Em Paris, o futebol vem antes da moda

Matthew Schneier - The New York Times

Temporada de desfiles masculinos ocorreu simultaneamente à Eurocopa, que terminou no domingo, 10, com a vitória de Portugal

Da esquerda para a direita, os modelos Sam Howard, Nicholas Rokne e Morgan Doughty

Da esquerda para a direita, os modelos Sam Howard, Nicholas Rokne e Morgan Doughty Foto: GIO STAIANO/ THE NEW YORK TIMES

Paris – No domingo em que a França derrotou a Irlanda para avançar para as quartas de final, os desfiles de moda masculina iam diminuindo, mas o Campeonato Europeu de futebol crescia. Era uma tarde fresca e bonita, uma pausa feliz nos dias de calor sufocante, e um grupo de modelos masculinos estava sentado em frente a uma tela ao ar livre, no Au Grand Turenne, um bar no Marais, para assistir ao jogo Alemanha x Eslováquia.

Eles tinham vindo de toda a Europa – o grupo específico tinha representantes da Alemanha, Polônia, Inglaterra e França – para desfilar nas passarelas ou andar pelas exposições em Paris. Haviam passado a semana (e alguns a semana anterior, em Milão, e antes disso, em Londres) indo de audições a provas, de provas a desfiles, de desfiles para exposições. No meio tempo, quando conseguiam, assistiam aos jogos.

A França foi o país sede do Campeonato Europeu, cujos jogos coincidiram com a semana de moda masculina em Paris. Recentemente, os torcedores que iam para o jogo País de Gales x Irlanda do Norte compartilharam um vagão do metrô com os fãs da moda, que iam para o desfile da Dior Homme. Os dois grupos chegaram à mesma estação, no 16º Arrondissement, analisando-se curiosa e cautelosamente – o de cabelo verde e o que levava uma bolsinha – antes de seguir em direções separadas. (Vencedor: País de Gales.)

Fora das passarelas, modelos assistem a um jogo da Eurocopa

Fora das passarelas, modelos assistem a um jogo da Eurocopa Foto: GIO STAIANO/ THE NEW YORK TIMES

Os jovens que se reuniram no Au Grand Turenne eram colegas da Tomorrow Is Another Day, uma agência de modelos com sede em Colônia, Alemanha. Alguns eram veteranos; outros estavam em sua primeira temporada. Timi Babasola-Are, 19 anos, de Londres, que apareceu em desfiles de Wales Bonner em Londres e de Christian Dada em Paris, havia sido descoberto quando comprava um bilhete de metrô na Estação Stratford.

"Fiquei muito surpreso mesmo. Nunca me imaginei sendo modelo", disse ele.

Ele estava em Paris pela primeira vez.

"É legal, parece um feriado gostoso. Não tive muito trabalho, então fiquei andando por aí, consegui ver algumas coisas. Vi a Torre Eiffel. E um pouco de futebol", disse Babasola-Are.

Mesmo para os que não se interessam, foi difícil ignorar o futebol. As ruas sempre cheias de torcedores aos gritos – alguns especialmente altos, quando a França derrotou a Irlanda naquela tarde. A folia era inevitável e transformou os indiferentes em fãs. Pelo menos o futebol foi uma pausa nas pressões da semana da moda.

Da esquerda para a direita, os modelos Tim Babasola-Are, Amin Djoneidi e Benno Bulang

Da esquerda para a direita, os modelos Tim Babasola-Are, Amin Djoneidi e Benno Bulang Foto: GIO STAIANO/ THE NEW YORK TIMES

"Todo mundo no hotel está assistindo", disse Gaby Sahhar, 23, um londrino com a cabeça raspada e uma aparência diferente que lhe garantiu trabalhos em desfiles, incluindo o da Hood by Air e da Palm Angels em Paris. "Para ser honesto, sinto que essa semana me transformou em um grande torcedor, só porque as coisas estão rolando. Eu já me viciei. De um jeito estranho, sei o que está acontecendo – com a torcida na rua, você meio que tem que saber. Você se torna parte de tudo."

Morgan Doughty, 20, da Cornualha, na Inglaterra, que acabava de sair do desfile de Paul Smith, acrescentou: "Você fica sabendo do resultado dependendo de quem está feliz".

