As descobridoras de modelos

Elizabeth Paton - The New York Times

Quem são as mulheres responsáveis por lançar a carreira de Karlie Kloss, Abbey Lee e Edie Campbell

A americana Karlie Kloss foi uma das modelos reveladas pela dupla. 

A americana Karlie Kloss foi uma das modelos reveladas pela dupla.  Foto: REUTERS/Gonzalo Fuentes

MILÃO - A coleção da Gucci que abriu a Semana da Moda de Milão no dia 21, uma quarta feira, foi um dos desfiles mais marcantes da temporada. Uma das modelos de Michele, envolta em seda rosa e empunhando um leque de marca, tinha feito sua estreia nas passarelas há apenas 48 horas.

Elibeidy Danis Martinez, jovem de 19 anos e olhos redondos, da República Dominicana, pôs os pés numa passarela pela primeira vez ao encerrar o desfile da Burberry em Londres, na segunda, 19. Na noite de quinta, 22, ao subir na rampa vestindo Prada, ela completava uma tríplice de honra, desfilando para três das grifes mais poderosas e destacadas da moda.

Trata-se de um promissor início de carreira, catapultando Elibeidy diretamente para um lugar entre os “novos rostos que você precisa conhecer”, da Vogue. E a situação é cada vez mais comum. Os acelerados ciclos da moda não se aplicam apenas às roupas, mas também às mulheres (e meninas) que as vestem. Na era digital, a pressão é constante para que as marcas tragam novos rostos a cada temporada, ajudando sua imagem a parecer renovada.

E isso, por sua vez, significa que um pequeno grupo de diretores de casting (as pessoas responsáveis por escolher quem será a "Próxima Sensação" nos catálogos das agências de modelos e trazê-la para a passarela antes dos demais) está ganhando importância.

Barbara Nicoli e Leila Ananna, que colaboram faz tempo com Gucci e Burberry, são duas das agentes mais influentes (outros nomes importantes são Piergiorgio del Moro, James Scully, Anita Bitton e Ashley Brokaw). Há mais de uma década, as duas selecionam até 100 modelos por desfile das duas grifes, e até um quarto delas é composto por rostos nunca vistos antes nas passarelas.

Morando entre Milão e Paris, elas também já trabalharam para Saint Laurent, Versace, Emilio Pucci e Diane von Furstenberg; nesta temporada, fizeram o casting de uma série de marcas menores, incluindo Peter Pilotto, Marco de Vincenzo, Acne e Arthur Arbesser. Entre as modelos que Barbara e Leila ajudaram a apresentar ao mundo estão Karlie Kloss, Abbey Lee e Edie Campbell - além de Kiki Willems, Marjan Jonkman e Grace Hartzel.

Faz tempos que as marcas deixaram de procurar uma estética feminina padrão: manequins magérrimas cuja personalidade era em geral mantida longe dos holofotes. Hoje, com as demandas da era digital e novos consumidores em novos mercados, a topografia é alterada constantemente em se tratando da identidade e dos valores que as empresas precisam projetar.

Assim, enquanto os diretores de criação vêm e vão, agentes de casting como Barbara e Leila continuam entrincheiradas na linha de frente da moda, filtrando e moldando nossas percepções da beleza e sua personificação.

“É claro que não temos mais as supermodelos de antes, como Naomi Campbell, Claudia Schiffer, Cindy Crawford. Essa era ficou no passado”, disse Leila. “Certamente há estrelas lindas, em constante ascensão e queda, mas poucas garotas chegarão a tal patamar, se é que isso vai se repetir. As mídias sociais fazem carreiras explodir, mas podem também levar à superexposição. Depois de duas ou três temporadas muitas delas desaparecem, e alguns dos melhores rostos simplesmente não resistem ao desgaste. No fim, a moda é uma eterna busca pelo novo.”

É aí que elas entram. A tarefa do casting costuma envolver um processo anual para os desfiles, de acordo com Leila (nascida em Paris, hoje com 42 anos), com as agências enviando continuamente novas garotas para avaliação, muitas vezes trazidas diretamente das ruas de suas cidades natais.

