Vírus da aids se ''esconde'' em célula

Alexandre Gonçalves - O Estado de S.Paulo

Apesar da eficácia dos remédios, estudo aponta que HIV pode ficar latente, à espera do abandono do tratamento

Os coquetéis de drogas contra a aids já são capazes de diminuir a quantidade de vírus no sangue a níveis praticamente imperceptíveis nos exames sorológicos, embora ainda seja impossível erradicar o HIV completamente. Cientistas suíços e americanos mostraram que basta o vírus permanecer "escondido" em uma única célula para que a infecção reapareça com agressividade tão logo o tratamento seja interrompido. Veja o mapa e os números da aidsO trabalho, publicado hoje pela Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), apesar das aparências, é uma boa notícia. Havia a suspeita de que as terapias atuais apenas diminuíssem a taxa de multiplicação do HIV no organismo. Mas a pesquisa comprovou que vírus ativos - ou seja, em processo de replicação - são eliminados com muita eficácia pelos anti-retrovirais (remédios para pacientes com aids). Por meio de estudos genéticos, os cientistas apresentaram evidências de que só os vírus latentes escapam à ação dos remédios. Quando acordam, eles são os únicos responsáveis pela reinfecção.Em entrevista ao Estado, o professor do Hospital Universitário de Zurique (Suíça) e co-autor do trabalho, Huldrych Günthard, explicou que, como o vírus não consegue se reproduzir durante o tratamento, é praticamente impossível surgirem cepas resistentes do HIV quando os pacientes tomam todos os remédios com regularidade."O próximo passo é descobrir como identificar células com vírus latentes", afirmou Günthard. "Se pretendemos erradicar o HIV, precisamos entender melhor essas células e onde elas se escondem no corpo humano", completou.ADESÃORicardo (nome fictício) utiliza o coquetel anti-retroviral desde a década de 90. Mas as náuseas e diarréias causadas pelos remédios fizeram com que interrompesse o tratamento várias vezes. A irregularidade custou caro: o vírus desenvolveu resistência a alguns medicamentos. "Fica cada vez mais difícil controlar a infecção", lamenta Ricardo. Um estudo realizado em Campinas, publicado no mês passado pela Revista da Escola de Enfermagem da USP, mostrou que 73,3% dos 60 soropositivos entrevistados seguiam rigorosamente o tratamento anti-retroviral.A professora Maria Inês Battistella Nemes, da Faculdade de Medicina da USP, é responsável pelo único levantamento de alcance nacional, publicado em 2002. O porcentual obtido foi parecido: 75% de adesão ao tratamento. Participaram do estudo 2 mil pessoas. "É um porcentual parecido com o de países desenvolvidos", aponta Maria Inês. "A pesquisa foi muito importante para contradizer quem afirmava que era impossível conseguir taxas altas de adesão nas nações pobres."A infectologista Joselita Caraciolo, do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP recorda que pesquisadores já consideraram a conveniência de realizar "férias periódicas" do tratamento para diminuir os efeitos colaterais e o custo, especialmente nas nações mais pobres da África. Mas logo abandonaram a idéia.Além do aumento na infecção pelo vírus, as "férias" trazem outros efeitos ruins. Um trabalho publicado ontem pela Public Library of Science Medicine associou tais interrupções no tratamento a um aumento na incidência de coágulos sanguíneos, geralmente ligados a problemas cardíacos, diabete e câncer. NÚMEROS75% dos soropositivos afirmam seguir rigorosamente o tratamento com anti-retrovirais no Brasil0,6% é a incidência estimada da doença na população brasileira15% é a incidência em alguns países da África Subsaariana