Vôo solo

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

De repente, você se vê com toda a liberdade do mundo depois da separação. Tem milhares de opções de programas, baladas, viagens, etc. Mas nem sempre tem companhia e, muitas vezes, pode se sentir desnorteada, depois de anos fazendo programas de casais e limitando sua identidade à vida a dois. E agora? Ir ao cinema sozinha, inventar novos programas ou continuar saindo com outros casais? Se os amigos próprios foram conservados durante o casamento, ótimo, senão é hora de conquistar novas amizades. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de divórcios no Brasil entre 2004 e 2005 aumentou de 1,2 para 1,3 por mil pessoas de 20 anos ou mais. Isso sem contar as uniões informais, que são desfeitas a todo momento. No resto do mundo, também não faltam separações, o que tem motivado o lançamento de uma enxurrada de publicações para a fase pós-separação, como o livro Quando Termina é Porque Acabou, do casal Greg Behrendt e Amiira Ruotola- Behrendt (Rocco). Para muitos, há o chamado luto social: período em que se precisa ficar só para digerir a perda. Por outro lado, tem gente que não consegue ficar sozinha e quer logo partir para outra. ?É sempre melhor sair de casa, seja para fazer cursos ou programas com amigos?, recomenda o psicólogo Ailton Amélio, autor de O Mapa do Amor (Editora Gente). ?Mas sugiro que a pessoa não se lance em relacionamentos amorosos na seqüência, porque a escolha não será criteriosa. Geralmente há carência, a auto-estima está baixa, é uma espécie de demolição. Primeiro é necessário digerir a perda e reconstruir a identidade.? Para ele, é importante retomar planos e sonhos, além de reativar antigas amizades. Uma situação complicada é manter o mesmo círculo social e ficar se deparando com o ex a todo instante, o que torna o processo ainda mais doloroso. No entanto, cada um encara a fase de uma maneira diferente. A paisagista Leandra Godino, de 32 anos, manteve muitos amigos da época de casada. Ela se separou há dois anos, depois de um relacionamento de 12 anos (contando o período do namoro). Mas continuou saindo com casais de amigos e primas do ex. ?Teria sido mais fácil cortar relações, mas eu coloquei a amizade acima de tudo. Sabia que era uma fase, que ia passar?, conta ela, que, mesmo assim, exigia que não tocassem no nome do ex. Mas isso não amorteceu a dor dos primeiros seis meses, apesar de a decisão da separação ter sido conjunta. ?Foi um luto. Não conseguia sair de casa, não tinha vontade de nada, de falar com ninguém. Tinha que reunir toda a minha força de vontade para colocar uma roupa bonita e sair?, conta ela. ?Fiquei insegura no começo, pensando que ninguém mais gostaria de mim.? Apesar de manter as amizades da época de casada, foi com uma antiga amiga - que também se separou - que ela começou a sair à noite. Nada como o tempo. ?Comecei a curtir a vida de solteira, a liberdade de não ter que ficar dando satisfação. Hoje me sinto muito mais segura do que na época de casada. E renovada.? Quando ela já estava muito satisfeita com o novo estado, conheceu o atual marido na festa de aniversário dele, e casou-se com ele em dezembro. Já a consultora de imagem Adriana Balthazar, de 36 anos, descobriu uma nova vida depois que se separou. Depois de ?tentar de tudo? para o casamento dar certo durante seis anos, finalmente optou pelo término da relação há um ano e meio. Ela tem uma filha: Giovanna, de 6 anos. Além dos desafios sociais, também teve o financeiro: o padrão de vida acabou caindo porque ela não ganhava o suficiente para mantê-lo. Contudo, hoje se sente muito feliz. ?Tive sorte. Me separei num momento muito bom profissionalmente e o ambiente do meu trabalho me ajudou a fazer novos amigos. Hoje tenho o triplo de amizades?, conta ela. ?Os programas se diversificaram muito. Continuo saindo com minha filha, nos divertimos bastante juntas. Mas também comecei a freqüentar boates, festas e a viajar num clima totalmente diferente do que havia na época de casada.? Também teve, no início, seus momentos de vazio, quando adotava uma postura mais introspectiva e curtia a sua própria companhia. Alguns amigos do casal foram mantidos e a apoiaram, mesmo por causa da convivência com a filha. Aqueles que ficaram mais ligados ao ex se perderam. ?É um dos preços que se paga. Eu lido com isso de uma forma mais prática: digo a eles que são muito queridos, mas que não dá mais para termos o mesmo nível de convivência. E o tempo ajuda muito. Você vai refazendo sua rotina, seus finais de semana?, comenta. ?O mais importante é se colocar aberta para a vida, para novas experiências e amizades.? Um novo começo O livro Separação (Record), escrito a quatro mãos pela psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins e o romancista Flavio Braga (seu marido há seis anos), trata do tema. Nele, são relatadas duas separações: uma nos anos 50 e outra na época contemporânea. A partir das histórias, os autores refletem sobre a transformação de valores e atitudes. ?A separação é vivida de uma forma mais fácil quando a mulher tem amigos, projetos e não tem preconceitos sexuais. Além disso, quando ela não encara ?estar só? como solidão?, comenta Regina. ?O que precisa mudar é essa forma de encarar a vida só em par. Existe essa cobrança da sociedade e muitas mulheres assimilam isso.? Regina ressalta que, quando a pessoa é abandonada pelo parceiro, acaba revivendo todas as rejeições que já sofreu na vida, aumentando a dor daquela experiência específica. ?É um momento doloroso, mas depois passa, e pode representar um renascimento?, diz. ?O maior desafio das mulheres é romper com o moralismo com que foram criadas. Para viver de uma forma satisfatória, é preciso ter coragem.? A secretária Giane Ruiz, de 39 anos, está aprendendo essas lições. Num primeiro momento, o chão sumiu de seus pés quando o ex-marido decidiu se separar, depois de 10 anos juntos. Com um filho pequeno (Matheus, que hoje tem 6 anos), ela viveu um luto de dois anos. ?Tive que me adaptar a uma nova situação. A sensação era de fracasso?, lembra. ?Eu me sentia um ET. Não queria saber de sair de casa, fiquei assexuada, lambendo as feridas, como se fosse viúva de um marido vivo.? Teve até um problema físico muito simbólico: parou de menstruar durante todo o primeiro ano da separação. Depois de uma investigação médica, ficou concluído que a questão era puramente psicológica. E foi a psicologia que ajudou Giane a superar essa fase difícil. Com muita terapia e apoio de amigos e familiares, ela percebeu que tinha que se voltar para fora de novo. ?No começo, não sabia o que eu estava fazendo nas festas, mas me forçava a sair?, conta. Duas amigas próximas, que também tinham se separado, a arrastavam para programas. A auto-estima foi se fortalecendo, ela foi aceitando a situação. ?Quando a ficha caiu, comecei a me sentir livre e com vontade de me relacionar de novo. Daí passei a ser notada.? No ano passado, ela teve um namorado, o que a fez perceber-se plenamente capaz de se apaixonar novamente. ?Foi muito bom sentir que estou inteira para ter outro relacionamento. No começo, não sabia nem se seria capaz de beijar outro homem?, fala ela, que já está separada há cinco anos. Com as amigas, Giane curte programas, como ir ao teatro, dançar, comer pizza e simplesmente bater papo. ?Hoje, me sinto muito mais segura como mulher. Sei dizer o que quero e o que não quero.?