Dior e a TV: um ‘New Look’ geral

Elaine Sciolino/The New York Times - O Estado de S.Paulo

Enquanto a maison vive um novo momento com Maria Grazia Chiuri na direção criativa, uma série que mostra o início da Dior estreia nas telinhas

"The Collection", nova série da Amazon Prime, que conta como a Dior começou.

"The Collection", nova série da Amazon Prime, que conta como a Dior começou. Foto: Nick Briggs/Lookout Point 2016 via The New York Times

Para a Dior, é uma revolução: uma mulher chefiando o departamento de criação pela primeira vez nos 69 anos de história da casa. Maria Grazia Chiuri apresentou no fim de setembro sua primeira coleção à frente da Dior para uma plateia ansiosa. Foi uma feliz coincidência que essa mudança ocorresse paralelamente à estreia de uma série de televisão destinada a lembrar como tudo começou. 

“The Collection”, primeira série britânica original da Amazon Prime, que estreou na Grã-Bretanha em setembro e será lançada na França em novembro, conta a história de dois irmãos – um, empresário, o outro, estilista – e sua missão de criar uma grande maison destinada a colocar de novo Paris no centro do mundo da moda após o fim da ocupação nazista.

 

A série prima pela magnificência, pondo em contraste a sombria realidade da Paris do pós-guerra e o brilho exageradamente opulento do mundo da alta costura. O sotaque do elenco majoritariamente britânico prejudica um pouco a autenticidade, mas o problema é diminuído com a introdução de Mamie Gummer, filha de Meryl Streep, no papel de uma herdeira americana, e da atriz francesa Jenna Thiam como a filha operária da costureira chefe da “House of Sabine”, como é chamada a fictícia casa de moda. A moça, inesperadamente, torna-se o rosto da maison. 

Por um lado, a história segue uma linha de mistério, revelando de forma lenta e sofrida os segredos minuciosamente guardados de seus personagens: colaboração com os nazistas, assédio moral, amores proibidos e até assassinato. Por outro lado, “The Collection” é uma versão levemente ficcional da história de sucesso de Dior e um lembrete de como as coisas funcionam com homens na direção. 

Os criadores da série dizem que buscaram inspiração para a Sabine em vários estilistas parisienses, incluindo Balenciaga, Fath e Lelong. Mas as semelhanças entre o “new look” da coleção de 1947 da Sabine e a coleção de Christian Dior daquele mesmo ano – um acontecimento que transformou a costura e consolidou o New Look, que ecoa até hoje – são indiscutíveis. 

Estava decretado o fim o visual duro, quadrado e masculinizado (incluindo as calças libertadoras) imposto em tempos de guerra pelo racionamento de tecidos. Dior descrevia esse look como “odioso e repulsivo”. Em seu lugar, criou vestidos esculturais, chegando a usar 25 metros dos mais finos tecidos. Eram trajes ultrafemininos, mas difíceis de serem usados. Espartilhos comprimiam o tórax em mais de cinco centímetros; anáguas e enchimento deixavam as saias longas ainda mais volumosas; seios foram levantados e sutiãs viraram cones pontudos. Saltos altos e chapéus de abas largas completavam o visual. 

Conforto não era prioridade – nem na época e nem agora, nas telinhas. Os estilistas da Chattoune & Fab deram o toque retrô nos 30 vestidos feitos à mão para as estrelas de “The Collection” (eles também fizeram 1.200 combinações de trajes e adereços para o restante do elenco). “As mulheres que haviam sido ‘liberadas’ durante a guerra pelas jaquetas e calças de repente receberam a ordem: ‘Voltem aos espartilhos e fiquem desconfortáveis’”, diz Chattoune, cujo nome é Françoise Bourrec. “Quando as atrizes chegaram ao estúdio e pegaram os vestidos ficaram atordoadas ao ver como eram incrivelmente pesados. Era realmente um sofrimento usá-los.”

Voltemos a Maria Grazia Chiuri. O site da Dior anuncia que o New Look está em “revolução perpétua”. De fato, Raf Simons, antecessor de Maria Grazia, estava sempre renovando, encolhendo e modificando o clássico casaquinho Dior Bar apresentado na coleção de 1947. O que leva à pergunta: a série vai trazer ainda mais nostalgia da fascinante, embora desconfortável, era do vestuário feminino? Ou Maria Grazia vai varrer essas memórias e criar algo novo? Veremos.