A moda está morta. Viva a moda!

Maria Rita Alonso - Especial Para o Estado de S. Paulo

A SPFW se reinventa mais próxima da rua e da favela, celebra o streetwear e transforma seu business para tentar alavancar o varejo. Vida longa à moda!

Na Cotton Project, uma moda usável estilo anos 1980. 

Na Cotton Project, uma moda usável estilo anos 1980.  Foto: MARCIO FERNANDES/ESTADAO

É preciso mudar quando as coisas não vão bem. Não à toa, esta edição da São Paulo Fashion Week, de número 42, recebeu o nome de Trans. Nas palavras de Paulo Borges, o idealizador do evento e propagador da criação da moda nacional, esta é a edição da transformação, da transgressão, da transição. Com surgimento das redes de fast fashion, a invasão das grifes internacionais nos shoppings, as investidas furadas dos estilistas brasileiros em parcerias com grupos financeiros e o declínio da imagem glamourizada do evento, essa guinada radical nos rumos da SPFW tinha realmente uma urgência.

 

E não é que veio a reação? Nos últimos anos, renovou-se o quadro de marcas. Gente boa, criativa, influente nas redes e que sabe fazer barulho chegou para movimentar a cena. A estilista mineira Patrícia Bonaldi, que sofria um preconceito no meio por ser blogueira e fazer sucesso com vestidos de festa bordados, foi galgando espaço, montou um grupo com quatro marcas e nesta edição fez um dos desfiles mais ricos e festejados, usando como cenário o Teatro Oficina.

 

Em uma uma linha mais minimalista, a marca de Renato Ratier, homem da noite, dono da D-Egde, é outra que traz um charme novo à cena fashion. Seu desfile na quinta-feira, 27, inspirado na musa Grace Jones, foi bom e provocante, com peças que misturavam a esportividade dos anos 1980 com a sensualidade do jeito de vestir de quem ferve nas pistas. Seus maiôs cavadões (a asa delta e o fio dental estão de volta), vestidos-camisola e blusões com capuz são desfilados com uma atitude underground e rendem imagens impertinentes e poderosas, como a da modelos com o top underboob, que deixa a parte de baixo dos seios à mostra. Imagens que tocam um público mais amplo e não apenas fashionistas. A moda desceu do salto.

 

Nesta edição, chegaram mais duas marcas que faltavam. Uma comandada pelo rapper Emicida, que tem tudo para ser o nosso com o Kanye West, vendendo roupas com pegada street, mas com acabamento de primeira e design sofisticado. “A moda de rua ‘é nóis’”, diz ele. Seu desfile foi um show, com um casting quase todo negro, algumas pessoas gordas e a presença de Seu Jorge. “Empoderamento é, de longe, a palavra do momento em 2016. Num movimento de redescoberta social para além das fotos de gatinho no Facebook, todos guetos e minorias se aproveitam da repercussão das redes para tentar levar sua luta para além da bolha, atrás de respeito e igualdade - gordos, gays, negros, trans, feministas, a lista é plural e infinita”, analisa Eduardo Viveiros, editor do site Chic, de Gloria Kalil. 

 

Nesse sentido, ninguém causou mais do que Ronaldo Fraga. Ele não se preocupou muito com a roupa e sim com o discurso, levantando a bandeira de apoio aos transexuais. Seu desfile foi um manifesto político pela tolerância e contra a violência e o preconceito. Ronaldo é um dos membros da velha guarda que soube se manter relevante. Nos útimos anos, muitos ficaram pelo caminho. Marcas-chave da moda nacional deixaram o evento (Herchcovitch;Alexandre, Ellus, Forum, Triton, Colcci), enquanto os que ficaram firmes e fortes acabam se superando. Caso de Gloria Coelho e Reinaldo Lourenço, que brilharam nessa estação, fazendo tudo certo e desejável: tecido, modelagem, estampa, caimento... Alexandre Herchcovitch também se reinventou na marca À La Garçonne, fazendo roupas que agora as pessoas querem comprar, ao lado de seu marido Fabio Souza, o diretor criativo.

É o chamado streetwear de luxo, com peças pintadas à mão, em edições limitadas, moletons, camisetas, camisas e essas roupas urbanas que todo mundo usa. Mesmo caso da Cotton Project e da Just Kids que estão sintonizadas com essa aproximação da moda com a vida real. Há uma rebeldia, uma atitude quase punk, meio desbocada, meio indolente, às vezes até politizada. Uma característica marcante desse movimento, que segue a estética dos anos 1980, é o ato de raspar a cabeça. Nas passarelas, meninos e meninas surgiram quase carecas, como a personagem Eleven, de "Stranger Things". A questão dos gêneros é outra batalha da atualidade endossada pelas passarelas. Em tempos difíceis, a moda parece cair na real. / COLABOROU ANNA ROMBINO