por aqueles que frequentam os meses de desfiles, realizados duas vezes por ano em Nova York, Londres, Milão e Paris: para muitos, se arrumar de manhã para chamar a atenção das câmeras é agora em parte trabalho, em parte um esporte cruelmente competitivo.

Tradicionalmente, editores, lojistas e estilistas, embora tenham a tendência de se vestir bem, o fazem com o anonimato em mente. O show é o trabalho dos estilistas. Ainda há exceções, principalmente entre as pessoas cujos nomes você não sabe. Tonne Goodman, diretora de moda da Vogue, usa seu invariável uniforme monocromático composto por golas altas, calças e sapatos baixos. Tiziana Cardini, diretora de varejo da cadeia de loja de departamentos Rinascente, na Itália, se veste tão discretamente e bem que não corre nenhum risco de desviar a atenção de aparições mais surpreendentes como Anna Dello Russo, editora da Vogue Japão, famosa por trocar de roupa até seis vezes em um único dia.

Se analisar as imagens da última temporada de desfiles pode esclarecer alguma coisa é que aqueles que os frequentam para ver, e não para serem vistos, são uma raça em extinção. Em uma época de moda rápida, cada um de nós é uma marca individual e os desfiles de moda provaram ser uma plataforma inigualável para o aprimoramento dos negócios.

Yasmin Sewell, editora do portal Style.com no desfile da estilista Gabriela Hearst

Yasmin Sewell, editora do portal Style.com no desfile da estilista Gabriela Hearst Foto: Marcy Swingle/The New York Times

O ponto, porém, não é que essas mulheres parecem lindas, elegantes e mais bem cuidadas do que quem quer aparecer. É que elas se vestem para seus seguidores. Mesmo parecendo ir de um desfile para outro sem muito esforço, estão na verdade dando duro para agradar um público online que, no caso da socialite Olivia Palermo, chega a 4,1 milhões de pessoas só no Instagram.

Giovanna Engelbert, colaboradora da revista W, com um estilo assertivo que se destaca por combinações inesperadas (ela foi vista a caminho do desfile da Rochas, em Paris, usando um vestido de couro e crochê feito por sua irmã), pode se orgulhar de seus mais de 500 mil seguidores na rede social.

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Pandora Sykes, editora de moda do Sunday Times, de Londres, tem 112 mil fãs no Instagram. Tal é a influência dessa "amante do guarda-roupa" do jornal britânico mais vendido, que você pode estar certo de que quando ela aparece para um desfile de moda em Londres com um vestido floral de US$ 830 com mangas bufantes da coleção de primavera 2017 da estilista Rejina Pyo, as caixas registradoras virtuais já começam a funcionar.

As tendências do street style emergiram de desfiles de moda e fotógrafos como Bill Cunningham, do New York Times, ou Scott Schuman, do blog The Sartorialist, com olhar e instinto jornalístico aguçados, as capturavam. "Oito ou nove anos atrás, quando os fotógrafos japoneses me cercaram em Milão, eu ri, achei engraçado. Agora toda essa multidão parece um pouco absurda", disse J.J. Martin, editora da revista Wallpaper. Ela admite que a atenção que recebeu pelas roupas belamente estampadas que usa provavelmente ajudou seu negócio (além de seu trabalho jornalístico, ela é sócia de uma linha de roupas de nicho LaDouble J).

Mas J.J. diz que ainda se veste para os desfiles da mesma forma que se veste para o escritório. E garante que não usa roupas emprestadas da  nem trata a versão do mundo da moda da migração dos gnus como uma oportunidade de merchandising entre plataformas. "Eu ainda me visto para me divertir", disse ela. Imagine só uma coisa dessas.