Vacina da Merck contra aids falha em teste

- O Estado de S.Paulo

Experiência clínica tida como promissora e realizada em 8 países, entre eles o Brasil, foi suspensa

O teste de uma vacina experimental contra a aids, feito em oito países, entre eles o Brasil, foi suspenso anteontem após resultados preliminares mostrarem que é ineficaz. O laboratório Merck Sharp & Dohme (MS&D), responsável pelo produto, anunciou que não vacinará mais voluntários, porém acompanhará quem participou até agora. O estudo era considerado por especialistas e cientistas o mais avançado e promissor para conter a propagação da doença. Contudo, após 13 meses de experiência, a vacina não reduziu a incidência de infecção nem os níveis virais de pacientes que se tornaram infectados. Segundo a empresa, 24 de 741 voluntários vacinados no mundo foram contaminados pelo HIV. A taxa é similar à do grupo de controle, formado por pessoas que tomaram uma injeção inócua, em que 21 de 762 participantes foram infectados. "É uma notícia muito desapontadora", disse Keith Gottesdiener, diretor do grupo de pesquisa de vacinas e doenças infecciosas da MS&D. O estudo recrutou 3 mil voluntários com idades entre 18 e 45 anos na Austrália, Brasil, Canadá, Estados Unidos, Haiti, Peru, Porto Rico e República Dominicana. No começo, todos os voluntários estavam livres do HIV. Parte pertencia a grupos considerados de risco, como prostitutas e homossexuais homens. Todos receberam aconselhamento sobre métodos de prevenção, inclusive o uso de camisinhas. No Brasil, a pesquisa é conduzida nas Unidades de Pesquisa do Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS, da Secretaria de Saúde de São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (USP) e do Projeto Praça Onze, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Segundo a filial brasileira da Merck, 132 voluntários participam aqui e nenhum foi infectado. Também não foram observados efeitos colaterais neles. O estudo foi bancado em parte pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), principal financiador de pesquisa dos Estados Unidos. Em comunicado, o órgão indicou que seu comitê de segurança, ao revisar os resultados iniciais, descobriu que a vacina não preveniu a infecção nem limitou a severidade da doença "naqueles que se infectaram com o HIV como resultado de seus comportamentos que os expuseram ao vírus". O cientista Michael Zwick, do Instituto Scripps de Pesquisa, também mostrou decepção com o resultado. "Isso é esperado no campo do HIV", afirma. Contudo, ele diz que ainda é cedo para saber se outras vacinas que seguiam a mesma estratégia também falharão. O produto da MS&D usava genes do vírus da aids para estimular o corpo a produzir um tipo crucial de defesa, as células T, que se tornariam programadas para reconhecer e matar as células infectadas pelo HIV rapidamente. Segundo Anthony Fauci, dos NIH, outras vacinas atualmente em desenvolvimento seguem o mesmo modelo, mas com diferenças importante, como a inserção de outros genes além dos aplicados pela MS&D. Elas devem entrar em teste nos próximos anos.