Fendi, Cavalli e outras grifes fazem rebelião contra moda instagramável

Vanessa Friedman - The New York Times

Na contra-mão das redes sociais, marcas focam no artesanal durante Semana de Moda de Milão

Na Fendi, aventais viraram moda de luxo. 

Na Fendi, aventais viraram moda de luxo.  Foto: AFP PHOTO / GIUSEPPE CACACE

Existe um agradável cheiro de rebelião rondando as passarelas de Milão, fazendo improváveis combinações de estéticas normalmente opostas e desenhando um ponto fora da curva. A moda de Instagram, que definiu o começo da temporada em Nova York (a atitude de postar tudo também define a vida moderna) está encontrando resistência na temporada italiana. 

"Artesanal" é a palavra do momento. A começar pela exposição "Crafting the Future", que começou na quarta-feira, 21, no primeiro dia de fashion week, no Museu Mudec, também em Milão. Com curadoria de Franca Sozzani, editora da Vogue Itália, a mostra foca nas mãos por trás dos tecidos, botões, bordados, e até mesmo impressão 3D - não é porque algo involve tecnologia que demora menos tempo para ser criado. 

Alberta Ferretti recebeu os convidados do desfile com as trabalhadoras de seu ateliê enfileiradas lado a lado, e Brunello Cucinelli bordou a mão diamantes em espadrilles de suede, e os menores e mais sutis paetês foram colocados em, bem, praticamente tudo, incluindo xales de fios de ouro e calças de cotton. Fausto Puglisi, um jovem estilista que fez seu nome por causa da fascinação por boates dos anos 1980, concebeu sua coleção de acordo com uma frase de Karl Marx. 

A musa da Max Mara foi Lina Bo Bardi, uma arquiteta modernista que, de acordo com a apresentação da coleção, "não tinha medo de deixar o caos entrar". No backstage, Peter Dundas, da Roberto Cavalli, se nomeou um "punk teimoso." E na Fendi, Karl Lagerfeld apresentou uma "Maria Antonietta destrutiva", que iria se vingar daqueles que dispensassem os aventais. Isso fará sentindo mais tarde. 

Para o momento, é preciso saber que Milão não irá entrar de bom grado no histórico do Snapchat. Não é sobre ludismo, mas sim sobre assumir uma posição a favor do tempo. Ou, como disse Lagerfeld, "história". É dai que ele tirou a ideia dos aventais. O estilista os modernizou, desconstruiu e juntou com listras esportivas de rugby (esporte que também foi a base das botas de salto com falsos botões), os transformando em camisas de seda com mangas bufantes sobre saias de skatista com gigantes bolsos laterais, ou então saias de jacquard com elástico na cintura que deixavam calçolas à mostra. 

Os aventais que viraram vestidos estruturados e camisas de manga bufante na Fendi.

Os aventais que viraram vestidos estruturados e camisas de manga bufante na Fendi. Foto: GIUSEPPE CACACE/AFP

Clássicos aventais estilo vestido viram peças transparentes de organza estampada com aplicações de detalhes de pele. Uma recusa em rejeitar o passado, ou ficar preso nele, nunca pareceu tão provocativa. Quem também disse não foi Puglisi, que fez um desfile a favor de - bom, não ficou muito claro o quê. Ele fez sua apresentação com a ajuda de Armando Punzo, diretor arstístico do festival de teatro de Volterra, na Itália. Em uma soturna balada, os dois construíram um cenário de móveis de madeira e cruzes neon, encabeçadas por uma Madonna de cerâmica e  por perfume de incenso de mirra (ou algo muito parecido com isso).

A balada gótica de Fausto Puglisi.

A balada gótica de Fausto Puglisi. Foto: AP Photo/Antonio Calanni

Por trás, condenados tatuados raivosos e modelos - usando vestidos de seda estampados com pássaros, flores e imagens católicas. Sim, tinham roupas envolvidas, apesar delas estarem quase que totalmente ofuscadas pelo conceito e o debate levantado. Eles estava dizendo que a moda, que muitos seguem como se fossem um tipo de religão, é na verdade uma prisão? Ele estava afirmando que os estilistas e as mulheres que eles vestem estão presos em um inferno de consumo que eles mesmos criaram e agora é a hora de isso se quebrar? 

Todas as interpretações são plausívels - e provavelmente dá para encontrar pessoas que acreditam nelas - embora a resposta seja um pouco menos elaborada: Puglisi estava pensando no lugar onde nasceu, a Sicília, e em criar "um novo e mais ingênuo modo de se falar sobre roupas". Deve ser um jeito mais diplomático de dizer o que Dundas falou no backstage antes do desfile da Roberto Cavalli: o estilista decidiu que é a hora de "fazer o que eu quero, do jeito que eu quero." 

Manifestantes bloqueiam via expressa em Charlotte durante protestos contra violência policial

Manifestantes bloqueiam via expressa em Charlotte durante protestos contra violência policial Foto: Jeff Siner/The Charlotte Observer via AP

Isso foi traduzido em uma coleção boho-viajante muito trabalhada manualmente. O conceito variou das hippies calças jeans flare de patchwork, suede e veludo (e também pele de cobra e leopardo) e flores e torcidos de miçangas enfeitando quimonos de seda e ponchos de franjas, além de uma sessão inteira de vestidos longos com camadas e estampas exóticas. A decoração foi decadente, uma referência tímida à sua dívida com os anos 1970: a época antes da internet, quando o conhecimento e a experiência eram adquiridos na estrada e navegar era apenas no oceano. 

Na Alberta Ferreti, vestidos de flamenco e bordados mexicanos. 

Na Alberta Ferreti, vestidos de flamenco e bordados mexicanos.  Foto: EFE/Matteo Bazzi

Até mesmo Ferreti abdicou um pouco das suas tendências de costume para dar lugar a um delicado romance. Ela colocou suas modelos em vestidos de flamenco com babados e sutiãs de couro com amarração nas costas, ao lado de seu look assinatura com transparências em chiffon e peças de cotton combinadas com calças masculinas, como também bordados estilo mexicano. A Max Mara foi ainda mais ao sul, para as florestas tropicais que inspiraram uma coleção atlética com estampas de palmeiras e leggins de cintura alta, usadas com cinto, jaquetas bombers e tops de ginástica. 

Florestas tropicais e moda esportiva inspiraram a coleção da Max Mara. 

Florestas tropicais e moda esportiva inspiraram a coleção da Max Mara.  Foto: AP Photo/Luca Bruno

O ponto disso tudo foi, obviamente, enfatizar o especial e único. O artesanal, por definição, desafia o conceito de multiplicidade - e assim sugere valores e algo que sobreviva à ação do tempo, e vale a pena o investimento. Isso irá funcionar? Ou a insistência em focar nos primórdios da moda é um jeito de negar a realidade? Teremos que esperar alguns meses para ver. Talvez essa revolução esteja fadada ao fracasso. E se for assim, eles estão caindo de forma glamurosa.