Unanimidade fashion

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

Inicialmente de uso exclusivo em velórios e festas de gala, graças a Chanel, a cor preta também ganhou a moda

De acordo com manuais de receitas prontas, os tons escuros carregam uma série de significados: dor, luto, introspecção, austeridade, rebeldia, mistério, inserção em grupos, timidez. Segundo o livro Dictionnaire Des Symboles, o tom negro mostra que o homem entra em contato com seu próprio universo instintivo primitivo, o qual é preciso ser domesticado e cujas forças devem ser canalizadas para objetivos mais elevados.Para o cenógrafo Cyro Del Nero, no teatro, as cores escuras ressaltam a seriedade das personagens. "Emprestam à persona a dignidade sugerida pelas palavras do autor." Segue por esta mesma trilha o psicanalista Jorge Forbes, que costuma usar o preto em suas palestras para colocar a força da palavra e do gesto em primeiro plano. "O preto é uma forma de privilegiar o que está sendo dito e diminuir os os outros códigos", pondera. Esta cor reina absoluta, e não é de hoje. No livro O Brasil no Tempo de D. Pedro II, o autor Frédéric Mauro observa que os europeus que vinham para cá eram desencorajados pelos lojistas parisienses a comprar trajes claros de linho, porque o costume em terras brasilis era seguir à risca a moda da corte, ou seja, usar o preto fechado. Na literatura, Horace Walpole, aristocrata e romancista inglês do século 18, inaugurou um novo gênero literário de ficção, o chamado romance gótico. A ele se seguiriam Clara Reeves, Anne Radcliffe,Walter Scott, Baudelaire, Byron, Edgar Allan Poe e Mary Shelley, autora de Frankenstein. Na música, a cor das trevas encontra um campo fértil no rock. Durante a virada dos anos 70 para os 80, as ilhas britânicas revelaram ao mundo bandas como Siouxsie And The Banshees, The Cure, Bauhaus e The Sisters Of Mercy, grupos influenciados pela explosão do movimento punk dos Sex Pistols. Na moda Pelo Studio Berçot, em Paris, passaram nomes consagrados da moda brasileira, como Reinaldo Lourenço, Glória Coelho, Lorenzo Merlino e outros. Sua diretora, Marie Rucki, vem sempre ao Brasil para concorridos workshops, como o último, em março, no Shopping Iguatemi. Invariavelmente vestida de preto, Marie respondeu a algumas perguntas do Feminino. Segundo Rucki, o negro é eterno porque corresponde a uma certa simplificação. "Com o negro, todo mundo está sempre correto, é prático." Por que sempre usa preto? "É preciso tempo para pensar nas cores, eu não o tenho; e, além disso, o negro, sendo uma não-cor, permite uma atitude mais livre diante de uma atividade criativa."De cinza, Londres só tem o céu. Para a estilista Glória Coelho, as roupas e os chapéus coloridos da Rainha Elizabeth fazem com que os ingleses prefiram a cor aos tons sombrios. "Todos os povos acabam se inspirando na Corte." Praticamente sempre vestida de preto, ela lembra que, quando se trabalha há muito tempo com moda, o uso de tons escuros cria um efeito neutro no ambiente carregado de cor. "Além do que, numa cidade como São Paulo, estamos expostos à poluição e, com o preto, não nos sujamos, a cor emagrece o visual, e estamos sempre prontos para qualquer compromisso." Na esfera do comportamento, segundo Glória, os que vestem preto são pessoas que denotam uma maior sensibilidade e liberdade de expressão. Cita como exemplo a artista plástica Tomie Ohtake, que, sempre de preto, não ofusca o colorido de suas telas.Falando em cores, a estilista comenta momentos especiais de suas coleções. "No inverno do ano retrasado, usei preto total. Estava de luto pela morte do meu pai e, coincidentemente, as tendências internacionais apontavam para a ausência de cor. Já na coleção do verão 2000, foi o oposto. Fiz uma homenagem ao pintor húngaro Victor Vasarely. Teve todas as cores, como o verde e rosa choque, menos o preto. No inverno deste ano, usei pretos, bordôs, verde floresta e cinzas metálicos, reflexo do momento austero em que vivemos."Elegância certaNa dúvida sobre o que vestir? Vá de preto que não tem erro, como diz Deise Sabbag, editora do site Todamodanews. Ela lembra uma alfinetada do costureiro Dener, sobre a ex-primeira-dama Maria Tereza Goulart: "o que ela fez foi um crime. Poderia ter usado um tailleur preto, grafite ou marrom. Mas ser exilada de turquesa..." Segundo Deise, a cor minimiza as chances de erro - "é igual a café, vai sempre bem, em qualquer tempo e ocasião" - e dá a sensação de acerto. "Adoro (o preto) e não interfere no meu astral. Nada mais fashion, chique, sedutor, dramático, misterioso."