“A principal vantagem de fazer o casting para as maiores grifes é o fato de isso nos proporcionar a melhor visão geral do mercado que se pode imaginar”, diz Barbara, 44 anos, italiana que começou a carreira como assistente dos bastidores em Milão depois de concluir o doutorado em ciências políticas. “Estamos no mailing de agências dos países mais remotos.”

De acordo com ela, a demanda é de tal ponto que “a maioria dos diretores de casting trabalha com uma equipe, e não independentemente. Pode ser muito desgastante lidar sozinho com as dificuldades e as necessidades do cliente. Leila e eu fazemos a mesma função, mas nossas diferenças de personalidade e gosto, e a saudável troca de opiniões, contribuem sem dúvida para que sejamos melhores no que fazemos”.

Elas dizem que a prioridade é sempre encontrar e apresentar rostos que ninguém nunca viu. Modelos como Elibeidy acabarão sendo chamadas por outras marcas, é claro (no caso dela, a Prada é cliente de Ashley Brokaw), mas as grifes querem ser lembradas como as primeiras - e estão dispostas a pagar pela descoberta.

“Barbara e Leila têm um ponto de vista bastante internacional, e sempre conseguem combinar modelos já conhecidas com uma nova leva de moças desconhecidas”, disse Marco de Vincenzo após seu desfile em Milão na sexta feira.

Mas Burberry, Gucci e Jil Sander não quiseram comentar suas práticas na busca por modelos, temendo revelar manipulações de mercado que ocorrem nos bastidores de um desfile. De sua parte, Barbara e Leila dizem ser difícil descrever a fórmula mágica envolvida na tarefa de encontrar um novo rosto para ser objeto de mil campanhas de publicidade. É um equilibrismo que envolve a idade da garota, o formato do seu rosto, a cor de sua pele e sua personalidade; a visão do cliente, seu orçamento e timing; e a receptividade do público. E, cada vez mais, a presença da modelo nas mídias sociais desempenha um papel.

“Obviamente, a ideia de escolher uma modelo sabendo quantos seguidores ela tem no Instagram era desconhecida há cinco anos, mas e as modelos que já construíram em torno de si marcas poderosas? Isso é muito importante para várias das grifes hoje. Creio que foi uma tendência iniciada por Riccardo Tisci, da Givenchy”, disse Barbara. “Não sei se isso é bom ou ruim, mas as Gigis e Kendalls são uma necessidade do mercado em que vivemos no momento. E, para alguns, isso claramente funciona.”

A personalidade também é importante. “Elas precisam corresponder a determinadas medidas, obviamente, mas Alessandro Michele, da Gucci, pensa mais em quem a garota é e como ela veste um determinado look, por exemplo, em vez da sua altura ou o tamanho dos quadris”, prosseguiu Barbara, reconhecendo também que “muitos trabalham apenas com medidas, é claro. Na temporada anterior, quando escolhemos Céline, fizemos 200 cartões com dígitos, nada mais, e foi o que trouxemos para a semana de moda”.

Mas, em se tratando da diversidade nas passarelas (ou a falta dela), a dupla assume posição mais defensiva e cautelosa; talvez um indicativo do quanto o tema é delicado. “Me parece que essa questão chama mais atenção nos Estados Unidos do que na Europa, e acho que na Europa estamos mais atrasados em relação ao tema da diversidade”, disse Barbara. “Mas minha recomendação de casting não depende da cor da pele. Negra, branca, amarela, azul ou vermelha; modelo é modelo. Mas grifes diferentes têm especificações distintas quanto ao que desejam. É essa a realidade na qual trabalhamos.”

Leila concordou, destacando que a situação parecia melhorar, e os olheiros estavam agora buscando mais variação entre as novas modelos - como Elibeidy, negra, que estava em seu quarto desfile (Jil Sander) na tarde de sábado.

“Quem é ela? É linda”, sussurrou um editor enquanto Elibeidy percorria a passarela. “Sua presença é tão forte. Certamente será uma estrela.”

E agora, vamos a Paris. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL