Exposição em Londres prevê fim das barreiras da moda masculina em 2026

Elizabeth Paton - The New York Times

Mostra que vai até agosto tem como objetivo mostrar como a masculinidade é definida por meio da roupa e como isso pode mudar na próxima década

O objetivo da exposição é mostrar como a masculinidade é definida por meio da roupa 

O objetivo da exposição é mostrar como a masculinidade é definida por meio da roupa  Foto: Reprodução/Instagram

Um jovem negro está em pé, com ar desafiador, na grama em frente a uma casinha de teto de zinco, isolada por uma cerca e uma calçada empoeirada que rachou em vários pontos sob o escaldante sol africano. 

Ele olha diretamente para a câmera. Veste orgulhosamente sapatos pretos sóbrios, meias verdes de cano alto, calças polo brancas e uma larga túnica de seda pêssego estampada com flores e aberta até o umbigo. Usa ainda luvas de jardinagem e exibe no pescoço pesadas correntes de ouro. 

Essa é uma das 60 imagens que compõem a exposição “2026”, uma pequena, mas impactante mostra na Somerset House de Londres, que vai até 29 de agosto. O objetivo da exposição é mostrar como a masculinidade é definida por meio da roupa – e como isso pode mudar nos próximos dez anos. 

O projeto é uma promoção conjunta do estilista Ibrahim Kamara, de Londres, e da fotógrafa Kristin-Lee Moolman, de Johannesburgo, África do Sul. Faz parte do conjunto maior de exibições e performances “Utopian Voices Here and Now”, que mostra jovens artistas baseados em Londres explorando os temas que mais os afetam, como corpo e gênero, sexualidade e raça. 

O projeto é uma promoção conjunta do estilista Ibrahim Kamara, de Londres, e da fotógrafa Kristin-Lee Moolman, de Johannesburgo, África do Sul. 

O projeto é uma promoção conjunta do estilista Ibrahim Kamara, de Londres, e da fotógrafa Kristin-Lee Moolman, de Johannesburgo, África do Sul.  Foto: Reprodução/Instagram

A instalação “2026” foca em uma visão idealizada da masculinidade negra daqui a uma década. Essa visão desafia as atuais atitudes heteronormativas que marginalizam orientações sexuais diferentes da heterossexual por meio da autoexpresão através da moda. Hoje, na verdade, essas atitudes estão cada vez mais se dissolvendo, se as atuais tendências das passarelas significarem alguma coisa.

Kamara, de 26 anos, que vai se formar em breve pela universidade de moda e design Central Saint Martins, nasceu em Serra Leoa. Ele desenvolveu o projeto como parte de sua graduação, após um mês de convivência em Johannesburgo com Kristin-Lee, de 29 anos, que conheceu pela internet. 

A dupla vasculhou depósitos de cacarecos e brechós atrás de tecidos, que depois transformaram em acessórios modernos, com o objetivo de dar forma à autoexpressão do corpo do homem negro. 

“Quero criar uma utopia na qual você possa ser o que desejar, sem ênfase em masculinidade ou sexualidade”, disse Kamara na semana passada, quando fazia os acertos finais nas grandes reproduções de fotos de homens jovens africanos usando vestidos penduradas nas paredes da Somerset House, um dos maiores palácios britânicos. “Queria mostrar homens, em particular negros, que vivam e respirem como homens de todos os tipos vivem e respiram há séculos, sem sofrerem a pressão e o patrulhamento da masculinidade negra.”

Assim, uma foto mostra um jovem usando vestido branco de baile, meias e sapatos sociais, chapéu de caubói, joias e dois pares de luvas: um de luvas longas e outro de luvas de boxe. 

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Outra foto mostra um rapaz que lembra uma mistura de pirata feroz do século 16 e estudante do bairro negro de Soweto, em Johannesburgo. O jovem usa paletó de veludo ocre com ombreiras e luvas brancas de babado, além de uma camiseta com a estampa do futebolista David Beckham amarrada como um sarongue e meias de futebol amarelas. 

Em outra, ainda, dois homens estão lado a lado vestindo blazers azul-marinho, sem mangas e com botões dourados, jeans baggy de cintura muito baixa e chapéus pretos. Eles também ostentam cachos dourados laterais, como os de judeus ortodoxos. 

“‘2026’ é um escapismo, é tudo que eu sempre quis ser, o homem negro que quero ser, independente de orientação sexual, gênero ou raça”, disse o estilista Kamara. “Kristin-Lee e eu quisemos apresentar imagens inspiradoras e positivas, já que a imagem da sexualidade negra vem sendo constantemente demolida.”

Ao usar ruas secundárias de Johannesburgo como cenário e moradores como modelos, o projeto também destaca a energia e criatividade da arte jovem da cidade, que, para Kamara e Kristin-Lee, é frequentemente ignorada pela mídia, ou distorcida pelos estereótipos ancorados na pobreza e violência que passaram a definir internacionalmente a África do Sul. 

“Tornou-se minha missão pessoal mudar o modo como as pessoas veem a África do Sul e especialmente Johannesburgo”, disse Kristin-Lee. “Aqui há uma explosão de talento. Todos estão criando, seja em moda, música ou escultura.” Ela acrescentou que, com a era digital, os criadores locais de tendências estão muito mais ligados no que se passa em cidades como Londres, Berlim e Nova York. 

“É espantosa a originalidade e energia com a qual os jovens absorveram essas influências, passando a criar o próprio cenário com uma autêntica pegada africana”, disse ela. “‘2026’ e tudo em torno dela, incluindo seu início, tem raízes na interação cultural. Retratamos uma Johannesburgo como deveria ser, não como é. Mas também quisemos lembrar às pessoas que existe, e está bombando, uma África do Sul alternativa, progressista e de mente aberta, que vai além das imagens mostradas na TV.” 

Na maioria, os homens fotografados por Kristin-Lee são seus amigos ou seguidores no Instagram. Apesar do exibicionismo e do desafio ao estereótipo de gênero dos acessórios que usam, poucos deles são gays; normalmente, endossam os códigos de vestuário heteronormativos. Um deles é proprietário de uma empresa de segurança. Outro é artista. Outros, dançarinos. 

“São homens jovens e passionais propondo-se a desafiar as convenções da roupa, dispostos a impedir que o que vestem influencie sua sexualidade ou vice-versa”, disse Kristin-Lee. “A maioria deles afirma que, mais que envergonhá-los, as roupas os fizeram sentir-se mais fortes.” 

Tradução de Roberto Muniz