De volta à Oscar de la Renta

Matthew Schneier/The New York Times - O Estado de S.Paulo

Depois de lançarem a Monse, Fernando Garcia e Laura Kim retornam à grife do início da carreira

Fernando Garcia e Laura Kim no atelier da Monse.

Fernando Garcia e Laura Kim no atelier da Monse. Foto: Andrew White/The New York Times

Quando Oscar de la Renta morreu, em outubro de 2014, o mundo da moda ficou abalado, principalmente no ateliê do estilista em West 42nd Street. Era um negócio de família (o genro dele, Alex Bolen, é o diretor executivo) e muitos dos funcionários de longa data se sentiam parte do clã. A diretora de design, Laura Kim, trabalhou com de la Renta por mais de uma década; Fernando Garcia, jovem assistente de design e encarregado de cuidar das celebridades (além de ser noivo de Laura na época), ocupava o cargo desde 2009. De la Renta era para eles um mentor e, sob muitos aspectos, uma figura paterna.

Mas o luto logo deu lugar ao pragmatismo. A coleção Pre-Fall 2015 da marca tinha que ser apresentada aos lojistas e à imprensa apenas seis semanas depois da morte do estilista. “Alex me telefonou e falou ‘precisamos manter o controle’”, contou Laura. “Fernando chorou durante um mês. Ele não era o chefe na época e pôde se dar ao luxo.” A coleção foi apresentada como o esperado, e Bolen insistiu para que Laura assumisse o papel que antes era de de la Renta, reunindo-se com os frequentadores e explicando a coleção. De olhos arregalados, ela avançou lentamente de encontro à multidão. Não era preciso tamanho sobressalto. A coleção, uma homenagem a de la Renta encerrando com “grandes vestidos de baile, como os que ele gostava”, foi bem recebida, e se tornaria o maior sucesso comercial da empresa em anos. Foi também a última coleção desenhada por Laura para a marca de la Renta.

Oscar de la Renta no desfile de inverno 2013.

Oscar de la Renta no desfile de inverno 2013. Foto: REUTERS/Lucas Jackson/Files

Cerca de dois meses mais tarde, Bolen e a marca contrataram o experiente estilista britânico Peter Copping, então diretor artístico da Nina Ricci, para ser o sucessor do lendário estilista. Laura, que estivera ao lado de de la Renta desde 2003, esperava ficar com o cargo, mas foi substituída. Ela prometeu a de la Renta que ficaria até a chegada de Copping, mas anunciou a decisão de deixar a empresa pouco depois. De la Renta esperava trabalhar alguns meses com Copping para facilitar a transição. Mas o primeiro dia de Copping no trabalho foi justamente o do enterro de Oscar. Sua nomeação foi recebida com entusiasmo pela imprensa, mas suas coleções (a primeira foi apresentada no mês de fevereiro seguinte) receberam reações mornas.

Enquanto isso, Laura e Garcia aproveitaram o momento e partiram num novo rumo. Eles fundaram a Monse (Mon-SAY), batizada em homenagem à mãe de Garcia, Montserrat, com investimentos de seus pais e de um amigo da família Garcia. Sua primeira coleção tinha algo dos flertes elegantes característicos das coleções de de la Renta, mas com traços mais ousados. O sucesso foi imediato, primeiro entre as celebridades, cujos stylists Garcia conheceu enquanto trabalhava para Oscar. Antes mesmo do primeiro desfile, Sarah Jessica Parker, aficionada pelas roupas de Oscar, foi fotografada usando um vestido da Monse (“Nossos clientes dobraram naquele dia”, disse Garcia); e também Amal Clooney, que se casou usando um vestido Oscar de la Renta.

Desenhos da Monse.

Desenhos da Monse. Foto: Andrew White/The New York Times

Logo suas roupas eram vestidas por Lady Gaga, Selena Gomez, Kerry Washington, Jessica Chastain e Lupita Nyong’o, em programas de entrevistas, shows, festas e lançamentos. Sarah Jessica Parker colaborou com a Monse na criação de uma peça personalizada inspirada no musical Hamilton para o Met Gala. Depois que Brie Larson ganhou o Oscar de melhor atriz este ano, ela foi à festa do Oscar da Vanity Fair usando um vestido de veludo rosa da Monse, trazendo a estatueta na mão. A imprensa registrou cada momento, e a indústria começou a prestar atenção. Grandes lojas de departamentos disputaram o direito exclusivo de comprar a nova coleção. O Conselho de Designers de Moda dos Estados Unidos, órgão que representa a indústria americana da moda, indicou a Monse para o prêmio de novo talento; o mesmo fez a Woolmark Co., que patrocina um prêmio internacional de design.

Depois de alguns meses, Carolina Herrera contratou os dois estilistas como consultores para várias coleções. “O olhar, o talento e a energia: me parece que eles têm o pacote completo”, disse ela (a dupla não está mais trabalhando com a empresa dela, que anunciou abruptamente a nomeação de um novo estilista, Raffaele Ilardo, na semana passada). Os investidores estavam rondando. Em menos de um ano, eles se tornaram a equipe de estilistas mais quente do pedaço. É fácil adivinhar o que ocorreu em seguida. 

