Alicia Keys e a ‘Tirania da Maquiagem’

Penelope Green/The New York Times - O Estado de S.Paulo

Cantora pop de 35 anos faz parte do time que se 'libertou' dos produtos de beleza

Alicia Keys sem maquiagem no MTV Video Music Awards 2016.

Alicia Keys sem maquiagem no MTV Video Music Awards 2016. Foto: REUTERS/Eduardo Munoz

Era sexta feira, início do feriado americano do dia do trabalho quando Alicia Keys  foi ao programa Today para fazer uma apresentação que integrava uma série de espetáculos de verão - ela está prestes a lançar um novo álbum, e compôs o tema de ‘Queen of Katwe’. Havia muitos temas para a conversa. Mas, em vez disso, Alicia passou a maior parte do tempo falando de maquiagem (que ela não usa) com os âncoras Tamron Hall, Billy Bush e Al Roker, que insistiam em limpar a camada de base de seus rostos. “Vocês estão loucos”, disse Alicia, esfregando as bochechas de Tamron. “Essa não é a ideia do movimento!”

O “movimento" é o #nomakeup - um meme, uma hashtag, um grito de coragem - e vem ganhando força nas mídias sociais há meses. Para quem não sabe do que se trata, tudo teve início em maio, quando Alicia escreveu um ensaio para o portal ‘Lenny Letters’, de Lena Dunham, a respeito das inseguranças que sentia como mulher exposta aos olhares do público, e os papéis (e produtos de maquiagem) que adotou ao longo dos anos para se defender. Escreveu a respeito da ansiedade que passava se saísse de casa sem maquiagem: “E se alguém quisesse tirar uma foto comigo? E se a imagem fosse publicada na internet?” E então, quando abriu mão da maquiagem e das roupas elaboradas ao fazer retratos para um álbum, ela se sentiu livre. ”Espero muito que seja uma revolução”, escreveu ela.

Alicia Keys no desfile de verão 2017 Tom Ford.

Alicia Keys no desfile de verão 2017 Tom Ford. Foto: REUTERS/Lucas Jackson

Nos meses que se seguiram, Alicia apareceu em toda parte - sempre sem maquiagem, sempre linda - apresentando-se na Convenção Nacional Democrata, no programa The Voice e no MTV Video Music Awards, no desfile de Tom Ford durante a New York Fashion Week. História bacana, não? Inspiradora, com um toque de doçura, não é mesmo? Bah. O “Makeup-gate 2016”, nome dado ao episódio pelo New York Post e outros veículos, só ficou mais complicado com o Twitter tomado primeiro pelos defensores de Alicia e, em seguida, pelos detratores dela. E, finalmente, veio a reação à reação. O #nomakeup foi empoderador e corajoso. Não: foi irritante, incendiário e invasivo. As detratoras de Alicia (eram mulheres na maioria) rosnaram contra a dissimulação (certamente a cantora gastou milhares em tratamentos para a pele) e falsidade (certamente a cantora estava usando hidratante com corante) dela; algumas a criticaram por não parecer bonita o bastante (embora tenham usado termos menos educados para dizê-lo).

No final do mês passado, Swizz Beatz, marido de Alicia, foi ao Instagram e publicou um vídeo defendendo a cantora: “Momento de perplexidade”, disse ele, claramente incrédulo. “Há alguém irritado em casa porque outra pessoa deixou de usar maquiagem no rosto?” Não devemos nos surpreender ao ver que isso se tornou notícia, disse Letty Cottin Pogrebin, ativista e autora integrante da segunda onda do feminismo. “Já vimos tudo isso antes”, disse ela. “Alicia Keys poderia ter aprendido algo com a ortodoxia antimaquiagem do movimento das mulheres de 40 anos atrás. Nunca tinha ouvido falar dela antes desse episódio, mas agora quero segui-la por toda parte. O que ela está fazendo é um trabalho de conscientização pop. Não está apenas apontando a tirania da maquiagem. Está falando da autenticidade feminina. Está questionando os implacáveis padrões culturais de conformidade feminina e a incessante propaganda da indústria da beleza em torno de seus produtos.” (Letty disse que, enquanto lia o ensaio de Alicia, a página abriu um anúncio de algum tipo de creme para a pele.)

A editora e fundadora da revista Allure, Linda Wells, indaga por que a moda é tratada como forma de expressão e a maquiagem é vista como exagero da vaidade. Ou coisa pior. Linda citou a obra ‘O Mito da Beleza’, livro de Naomi Wolf publicado em 1991 no qual ela defendia que os ideais contemporâneos de beleza, propostos geralmente por uma indústria dos cosméticos dominada por homens, estavam escravizando as mulheres e submetendo-as a todo tipo de práticas restritivas, da maquiagem à cirurgia plástica, passando pelos distúrbios alimentares. “Entendo o ponto de vista dela, mas discordo”, disse Linda. “Para mim, não somos todas vítimas passivas. Faça sua escolha, como Alicia Keys. Decida o que a faz se sentir segura e seja feliz.”

