Van traz até 12 pacientes de outras cidades

- O Estado de S.Paulo

Doentes chegam a viajar mais de 200 quilômetros para receber atendimento em São Paulo

Na última quarta-feira, a van da Prefeitura de Resende (RJ) chegou ao Incor no final da manhã. Sem cerimônia, o motorista estacionou, abriu as portas e os 12 passageiros entraram no hospital. Resende fica a 160 quilômetros do Rio e a 240 km de São Paulo, mas é para cá que o prefeito manda seus munícipes cardiopatas. Antes eram só ambulâncias, cada uma com um doente. Agora as vans trazem dúzias deles. E não é só Resende - municípios de vários Estados mandam seus doentes em ambulâncias e vans ou pagam passagem de ônibus ou avião para que as pessoas venham se tratar em São Paulo.O cardiologista Noedir Stolf, diretor-presidente do Incor, lembra que no passado o hospital não impunha restrições para o atendimento de doentes de fora, o que significava dizer que o Estado de São Paulo pagava a conta dos outros. Mas depois passou a atender pelo sistema CN-RAC (Centro Nacional de Referência de Alta Complexidade) e os doentes só são internados e operados se trouxerem guia das Secretarias da Saúde de seus Estados, o que significa que a conta será repassada.Mas alguns Estados dificultam a entrega da guia, aponta Stolf, o que leva muitos pacientes - vítimas de cardiopatias que não permitem adiar o tratamento - a camuflar sua origem de fora. Nesses casos, que o Incor não tem como quantificar, a conta é paga pelo SUS, mas espetada na cota paulista."Todo mundo quer vir para cá", comenta o cardiologista Carlos Alberto Pastore, chefe da Divisão de Serviços Médicos. "Por isso, o ambulatório marca consulta para daqui a um ano. O paciente vai para o pronto-socorro, que lota."O fenômeno da "invasão" se reproduz no Hospital das Clínicas. Como o Incor, o HC antes atendia todos os pacientes que o procurassem, explica o superintendente José Manoel Teixeira. Mas em 2005, pressionado pelas multidões que entupiam o ambulatório e o pronto-socorro, passou a atender apenas pacientes enviados por um ambulatório de especialidades, no caso da capital, ou por hospitais de outras cidades.No HC, os pacientes de outros Estados representam 5% e só são internados se trouxerem guia da Secretaria da Saúde de seu Estado. A cada ano, o HC fornece a pacientes de outros Estados 75 mil consultas, 3.250 internações e 2 mil cirurgias. Os pacientes de outros Estados procuram também hospitais de referência no interior: em 2008 o Hospital de Base de São José do Rio Preto internou 149 pacientes de Fronteira (MG), 72 de Frutal (MG), 48 de Carneirinho (MG), 97 de Iturama (MG), 47 de Três Lagoas (MS) e 62 de Aparecida do Taboado (MS).A atração que a medicina de São Paulo exerce sobre pessoas de outros Estados se revela mesmo no campo privado - 12% das internações do Hospital Sírio-Libanês são pessoas de fora do Estado de São Paulo, conta o médico Jorge Mattar. Lá, no entanto, as internações são pagas ou custeadas por planos de saúde. Mattar, que dirigiu o pronto-socorro do HC, diz que em geral a família do doente opta por trazê-lo a São Paulo para garantir o bom atendimento ou então o paciente vem por ter parentes aqui, o que lhe garante apoio familiar no tratamento.