Vale a pena ouvir os outros

Fernando Reinach* - O Estado de S.Paulo

Como você vai se sentir se ganhar na loteria? E se receber a notícia da morte de um parente? A capacidade de prever nosso estado emocional é um dos instrumentos que usamos para tomar decisões. O problema é que esta capacidade é precária. A maioria superestima o quanto vai sofrer ao receber a notícia da morte de um parente. A felicidade de ganhar na loteria é menor do que a imaginada. Muitas ansiedades e frustrações são causadas pela imprecisão dessas previsões. O que imaginamos que vamos sentir é muito diferente do que sentimos quando vivenciamos a experiência. Mas como melhorar nossa capacidade de previsão? Experimentos recentes demonstram que previsões baseadas na experiência de outras pessoas são melhores do que as feitas imaginando o futuro a partir de dados objetivos. Foram recrutados universitários solteiros que não se conheciam. Na primeira parte do experimento, um homem era colocado numa sala. Os cientistas pediam que escrevesse uma biografia sumária (idade, interesses, o que estudava e um parágrafo sobre sua vida). Na segunda parte, uma mulher era levada para a sala para conversar por cinco minutos com o homem. Ao sair, era pedido a ela que marcasse em uma escala de zero a cem o quanto havia gostado do encontro relâmpago. Dessa maneira os cientistas obtiveram dois grupos de dados sobre o homem na sala. Na terceira parte, mais duas mulheres eram envolvidas. Para cada uma era mostrada somente um dos dados (a biografia ou a avaliação da primeira mulher) e era solicitado que ela fizesse uma previsão em uma escala de zero a cem de quanto iria gostar do encontro de cinco minutos que teria com o homem. Em seguida era mostrado a cada mulher o segundo grupo de dados sobre o homem que elas iriam encontrar. Dessa maneira, ao entrar na sala ambas as mulheres conheciam os mesmos dados, mas a previsão feita por cada mulher era baseada em somente um grupo de dados. As mulheres eram levadas individualmente para um encontro de cinco minutos e ao saírem indicavam novamente, numa escala de zero a cem, o quanto haviam gostado do encontro. Estes experimentos foram repetidos inúmeras vezes com diferentes grupos de estudantes. Com o objetivo de avaliar qual o tipo de informação resultava em uma previsão mais precisa do que a mulher sentiria no encontro com o homem, a previsão de cada mulher feita antes do encontro foi comparada com sua avaliação feita após o encontro Os resultados foram inesperados. As previsões que se basearam unicamente na opinião de outras mulheres foram mais precisas que as feitas por mulheres que se basearam na biografia - apesar de 85% das mulheres acreditarem de antemão que os dados biográficos eram mais importantes do que a opinião de outras mulheres. Isso sugere que, apesar de confiarmos em nossa capacidade de prever sentimentos a partir de dados objetivos, a opinião subjetiva de uma pessoa de nosso grupo que já viveu a experiência é mais útil para o nosso cérebro do que nós costumamos imaginar. É mais uma evidência de que devemos desconfiar de nossa racionalidade. Para um darwinista, este é o resultado esperado. Afinal, durante a nossa evolução, muito antes de possuirmos a capacidade de analisar textos escritos e fotografias, o nosso cérebro já obtinha informações e fazia previsões a partir do comportamento de outros membros de nossa espécie. *Biólogo - fernando@reinach.com Mais informações: The surprising power of neighborly advice. Science, vol.323