É uma questão de gosto - e gosto não se discute. "Ignore definições de que a tonalidade deprime, enquanto outros avaliam que ela comprime, ou seja, disfarça melhor a gordurinha nossa de cada dia. Você não vai derramar lágrimas nem vai afinar sua silhueta porque está de preto. O que vale é se assumir, se gostar, fazer o que bem entende." Eliana Penna Mortari, da grife Lita Mortari, brinca quando diz que o preto é a cor da preguiçosa. "É uma cor que salta do armário porque facilita a combinação", afirma. Comenta que, lá fora, o clima pede o uso de cores vivas. "A Itália, por exemplo, é o país da estampa. Porém, acertar na coordenação de tons fortes exige tempo e habilidade, ao contrário do preto e da gama de beges, cáquis e branco." SimbologiasCom exceção da chiquérrima e macabra personagem Mortícia Adams, alguém concebe uma noiva de preto? A cor branca impôs-se no casamento burguês depois de 1880, carregando simbolismos ligados à pureza e inocência, o que se desejava para a noiva. O mesmo vale para outro rito católico, a primeira comunhão. Porém, os significados mudam de acordo com a cultura de cada país, como observa Cyro del Nero, cenógrafo e professor titular do Departamento de Artes Cênicas da Universidade de São Paulo (USP).- A cor é uma questão de geografia. Aqui o branco é pureza, virgindade, matrimônio e santidade. No Japão, a figura toda branca do teatro Nô é a morte. A flor da morte, para nós, é a flor branca. Na Arábia, são as cores douradas. E o dourado tem decorado a morte também no Ocidente. Daí a expressão "pompes fúnebres", sempre se referindo ao casamento do dourado com o preto.Na moda, quem tornou célebre o vestidinho preto foi Coco Chanel, que deixou para sempre um conceito, um axioma brilhante: "uma mulher só precisa de duas coisas: um vestido preto e um homem que a ame."Segundo Cyro, a roupa preta nunca sai de cena, no vaivém das coleções de moda. "O preto veste como um escultor que adoça as linhas do corpo que esculpe. Desaparecem os acidentes dos perfis e o todo flui sem acidentes. O preto realmente cobre o copo e dá uma elegância que não existiria sem ele."RockQuando lhe perguntam por que veste preto, a cantora Pitty, de 30 anos, pede atenção à letra da Música Man in Black, do cantor e compositor country, Johnny Cash, para tentar explicar um pouco o seu estilo. "I wear the black for the poor and the beaten down / Livin'in the hopeless, hungry side of town / I wear it for the prisoner who has long paid for his crime / But is there because he's a victim of the times" (eu me visto de preto pelos pobres e oprimidos / que vivem no lado faminto e sem esperanças da cidade / eu me visto assim pelo prisioneiro que há muito pagou por seu crime / mas está ali pois é uma vítima dos tempos). Ok, a bela roqueira baiana, que ouviu muito Beatles, Elvis e chegou aos decibéis do Faith No More, Nirvana e Metallica, até pode usar preto pelos pobres e oprimidos, mas que tem um talento inato para a moda, isso ela tem. Performática, na foto da capa, lembra um personagem de mangá (histórias em quadrinhos japoneses) e dos fruits (moda das adolescentes japonesas, que se vestem como bonecas, fazendo sobreposições de peças). Coordena as peças de um jeito bem pessoal, e tira proveito dos olhos verdes com make up preto. Tudo escolhido a dedo, em lojas e brechós, pela própria, que dispensa personal stylist. "Se a gente mesma não consegue se vestir, como é que fica? Criatividade a gente usa em tudo na vida." Conta que sempre vestiu preto por gostar e se sentir bem. Maquiagem e unhas pintadas de esmalte bem escuro ajudam a compor um "visual noir, dramático, meio anos 40", o qual lhe agrada bastante. Gosta da estética dark da revista em quadrinhos Sandman, cujo personagem, pálido e sempre de preto, dizem, teria sido inspirado em Robert Smith, vocalista do The Cure."Os significados da cor são muitos, apenas para citar um, os judeus ortodoxos se vestem igualmente de preto porque devem se destacar por suas ações, e não pela aparência", comenta.Seria engraçado ver uma banda de heavy metal vestida de branco, como o afoxé Filhos de Gandhi. Com certeza, hits como Funeral Rites, da banda Sepultura, perderiam a força dramática que a melodia exige. Por que metaleiro usa preto? "Tem a ver com o lado negro da força! O preto tem uma postura mais séria, mais pesada, mas a gente se diverte muito em cima do palco, mesmo usando muito preto", responde o guitarrista da banda, Andreas Kisser. Segundo ele, a cor é também sinônimo de estar bem vestido, sem frescura.Andreas não se desfaz por nada de camisas que ganhou de ídolos como Ozzy Osbourne, Rush, Mettalica. "Só tiro o preto para usar as camisas do meu time, o São Paulo."Escolha pessoalDurante um período de sua vida, a cantora Maysa só vestiu preto, o que reforçava ainda mais a aura dark de musa da música de fossa. Mas nem sempre a escolha do guarda-roupa é pautada por turbulências pessoais, como coloca a cantora Marina de La Riva, cujo guarda-roupa é composto por 90% de peças escuras.- Acredito, sim, que nossas escolhas refletem o que sentimos ou racionalizamos. Mas também entendo que a cor indica, mas não define. Uma garota usando rosa bebê pode ser rebelde ou tímida. E uma pessoa de preto pode muito bem ser segura e extrovertida. Falando de mim, com certeza, se eu estiver introspectiva não vou colocar amarelo... O máximo, se não estiver de preto, será um azul escuro ou cinza chumbo.Indagada sobre uma possível admiração por personagens de alma dark, cita o próprio avô, Fernando de La Riva, líder dos exilados cubanos em 1964. "Um escorpiano dark."