Vamos brincar de outra coisa?

*Rosiska Darcy de Oliveira - O Estado de S.Paulo

Finalmente estamos aprendendo o óbvio: a vida é incerta

Parece que, finalmente, estamos aprendendo a conviver com o óbvio: o mundo é incerto, o amanhã, imprevisível , o inesperado irrompe nos nossos dias como um pássaro louco. Há quem crie rotinas, faça seguros, como escudos, na esperança de controlar o som e a fúria da vida. Inútil!Um belo dia, há meses, acordamos com o fim do mundo. Os canais invisíveis por onde circulava o dinheiro do planeta tinham explodido, as fortunas se evaporavam, a quebradeira das empresas, no mundo todo, ameaçava os empregos e o futuro de muita gente. De lá para cá, salvo raras vozes que se fizeram inaudíveis na cacofonia de investidores desgrenhados, gesticulando dementados como nos hospícios, ninguém se perguntou se não seria o momento de mudar em profundidade uma certa maneira de viver que, por sua vez, era a expressão desse lucro fácil e desenfreado, da falta de limite, que levou ao desastre a economia mundial.Limite era, nesse mundo que estertora, uma palavra maldita. Limite, colocar limites à velocidade desse mundo histérico, um atraso imperdoável. Difícil aceitar que não se pode tudo, mesmo se o planeta esquenta e os corações esfriam. Ganância e onipotência, quando se encontram, geram a ilusão do progresso e do poder, tão arriscados quanto um carro a 200 km por hora fazendo a curva na beira do precipício. Vivíamos assim, em alta velocidade, consumindo tudo, coisas, pessoas, a energia do mundo e, sobretudo, a nossa, em vertiginoso suicídio. Sabia-se há muito tempo que era preciso frear. A freada foi tão brusca que o carro capotou.Políticos, economistas atropelam-se nos corredores do mundo, tentando, por todos os meios, salvá-lo, reanimá-lo, revivê-lo exatamente como ele era. Remexem em ruínas, tentam novas construções precárias, com os materiais corroídos pelo passado. Não li nada de novo, nada que ousasse explorar outros caminhos, imaginar a vida com premissas diferentes: viver com menos, mais devagar, com os pés na terra, chamando de produto o que é produto e não papel que aceita tudo, sobretudo tramoias e falcatruas. Valorizando o trabalho que se traduz em alguma coisa que não seja uma contabilidade eletrônica, um frenesi digital. Ouvi lamúrias de quem perdeu fortunas que nunca viu nem gastou, apenas lhe garantiram que existiam, em algum lugar desse misterioso espaço virtual onde circulam todas as ficções. Existiam? Nem os melhores economistas são capazes de responder com convicção.Seis meses atrás crucificariam quem dissesse que este não era o melhor dos mundos. Vivíamos, os que desconfiávamos da fraude, no silêncio dos traidores, cassandras mal vistas, incapazes de curtir o sucesso do lucro fácil, do dinheiro abundante, dos novos milionários que brotavam cada semana, saídos ninguém sabe de onde. É que conhecíamos os meandros da ficção, como ela precisa de exaltação para ser interessante, como é fácil tecer um enredo em que se condena à derrota ideológica e, portanto, ao silêncio imposto pela ironia, os estraga festa, os baixo astral, os ecochatos.Enochatos, recém chegados ao consumo de luxo, cheirando, coitados, rolhas de vinhos de baixa categoria, sentiam-se os donos de uma festa rave que não acabaria nunca, e que as nossas reticências tinham o poder de irritar pelo simples fato de existir.A festa acabou e deixou para trás um monte de lixo. E agora?E se fosse chegado o tempo da imaginação? Quem brincou de mico preto tem a chance de, agora, brincar de outra coisa que não seja ganhar dinheiro para gastar nos shoppings. Quem sabe há outra maneira de passar o fim de semana? Sei que vou na contramão de quem conta com a poupança do comum dos mortais para reconstruir a economia falida. O ano ainda está bem jovem, quero mudar de assunto, ver inteligências se voltarem para o novo, para o que não foi pensado nem experimentado até aqui. O mundo não está em crise, apenas desnudando, uma vez mais, sua natureza incerta. A vida, olhada de perto, é uma crise permanente. Tão inesperadas quanto a chamada crise podem ser vidas inauguradas sobre imprevistas, inéditas definições de sucesso e felicidade.*Rosiska Darcy de Oliveira é escritora, email: rosiska.darcy@uol.com.br