Campanha de inverno de grife italiana gera polêmica sobre racismo

Marília Marasciulo/ Com informações do The New York Times - O Estado de S.Paulo

Nas redes sociais, houve reclamações sobre o fato de modelos principais serem brancas em famílias interraciais. Ao NYT, Donatella Versace falou sobre o anúncio 

Nas fotos da nova campanha da Versace, clicadas por Bruce Weber, as modelos Gigi Hadid e Karlie Kloss posam nas ruas de Chicago como mães super poderosas em famílias interraciais

Nas fotos da nova campanha da Versace, clicadas por Bruce Weber, as modelos Gigi Hadid e Karlie Kloss posam nas ruas de Chicago como mães super poderosas em famílias interraciais Foto: Divulgação

A Versace mal lançou sua campanha de outono/inverno 2016 e já vem causando polêmica nas redes sociais. Nas fotos, clicadas por Bruce Weber, as modelos Gigi Hadid e Karlie Kloss posam nas ruas de Chicago como mães superpoderosas em famílias interraciais - com pai e filhos negros. Um usuário no Instagram, por exemplo, reclamou: "Tire esse anúncio do ar, Versace, é vergonhoso.... Ele está todo focado na modelo branca, endeusada pelo marido e crianças negras. As minorias nunca são bem representadas na indústria e nos anúncios aparecem sempre na sombra de uma modelo branca."

Alguns questionaram também a escolha de Gigi Hadid para o papel de mãe, visto que a modelo americana recém completou 21 anos. "Por que não escolheram Jourdan Dunn, que é negra e de fato é mãe de um menino?", questionou um usuário. Gigi Hadid e Karlie Kloss são conhecidas por serem as musas da Versace, frequentemente abrindo ou fechando os desfiles da grife italiana.

Gigi Hadid e Karlie Kloss (foto) são conhecidas como musas da grife italiana e frequentemente abrem ou fecham os desfiles 

Gigi Hadid e Karlie Kloss (foto) são conhecidas como musas da grife italiana e frequentemente abrem ou fecham os desfiles  Foto: Divulgação

O cenário da campanha também foi outro ponto controverso, visto que Chicago continua a aparecer na mídia pelo aumento da violência, assassinatos e brutalidade policial contra minorias. Nas fotos, porém, isso não aparece, o que foi criticado pelos internautas. 

Em uma conversa com Vanessa Friedman, colunista de moda do The New York Times, o fotógrafo Bruce Weber e a estilista Donatella Versace falaram sobre a campanha - descrita pela jornalista como uma tentativa de sair da fantasia e voltar para a realidade. "As fotografias incluem pessoas comuns da cidade em um esforço de trazer a moda um pouco de volta à realidade, ou pelo menos a uma versão Versace dela", escreve. "Talvez seja difícil afirmar com certeza - as pessoas podem de fato odiar a ideia de uma grife europeia de usar 'coragem' e 'arte' para vender roupas e podem questionar a profundidade de seu engajamento - mas é talvez um momento de reconhecimento." Leia a seguir.

Donatella Versace: Para mim, foi um ponto de virada. A imagem da Versace é muito ligada ao tapete vermelho, mas eu queria deixar as roupas do dia a dia mais afiadas. Eu queria mostrar que a mulher é uma super estrela, e dona do próprio negócio e também chefe de uma família. A moda é parte da vida, e eu achei que seria importante mostrar como ela pode ser parte de muitas vidas diferentes. Que ela pode ajudar você na sua vida. Não é mais sobre criar ilusões bonitas.

Bruce Weber: Donatella queria muito colocar os homens e as mulheres para os quais ela desenha roupas e colocá-los no mundo onde você trabalha, sai com a família, vive. É sempre engraçado para mim que as pessoas achem que fotografia de moda é sobre mostrar roupas. Na verdade, é sobre reportar.

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DV: Bruce decidiu que deveríamos fotografar em Chicago. Eu não conhecia a cidade e ela é tão cheia de camadas. E aí ele falou que poderia ser no estúdio, mas tínhamos que ir ao mercado também, porque mulheres muito poderosas também vão ao supermercado.

BW: Eu tinha lido uma história na The New Yorker sobre um pastor chamado Father Mike, que é bastante controverso, e ela prendeu minha imaginação. Eu queria ouvi-lo falar antes de fotografar, e ele falou sobre política e a necessidade de restaurar bairros antigos, e eu pensei que eu queria que minhas imagens significassem algo para a cidade.

DV: Nós começamos com três mulheres - modelos - e alguns modelos homens, e aí acrescentamos vários homens que encontramos na cidade. No final, tínhamos 26 homens, dos quais 17 não eram modelos. E aí o Bruce montou famílias muito diversas nas fotos. 

BW: Eu estava pensando sobre como Pasolini fazia filmes na Itália, ele ia às cidades e de repente o chefe de cozinha virava a estrela do filme. Nós encontramos um homem que foi guarda-costas no Afeganistão. Nós conhecemos um grupo de dançarinos de hip hop na rua e o agente deles estava lá, então falamos, 'oi, vocês querem participar de uma campanha da Versace?', e eles disseram, 'estão falando sério?'. Foi muito legal vê-los sair no final com os ternos e sapatos lindos.

DV: As roupas não foram o pagamento, foram um presente. Nós pagamos todos eles, claro. E para o próximo desfile vamos levar muitos deles a Milão. Eles foram importantes porque falam uma língua muito diferente da minha - literalmente, mas também geracionalmente, e a moda precisa disse. Se não vamos ficar para trás.