Além disso, de acordo com Linda, o gesto de Alicia ocorre num momento particular em que a internet está saturada de vídeos no YouTube mostrando a melhor maneira de nos apresentarmos…na internet. “São vídeos ensinando a aplicar delineador e realce, que agora chamamos de ‘strobing’, e há outra técnica de iluminação chamada ‘baking’, que consiste basicamente numa espessa camada de pó”, disse Linda. “É um visual bastante extremo - não usamos desde os anos 1980. É um tipo de cuidado intenso voltado para a cultura da selfie, e então aparece alguém como Alicia Keys e diz, ‘Não vou fazer isso’, e todo mundo perde a cabeça.“

A quem pertence a maquiagem, afinal? No final dos anos 1980, Andrea Robinson, então presidente da Ultima II, lembrou a resposta de seus chefes (homens) na Revlon quando ela propôs uma extensão da marca chamada Nakeds, maquiagem na coloração da pele destinada a mulheres que não queriam parecer maquiadas. De acordo com a memória de Andrea: “Eles disseram: ‘por que uma mulher desejaria usar lama no rosto? Maquiagem envolve fantasia, cor’. O que eles não disseram é que tratava-se da fantasia deles, das cores que eles gostavam. A ideia de mulheres querendo parecer consigo mesmas, maquiando-se para si mesmas, lhes parecia loucura”.

Depois de lançada, a linha Nakeds quebrou todos os recordes de venda, e os produtos se esgotaram repetidas vezes nas lojas. Centenas de mulheres escreveram a ela para agradecer, disse Andrea, incluindo Jean Harris, que escreveu a ela a partir da prisão: “Para ela nós estávamos no rumo certo. As mulheres não deveriam exagerar na pintura, valendo-se de sua beleza simples”.

Para que fique claro, os executivos da indústria de cosméticos não estão preocupados com a possibilidade de o movimento #nomakeup levar as mulheres a jogarem seus batons no lixo. “É um momento nas tendências da maquiagem”, disse Jane Herzmark Hudis, presidente do grupo empresarial Estée Lauder, acrescentando que a indústria está passando por um momento de "crescimento explosivo”, com as vendas de produtos “premium" apresentando alta de 13% no ano passado, de acordo com o NPD Group (a maior parte das vendas foi impulsionada pelos corretivos, por sinal). As vendas de produtos de beleza chegaram a US$ 16 bilhões nos Estados Unidos em 2015. As cores da linha “nude" estão sempre entre as mais vendidas, disse Jane.

Basta perguntar a Bobbi Brown, a maquiadora que se converteu em magnata dos cosméticos e ergueu uma empresa com base na maquiagem “nude”, e cujo manifesto corporativo atual é o #bewhoyouare (“#sejaquemvocêé"). “É preciso muita coragem para enfrentar as câmeras HD sem maquiagem”, disse ela. “Mas eu a entendo. Tudo bem. Escolha quem você quer ser. Pessoalmente, gosto de usar um pouco de corretivo. Mas, obviamente, a questão vai além da maquiagem. Não acho que as pessoas entendem como é difícil para mulheres como Alicia Keys a obrigação constante de se preocupar com a própria aparência. Há coisas horríveis com as quais a internet nos faz conviver. Seria melhor se todos julgassem menos e fossem mais tolerantes.”

Quando Kim Novak compareceu à cerimônia de premiação do Oscar em 2014, muitos a criticaram a respeito das óbvias plásticas no rosto dela. Laura Lippman, autora de romances policiais que na época tinha 55 anos, ficou revoltada: quem eram esses “haters” da internet fazendo comentários tão desagradáveis a respeito da aparência de uma senhora de 81 anos? Em solidariedade a Kim, ela publicou uma selfie do próprio rosto “como é”, convidando outras a fazer o mesmo. Foi um momento #nomakeup um pouco diferente. “Tive a sensação de que seremos apedrejadas de um jeito ou de outro”, disse ela. A resposta a surpreendeu: milhares de fotos do “rosto natural” publicadas por todo tipo de gente, incluindo um homem que tirou uma foto de si na maca do hospital no dia em que teve um ataque cardíaco.

“A questão é complicada”, diz a decoradora Sheila Bridges. Depois de receber o diagnóstico de alopecia alguns anos atrás, ela decidiu raspar a cabeça em vez de lidar com perucas, uma decisão particular que fez dela alvo de constantes comentários públicos indesejados. Além disso, há quem se sinta à vontade para lhe fazer um carinho na cabeça. “Historicamente, como mulheres, a beleza é nossa moeda”, disse Sheila, “e quando fazemos algo que contraria as normas sociais, as pessoas ficam frustradas. Isso me faz lembrar de quando Gabby Douglas ganhou suas medalhas de ouro na Olimpíada de Londres.”

Estávamos em 2012, e a jovem de 16 anos trazia para casa duas medalhas de ouro por seu desempenho, mas boa parte do debate a respeito daquele evento histórico (Gabby foi a primeira negra americana a ficar com o título olímpico geral) envolveu o penteado dela, com o cabelo preso num rabo de cavalo com grampos. “A reação foi tremenda”, lembrou Sheila, “e os comentários no Twitter foram terríveis, ainda mais por virem de outras mulheres negras, em sua maioria. Eu só pensava: estão de brincadeira? Trata-se de uma das melhores atletas do mundo, e estamos falando do cabelo dela?”