Vaidade sem limites

Raphael Scire/ ESPECIAL PARA O SF - O Estado de S.Paulo

A pressão pela imagem perfeita, muitas vezes, leva as mulheres a cometerem loucuras, comprometendo a própria saúde

 

 

 

 

Quando era adolescente, a estudante Roxane Teixeira, de 21 anos, vivia cismada com as espinhas que tinha no rosto, apesar de reconhecer que não eram muitas. Decidiu, então, procurar uma dermatologista, que a receitou um remédio.

 

A médica a alertou sobre as possíveis contraindicações do medicamento, que seca as espinhas, mas faz o mesmo com toda a gordura do corpo. "Eu já era magra e ainda emagreci quase dez quilos. Meu cabelo também começou a cair em tufos e a unha ficou mole, ameaçando cair." Mesmo assim, continuou tomando o remédio.

 

A prescrição que, inicialmente, era de seis meses foi seguida à risca durante três. Roxane passou a sentir dores e resolveu fazer uma bateria de exames. Resultado: descobriu que o remédio estava corroendo o seu fígado. Foi a gota d’água. "Desde então, entrei numa onda natureba. Por exemplo, passo banana no rosto, mas não recomendo esse remédio para ninguém", diz.

 

Hoje, é adepta de métodos naturais que descobre por meio de pesquisas na internet, e afirma que tem certeza de que não a causarão nenhum mal. Mas nem por isso deixa de recorrer aos tradicionais produtos de beleza. Quanto gasta, em média, com eles? "Hum, muito mais do que eu deveria", responde Roxane, sem revelar o valor exato.

 

O que gostaria de mudar, no corpo, se pudesse? "Morro de vontade de fazer preenchimento na boca", confessa. Mas o medo de perder a expressão facial ainda faz com que ela repense tal desejo.

 

Rituais de beleza. A também estudante Joana Burd, de 20 anos, é mais uma que engrossa o coro das vaidosas. "Tenho compulsão por cosméticos", admite. Joana conta que segue uma espécie de ritual com relação aos cabelos. "Eu não consigo ficar mais de um mês com o mesmo xampu e condicionador, e os dois não podem ser da mesma marca." Além disso, ela seca as madeixas sempre que as lava, e também faz uso constante da chapinha. "Acho terapêutico", diverte-se.

 

Certa vez, assistindo a um filme, viu uma cena em que a atriz utilizava colheres frias para remover as olheiras. Ela pesquisou na internet e resolveu fazer o mesmo. Em vão. Procurou ajuda médica e passou a tomar vitamina K para solucionar o problema. Também não adiantou. "Só laser mesmo (para tirar olheiras), que é algo que ainda farei", promete.

 

Confessa que a sua grande perdição é uma perfumaria. "Você chega lá para comprar uma só coisa, mas vê um creme, um esmalte... é um problema", brinca. A maquiagem também não fica de fora. "Sou muito perfeccionista, vejo uma mancha no meu rosto e corro para retocar." Conta que, diariamente, perde trinta minutos para se maquiar. Quando tem um evento especial, esse tempo chega a dobrar. "A família da minha mãe não tem muitas rugas. Mas ela me diz que eu estou estragando a genética com tanta maquiagem."

 

Dietas loucas. Paula Bastos, de 27 anos, diz que sempre se sentiu muito complexada por conta do seu corpo. "Sempre fui gordinha, sou bastante alta e tenho a estrutura óssea grande", conta. Quando entrou na faculdade, sentiu-se "um peixe fora d’água, porque as meninas eram todas magras e quase não via gordinhas no campus." Para minimizar o complexo, recorria a tratamentos de beleza.

 

"Mesmo sendo gordinha, sempre fui absurdamente vaidosa e penso em tratamentos de beleza 24 horas por dia", confessa. A busca desesperada pelo corpo perfeito não trouxe resultados tão bons para ela. Começou a fazer uma "dieta doida", que ela mesma inventou. Passou, então, a ingerir, no máximo, 500 calorias diariamente. Por três meses, almoçava apenas uma sopa de legumes.

 

"Na época, para ter apoio, recorri a comunidades do Orkut de emagrecimento e fiz amizade com várias meninas", conta. Os conselhos que recebia eram diversos, desde a prática do vômito até a ingestão de chás diuréticos. Foi então que Paula tomou conhecimento do chá de sene, uma espécie de laxante natural. "Comecei a tomar todos os dias, em quantidades absurdas", recorda-se. Reconhece que poderia ter sido mais comedida. "Fui muito radical na dieta como um todo, mas o chá foi a pior parte."

 

Os efeitos do chá a deixaram de cama por dois dias, pois ela mal conseguia andar. Foi ao médico e levou uma bronca. "Ele quase me matou: disse que tomar esses chás laxantes pode ser perigoso." Além da debilidade física, Paula conta que, na época, chegou a pegar nojo de comida. Mesmo assim, acrescenta: "Por incrível que pareça, esse foi o único regime que surtiu resultado de perda de peso. Depois dele, não consegui mais emagrecer o tanto que emagreci na época."

 

Paula perdeu 14 quilos em três meses. O alto preço que teve de pagar, porém, a deixou mais consciente. "Hoje como moderadamente, e evito fast food e alimentos que mais engordam", conta.

 

Os mitos da balança

De acordo com o nutricionista Ricardo Zanuto, doutor em fisiologia humana pela Universidade de São Paulo (USP), o receituário popular está cercado de mitos. "Todos querem fórmulas milagrosas para emagrecer. O grande problema é que elas não existem", assegura. Cita alguns exemplos:

 

Beber água quente de manhã cedo para emagrecer: não há estudos científicos que comprovem que isso efetivamente funcione. Popularmente, dizem que, como a água é quente, o organismo gastaria mais energia para adequar sua temperatura antes de ser absorvida. Embora não seja comprovado que, de fato, este gasto maior ocorra, a quantidade de energia seria mínima, o que não acarretaria uma perda de peso efetiva.

 

Ingerir uma colher de vinagre de manhã cedo: não tem relação direta com o emagrecimento. Além disso, esta prática pode levar o indivíduo a desenvolver úlceras no estômago.

 

Chá de sene: é muito usado, principalmente, como laxativo, devido às suas propriedades químicas. O ideal seria usá-lo somente de forma emergencial em caso de gripe, pois doses excessivas, por mais de 10 dias contínuos, podem ocasionar cólicas e vômitos. Seus efeitos crônicos podem, ainda, alterar toda a flora intestinal.

 

Não comer carboidrato à noite: mesmo tomando esta medida, o organismo continuará gastando calorias. Na ausência do carboidrato, o fígado utiliza como fonte energética as proteínas do organismo, ocasionando perda de massa magra e desidratação. Na prática, a pessoa até notará perda de peso na balança, porém haverá também perda de músculos e não só de gordura.