Veículo individual é o maior vilão

- O Estado de S.Paulo

Carros e motos respondem por 74% do gás carbônico vindo do transporte

Cada cidade tem o seu vilão, quando o assunto é a emissão dos gases do efeito estufa. No Rio, por exemplo, ele se personifica no lixo. Mas não é que os paulistanos encontraram seu pior inimigo justamente na sua maior paixão: o carro? O setor de transportes responde sozinho por 40% de todo o gás carbônico emitido pela capital, sendo 74% provenientes dos automóveis e das motos. Não é para menos: da frota registrada de 5,9 milhões de unidades, 4,4 milhões são veículos de passeio e 637 mil, motocicletas. Sem contar os que cruzam São Paulo mas não têm registro na cidade. A relação é de duas pessoas e meia por automóvel na capital, com 11 milhões de moradores. E são 500 novos carros todos os dias. Na Cidade do México, com 18 milhões de habitantes, a proporção é de cinco por veículo. No Rio, com 6,5 milhões de habitantes, o índice é três. Especialistas costumam apontar a utilização dos transportes públicos como a melhor saída para reduzir os congestionamentos e as emissões de CO2 em São Paulo. "A cidade precisa inverter a tendência do uso de automóveis individuais", afirma o ex-secretário estadual do Meio Ambiente Fabio Feldmann. Mas além da resistência dos paulistanos em deixar os carros na garagem (muitos até compram outro veículo só para os dias de rodízio), a teoria esbarra na falta de investimento no setor e na qualidade do serviço. A oferta do transporte por trilhos ainda está muito abaixo do necessário e um dos meios de locomoção mais utilizados em São Paulo continuam sendo os ônibus, a esmagadora maioria movida a diesel. São quase 15 mil unidades, que transportam 5,5 milhões de passageiros ao dia.Embora não sejam os maiores emissores de CO2 do trânsito (posto absoluto dos veículos individuais), os ônibus serão o alvo da primeira - e, por enquanto, única - medida pública para neutralizar a emissão gases de efeito estufa pelos transportes metropolitanos. A partir de janeiro, a Prefeitura vai colocar em circulação 16 ônibus movidos a etanol em oito linhas para analisar seu desempenho. No fim dos testes, que devem levar menos de um ano, será discutida a viabilidade da adoção do álcool hidratado pela frota. O etanol é considerado ambientalmente correto, apesar de emitir níveis de CO2 semelhantes aos de combustíveis fósseis, como a gasolina. A vantagem está na capacidade de reabsorção no processo produtivo. "Com o gás carbônico absorvido pela cana-de-açúcar, o balanço de emissões de gases do efeito estufa pela queima de biocombustível fica praticamente zerado", explica a professora do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ Suzana Kahn Ribeiro. Desde 2003 no mercado nacional, os veículos bicombustíveis são uma opção para o uso do álcool. Em São Paulo, 84% dos carros novos emplacados até outubro eram flex fuel. O engenheiro Maurício Assumpção Trielli, especialista em motores do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) da USP, ressalta, porém, que esse tipo de motor perde em eficiência.Segundo ele, o aproveitamento da energia liberada na queima da gasolina ou do álcool é menor. "É como um pato, que sabe nadar, andar e voar, mas não faz nada direito."Para Feldmann, um dos idealizadores do rodízio em São Paulo, ações provisórias como a carona solidária estão entre as possibilidades. Ele também defende a criação de ciclovias e de bicicletários. "Em São Paulo, a bicicleta ainda é vista como lazer, quando poderia ser um meio de locomoção", explica Feldmann. A Prefeitura anunciou a inauguração de duas ciclovias para 2008, uma na Radial Leste e outra na Marginal do Pinheiros. "Não é a solução, mas uma grande ajuda para o meio ambiente e o trânsito", diz o secretário municipal de Transportes, Alexandre de Moraes, que não informou datas para a abertura das faixas. O professor Célio Bermann, coordenador do Grupo de Pesquisa em Sociedade, Energia e Meio Ambiente da USP, considera pouco viável o uso disseminado de bicicletas em São Paulo. "A idéia de achar alternativas aos veículos combustíveis é válida, mas com a atual estrutura e o tamanho da cidade é impensável trocar o carro pela bicicleta."Outra corrente importante de mitigação de CO2 envolve o uso de combustíveis. Para o professor Bermann, a solução está no equilíbrio entre as mudanças na matriz de energia e na forma como as pessoas usam os meios de transporte. "Não há recursos energéticos suficientes para manter um alto padrão de consumo que se estenda a todos os habitantes do planeta."