'Não me sinto bem em criar algo que foi pedido pelo departamento comercial', diz Jean Paul Gaultier

Júlia Tibério - Especial para O Estado de S. Paulo

Em visita ao Brasil para lançar novo perfume, designer francês falou de sua relação atual com o mercado da moda, que, segundo ele, vive momento de caos

O estilista Jean Paul Gaultier com a apresentadora Sabrina Sato

O estilista Jean Paul Gaultier com a apresentadora Sabrina Sato Foto: Divulgação

Noite quente de superlua no Rio de Janeiro. É domingo, 16 de outubro, e a festa mais agitada da cidade rola num casarão em Santa Teresa, para celebrar a chegada do estilista francês Jean Paul Gaultier ao Brasil. O designer, que há dois anos deixou de comercializar sua linha de prêt-à-porter, está no Brasil para divulgar sua coleção de perfumes. Entre os convidados, Sabrina Sato, Luiza Brunet, Lea T, Sheron Menezes, Débora Nascimento e José Loretto – ninguém por contrato, vale dizer. Todos querem ver de perto o designer cujo nome - e cujas criações - marcaram a história da moda mundial.

Pupilo de Pierre Cardin, Gaultier despontou nos anos 1980, quando ficou conhecido como o enfant terrible do universo fashion por suas criações arrojadas. São dele os trajes mais memoráveis da cantora Madonna (por exemplo, o sutiã em formato de cone), além dos figurinos de filmes como “O Quinto Elemento”, de Luc Besson, e “A Pele que Habito”, de Pedro Almodóvar. Atualmente, o estilista dedica-se só aos projetos em que acredita. E mostra-se feliz da vida. Na noite em sua homenagem no Rio, era só sorrisos.

A decoração da festa misturava os temas cabaré, cassino e América Latina. Modelos seminus circulam pelo ambiente, alguns fantasiados de marinheiros, outros vestidos só com roupas de baixo. Um percussionista pintado de dourado dançava e tocava tambor circulando pelos jardins da casa. No grande momento da noite, Elza Soares cantava MPB sentada em um trono de veludo vermelho enquanto dançarinas com os seios à mostra sambavam para Gaultier. No dia seguinte, em entrevista ao Estado, ele falou da alegria que sentiu na celebração, de carreira e dos rumos da moda. 

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Por que você decidiu continuar investindo em fragrâncias e abriu mão da moda comercial?

Fazer perfumes dá dinheiro e me sentia pressionado em relação aos prazos da moda. O prêt-à- porter hoje vive um momento de caos. Ao mesmo tempo em que só se pensa em ganhar dinheiro, as pessoas estão deixando de consumir coisas tão caras.

Como criador, como enxerga este atual momento do mercado?

Não me sinto bem em criar algo que foi pedido pelo departamento comercial e prefiro me manter distante desta nova forma de produzir, vender e consumir.Recentemente, a Gucci desfilou na abadia de Westminster e isso me chocou. É como se até a religião estivesse ok com o fato de participar deste movimento.Parece que o mundo está de cabeça para baixo. 

Por quê?

As marcas resolveram travar uma batalha de imagem tão forte com as suas concorrentes que acabam se esquecendo de seus produtos. É como se de uma hora para a outra a coisa mais importante fosse a publicidade.

Na alta costura é diferente?

Quando faço haute-couture, consigo manter a minha essência. A mesma que tenho desde que comecei a desenhar, com 8 anos de idade após um episódio de bulliyng na escola.

Como foi isso?

Uma professora achou que eu havia desdenhado dela ao ilustrar uma fantasia cheia de penas como tarefa de casa e pregou o desenho nas minhas costas. Em vez de os colegas zombarem de mim, me apoiaram. Aquela foi a primeira vez em que me senti parte do todo. De repente o menino que era ruim em futebol e nunca se enturmava virou o popular da sala. 

Acredita que a moda tem um papel transformador?

Sim. Por mais que as pessoas não percebam, a moda está em tudo, é uma forma de expressão. As muçulmanas usam um véu, os políticos usam trajes sóbrios, os músicos usam roupas punk... Sempre há uma imagem de moda por trás de cada pessoa. 

Qual mensagem gostaria de deixar como legado?

A de que a beleza existe em todo e qualquer lugar. Muitas das coisas que crio partem de um visual excêntrico. E, para mim, isso é lindo. Gosto da estranheza, da pessoa fora do padrão, do dia esquisito.