Minutos depois, os alemães na mesa ficaram felizes quando o zagueiro Jérôme Boateng marcou o primeiro gol. Benno Bulang, 18 anos, de Dresden, que desfilou para a Prada em Milão e Balenciaga, Valentino e Louis Vuitton em Paris, parecia especialmente alegre. Boateng, que é negro, é uma grande força do time alemão; foi uma vitória educativa em um momento delicado da história europeia.

"Ele foi criticado na Alemanha por alguns racistas; por causa da crise de refugiados, os partidos radicais estão crescendo muito. Um membro de um deles disse que não era bom um negro jogar para a Alemanha", disse Bulang a um outro modelo, Amin Djoneidi, 18 anos, que é dos arredores de Paris.

Ele mencionou um jogo anterior com uma boa atuação de Boateng. "Se ele não estivesse lá, teríamos perdido. Isso acaba mudando a mentalidade das pessoas."

O modelo alemão Lukas Marschall assiste ao jogo da Alemanha contra a Eslováquia

O modelo alemão Lukas Marschall assiste ao jogo da Alemanha contra a Eslováquia Foto: GIO STAIANO/ THE NEW YORK TIMES

"Na França, é a mesma coisa", respondeu Djoneidi, que havia apostado com amigos em todos os jogos e fazia uma pausa de vez em quando para gozar dos parisienses no Au Grand Turenne. (Lá pelas tantas, alguns parisienses o acalmaram com uma musiquinha que dizia: "Amin, pague uma rodada para a gente!".) Ele tinha as três cores da bandeira francesa pintadas no punho e na mão por causa do jogo anterior.

Bulang explicou que preferia jogar futebol que assistir, embora seu esporte preferido seja Hacky Sack (footbag).

"Sou o mestre do Hacky Sack", contou ele para Djoneidi. "Perdi em Milão, senão, mostraria para você."

Djoneidi parecia confuso, e como não havia uma tradução francesa para "Hacky Sack", os dois voltaram a assistir ao jogo.

O entusiasmo fervoroso pelo jogo era compartilhado apenas por alguns dos modelos presentes. Lukas Marschall, 18 anos, de Berlim, estava assistindo calma e atentamente enquanto os outros faziam brincadeiras entre si. Com o resultado de 2x0 para a Alemanha, ele previu uma vitória alemã e, possivelmente, um confronto final com a Espanha ou a Itália. (A Alemanha venceu por 3x0.)

Marschall passou a semana no showroom de Paris do designer Stephan Schneider, onde verificava os resultados pelo telefone nos intervalos do trabalho.

"O estilista me disse que eu poderia sair mais cedo se quisesse assistir ao jogo. Foi bem legal."

Sam Howard, 25 anos, de Londres, é outro torcedor dedicado. É um dos favoritos do estilista americano Rick Owens, que muitas vezes usa a Tomorrow Is Another Day para encontrar modelos de cara fechada, mas em um domingo recente usava uma camiseta do Arsenal.

"Os jogadores da seleção da Eslováquia poderiam ser modelos de Rick Owens; eles parecem que estão sempre com raiva. Pensei nisso, de verdade", disse Howard.

Mas todos eram fichinha perto de Jan Piasecki, 22 anos, de Varsóvia, que havia visto todos os jogos, e que se danasse o trabalho. (As palavras que usou para transmitir essa ideia foram um pouco mais coloridas).

"Não ligo se sou escolhido, nem quero fazer provas. Vim aqui para assistir aos jogos. O futebol é minha vida. Sem futebol, não viveria", disse ele rispidamente.

E previu uma vitória polonesa.

"Nós vamos ganhar esse campeonato", disse, e mencionou o próximo adversário da Polônia e os dois melhores jogadores do time, Cristiano Ronaldo e Pepe. "Nosso próximo jogo é com Portugal; Ronaldo é um lixo, e Pepe é louco."

Ele havia desfilado para Dries Van Noten e 22/4 Hommes em Paris, uma agenda relativamente leve.

"Já tinha avisado a agência. Não vou desfilar durante os jogos."