Veteranas na Bolsa

Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo

Mulheres representam 23% do total dos que investem na Bolsa. As acima de 50 anos são as que têm mais capital

Elas não se deixam abater pela crise: estão conscientes da realidade do mercado e acreditam que tudo o que desce, sobe novamente. Desde que haja paciência para esperar: e este é um requisito essencial para se aplicar em ações de empresas. No País, há hoje 124.589 mulheres com dinheiro aplicado em ações, representando 23,32% do total de investidores desse mercado. De 2002 até hoje, o número de investidoras aumentou 8,3 vezes. Tanto que a Bolsa de Valores de São Paulo está ampliando o programa Mulheres em Ação, que fornece informações financeiras para o público feminino.

São as mulheres acima de 66 anos que têm mais dinheiro aplicado. Já a faixa etária de 56 a 65 anos representa a maior quantidade de investidoras. Seja fazendo parte dos chamados clubes de investimento, ou aplicando sozinhas, elas são as rainhas acionárias. "A mulher é boa investidora porque tem visão de longo prazo, planeja a educação dos filhos e, hoje, muitas são chefes de família", diz o diretor executivo de Desenvolvimento e Fomento de Negócios da Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros (BM&FBOVESPA), Paulo Oliveira. "Não são atiradas, não fazem especulação: investem e esperam, conscientes do timing."

Na Corretora Gradual Investimentos há dois clubes femininos. O primeiro, Entre Amigos, foi fundado em 2001 por 14 professoras aposentadas e, hoje, congrega 61 participantes. Já no começo, a assessora de investimentos Doraci Rodrigues Martins Julia assumiu o papel de administradora das aplicações, função que ela também exerce no outro clube feminino criado pela corretora em 2007, o Gradual Mulher na Bovespa.

Nos clubes, as mulheres recebem "educação financeira". São promovidas reuniões mensais e palestras sobre o mercado. "A investidora sempre chega com um monte de perguntas, e fica se desculpando. Os homens costumam vir com informações que colheram e já chegam com uma opinião formada", diz Doraci, mais conhecida por Dorinha. Os assessores responsabilizam-se pelas aplicações e movimentações. A recomendação é investir todo mês uma quantia que não faça falta. Afinal, o objetivo é crescer com as empresas, e não fazer especulações a curto prazo.

No relacionamento com as investidoras, Dorinha as orienta a estudar o perfil das empresas. "O mercado não é uma caixa preta nem um cassino: é um meio de se ganhar dinheiro aplicando em empresas, mesmo em tempos de crise."

POR DENTRO DO MERCADO

Para muitas aposentadas, participar do mercado de ações e entender mais sobre o assunto é uma forma de sentir-se ativa e atuante no cenário econômico. "Quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro", brinca a aposentada Miriam Figueira Herdy, de 63 anos, que aplica no Clube Entre Amigos desde 2004. Casada, sempre se interessou por economia, mas encontrou o tempo para se dedicar ao assunto apenas depois da aposentadoria, com os filhos crescidos.

Depois que conheceu o clube, passou a aplicar, religiosamente, R$ 200,00 por mês. Além disso, tem outras aplicações individuais. "Nesses cinco anos, sempre estive no azul, até surgir a confusão americana. Mas mesmo com a queda, não vou tirar meu dinheiro, acredito que o mercado dá voltas", fala. De manhã cedo, já começa a ler os cadernos econômicos e depois acompanha pela TV a movimentação no pregão. "Investir na Bolsa nos deixa ligadas ao mercado e desenvolve um olhar crítico sobre o que está acontecendo, a ponto de percebermos que há muitas previsões erradas. Não somos apenas uma dona de casa." Seu grande objetivo é chegar aos R$ 500 mil.

Já a paulistana Isabel Azzi, de 51 anos, foi uma das primeiras mulheres a investir no clube Gradual Mulher, cuja meta é chegar a um investimento de R$ 1 milhão. Foi o seu marido quem a incentivou a entender melhor sobre o mercado financeiro: queria que ela participasse mais da administração do dinheiro da casa.

Aos poucos, Isabel está mudando seus hábitos de consumo, a partir do que aprende nas reuniões do clube. "Ao invés de gastar com uma bolsa ou sapato de R$ 200,00, a ideia é aplicar esse valor para daqui a dez anos ter um capital muito maior e, assim, poder fazer algo mais significativo", comenta. "Já não sou tão alienada: o noticiário econômico não é mais de Marte." Agora quer que a filha de 20 anos comece a aplicar na Bolsa.

Adarci Moraes Motta, aposentada de 56 anos, é outra associada do clube Gradual Mulher. Começou a investir em ações da Petrobrás há 15 anos, usando o fundo de garantia, quando ainda trabalhava como secretária. "Pensava nesse investimento como minha previdência privada", explica. Pratica a diversificação: aplica uma parte em fundos e outra na Bolsa, onde, até o ano passado, investia cerca de R$ 500,00 por mês. Neste ano, parou de aplicar por causa da crise, mas está confiante de que vai recuperar as perdas. "Nenhuma outra aplicação se recupera tão rapidamente como a Bolsa. Mesmo com as perdas, tem rentabilidade superior ao longo do tempo." Seu grande sonho é resgatar a aplicação quando tiver um bom capital, e viajar por toda a Europa. "Vai demorar uns dez anos, mas, se eu tiver boa saúde, vou esperar."

Para a administradora de empresas Mariângela Matarazzo Lee, de 47 anos, acompanhar o mercado financeiro virou um "vício". Foi uma das primeiras a aderir ao clube feminino da Corretora Lerosa, cujas reuniões mensais são regadas a champanhe. Hoje, acompanha a abertura e o fechamento do pregão por meio do home broker - sistema que permite a compra e venda de ações pela internet. "Acho fascinante, apesar de ter passado 45 anos sem ligar para isso. Somos todas amigas no clube e eu sou a palpiteira do grupo." Com a crise, tem investido até mais do que antes.

Foi a diretora da corretora Lerosa, Isis de Aguiar Vallim, quem criou o clube feminino em 2007. E confirma: a maioria das 28 investidoras tem entre 50 e 60 anos. Inspirado nos clubes femininos dos Estados Unidos, o projeto busca informar as mulheres e colocá-las a par do mercado financeiro. A própria Isis teve de aprender tudo sobre o mercado financeiro depois que o marido faleceu, quando assumiu a corretora. "Qualquer pessoa pode aprender. E isso é importante para a mulher, porque nunca se sabe o dia de amanhã. É preciso saber cuidar do que é seu." Segundo conta, ainda é uma minoria que realmente se informa sobre o mercado e dá palpites sobre os investimentos do clube. Mariângela e a empresária Olga Saide estão entre as mais ativas.

Empresária do setor de construção civil, Olga entrou há três anos para o mundo das finanças. "Comprei dois livros sobre o assunto, fui a palestras e a todas as reuniões do clube", lembra ela, que tem 76 anos. "Aplicar em ações é uma coisa muito boa para a mulher, principalmente para aquelas que não trabalham. Isso as leva a viver dentro da realidade, nos momentos de alta e de baixa."