Uso do celular na educação ganha prêmio internacional

Renata Cafardo - O Estado de S.Paulo

Trechos de aula e até provas são transferidas aos alunos pelo telefone

A popularidade do celular o transformou em ferramenta de ensino. Escolas e universidades começam a usar a tecnologia de transferência de dados pelo telefone para permitir que os alunos assistam a aulas, discutam temas com os colegas e até façam provas. A novidade é chamada de mobile learning (aprendizagem móvel), ou apenas Mlearning, e surgiu em nações emergentes, onde o computador não é acessível a todos, porém mais de 80% da população tem aparelho celular.O professor de matemática e ciências de uma escola da província de KwaZulu Natal, no leste da África do Sul, Kumaras Pillay, transformou arquivos para o formato de celular com informações complementares às aulas. "Os arquivos falam de livros, métodos de aprendizagem, como a melhor maneira de estudar as pesquisas de Isaac Newton", disse. O professor também formou grupos entre os estudantes e pediu a eles que fizessem pesquisas e interagissem pelo celular. O interesse nas aulas aumentou.O projeto surgiu no ano passado e recebeu nesta semana o prêmio mundial da mais inovadora iniciativa de um professor, oferecido pela Microsoft em um evento em Helsinque, na Finlândia. Ele concorreu com 50 projetos de 45 países, inscritos no programa Parceiros na Aprendizagem, que incentiva o uso da tecnologia na educação. Os brasileiros ficaram em terceiro lugar (leia o texto acima). O africano criou provas de múltipla escolha que podem ser respondidas e reenviadas ao professor, batizadas de Mtests. Há também bate-papos entre os alunos sobre matemática e ciências, pelo celular. Os aparelhos precisam apenas ter conexão com a internet. Na África, esse serviço não é caro; são cerca de 2 (R$ 5) por semana para baixar arquivos. "No meu país, só 20% da população tem energia elétrica e menos ainda tem computador. No entanto, mais de 80% tem celulares, principalmente os jovens", disse Pillay. A ferramenta está disponível para outras escolas públicas da província e o site com os arquivos de Mlearning teve 70 mil acessos.MBA VIA CELULAR O centro de educação superior Tecnológico de Monterrey, no México, começou neste ano a oferecer a seus alunos informações via celular. Os estudantes podem baixar trechos de aulas em vídeo, textos da bibliografia do curso em áudio e pequenos testes de conhecimento. "Passamos muitas horas no trânsito, esperando em consultórios, e esse tempo pode ser usado para estudar", diz o diretor do Centro para Inovação e Tecnologia da instituição, José Escamilla. Seu projeto também foi apresentado no evento em Helsinque. Segundo ele, o Mlearning começou a ser testado em um curso a distância de MBA da instituição e deve se expandir para todos os alunos não presenciais em agosto. Os arquivos podem ser baixados em celulares comuns. A tecnologia usada é a 3G, ainda incipiente no Brasil e que permite uma transmissão dez vezes mais rápida e pela metade do preço. O professor do departamento de computação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Eduardo Morgado, que participou do evento, explica que a transferência de dados ainda é demorada e cara para a maioria de usuários de celular no Brasil. "Mas o Mlearning tem tudo para fazer parte do futuro da educação no País também", acredita. Para ele, a popularização da ferramenta deve ser mais rápida que a da internet de banda larga.O Brasil tem 113 milhões de celulares, o equivalente a três aparelhos para cada cinco habitantes. Uma lei sancionada no mês passado proíbe que estudantes usem telefones nas salas de aula no Estado de São Paulo.