Escritório da Monse, em Nova York.

Escritório da Monse, em Nova York. Foto: Andrew White/The New York Times

Em julho, após menos de três meses na empresa, Copping foi dispensado da Oscar de la Renta, e uma busca pelo sucessor fez Bolen voltar rapidamente para os estilistas que tinha substituído no começo. Laura e Garcia serão os novos diretores de criação da Oscar de la Renta, e sua primeira coleção será apresentada em fevereiro. Continuarão a desenhar coleções para a Monse e dividirão o tempo entre as duas marcas. As contratações foram confirmadas por Bolen no dia 2 de setembro. “Pensando bem, eu estraguei isso antes”, disse Bolen em entrevista no estúdio da Monse. “Teria sido melhor se Laura tivesse chegado dando murros na mesa e dizendo, ‘Quero a vaga’”. Debatemos a possibilidade. Mas não pressionei mais, coisa que deveria ter feito.”

Bolen se recusou a discutir a passagem de Copping ou as razões para a sua saída, dizendo apenas que "as empresas de moda funcionam melhor quando a equipe criativa e a do negócio falam a mesma língua.” Copping não comentou a sua saída. O anúncio de que Kim e Garcia retornariam, em triunfo, para a Oscar de la Renta, foi um pouco antes Semana de Moda de Nova York, que começou no dia 7. 

Garcia tinha acabado de voltar da Índia com tecidos repletos de lantejoulas que seriam transformados em vestidos de festa. Laura estava pensando nas calças que poderiam acompanhá-los. A coleção - que mistura o estilo masculino de Wall Street, regatas listradas e suéteres que lembram uniformes - estava ganhando shapes variados.

O crescimento acelerado de Laura e Garcia - de talentos dos bastidores a promessas iniciantes, chegando a queridinhos das celebridades e diretores de criação da grife em que começaram como estagiários - é incomum até para o veloz ciclo do mundo da moda.

Com três temporadas no currículo, eles já se mudaram duas vezes para um escritório maior. Deixaram o apartamento de Garcia para ocupar um pequeno estúdio e, em julho, mudaram-se para um grande loft em Tribeca, onde a mãe de Laura prepara comida coreana antes de cada desfile, ajudando também a dar os últimos pontos de costura à mão. Em uma grande mesa de madeira no centro do cômodo, Garcia desenha vestidos em papéis individuais, que são coloridos ou pintados com glitter em seguida e delineados com tinta preta forte. Numa mesa próxima (ou, às vezes, no chão), Laura recorta estampas à mão.

Eles fizeram mais do que muitos novos designers ", disse Sarah Rutson, vice-presidente de compras global do Net-a-Porter, que concordou em se reunir com os designers depois de eles terem enviado mensagens para ela no LinkedIn, mesmo antes de começarem a marca. "Eu trabalho com muitos designers e eles demoram sete ou oito estações para chegar onde a dupla está."

São uma dupla complementar: ela é pragmática enquanto Garcia é sonhador, como é visível na declaração irônica e que acabou nas páginas das revistas de moda (“Adoramos usar o brilho de uma maneira bastante burra, por falta de um termo melhor”, disse ele a respeito de um conjunto de peças com lantejoulas bordadas na Índia). 

Apesar dos acertos iniciais, o sucesso trouxe suas complicações. Os dois são a equipe que trabalha em tempo integral para a marca, e Laura, acostumada com a grande equipe de assistentes da Oscar de la Renta, encontrou dificuldades para administrar uma empresa de orçamento mais restrito. Aceitou o trabalho de consultoria na Carolina Herrera para obter uma renda extra.

“A coleção de outono foi bem difícil”, disse ela. “Estávamos passando por muitas mudanças em nossas vidas. Nossa maneira de trabalhar, de viver, de observar as coisas.” Ela cuidava de administrar a produção da coleção e também fazia o design. Enquanto isso, eles encerraram seu relacionamento amoroso e mantiveram a parceria de trabalho, mudança que ambos descreveram como positiva. “Acho que, como casal, tentávamos não brigar por questões ligadas ao trabalho”, disse Laura. “Agora, brigo por qualquer coisa.”

Os detalhes dos planos do casal para a marca Oscar de la Renta ainda não foram decididos. Eles têm um desfile da Monse no dia 9 de setembro. Depois de tanta empolgação e boatos, a lista de convidados aumentou, e a dupla está correndo para transferir o evento para um espaço mais amplo, capaz de acomodar confortavelmente o público maior (a próxima coleção da Oscar de la Renta, desenhada por uma equipe da grife, será mostrada no dia 12 de setembro). 

"Eu sempre me lembro Oscar querendo a coisa mais nova", disse Laura Kim. "Eu acho que ele queria evoluir, mas manter a marca muito Oscar. Ele foi nos incentivou a pesquisar, ter ideias e materiais sempre novos.”