Uma paixão chamada orquídea

Cristiana Vieira - O Estado de S.Paulo

A planta exige muito cuidado e dedicação. Mas isso, muitas vezes, acaba virando um vício prazeroso

É praticamente impossível resistir ao perfume e à beleza de uma orquídea. Ainda mais tratando-se de uma planta com tanta variedade. Estima-se que haja cerca de 35 mil espécies de orquídeas espalhadas pelo mundo. "É a maior família de plantas com flores do planeta", afirma o professor titular do departamento de Botânica do Instituto de Biociência da Universidade de São Paulo (USP), Gilberto Barbante Kerbauy.

Seja grande, pequena, colorida, branquinha, há sempre uma espécie para encher os olhos de admiradores. Não é à toa que há quem colecione milhares delas. Outra vantagem, além da variedade, é que os preços são democráticos: o mínimo que se paga é, em média, R$ 25,00. "Se você cultivar direitinho, é uma planta eterna", diz a orquidófila (como são chamados os apaixonados pela planta) e ex-presidente da Associação Orquidófila de São Paulo, Lúcia Morimoto. "Tem colecionador que cultiva uma planta que ganhou do avô, e ele próprio já é idoso", conta, lembrando das raríssimas espécies que vivem por apenas duas horas.

Lúcia, aliás, viveu um ano no Japão. Foi com o intuito de estudar e aprender a fazer o que se conhece por "clonagem de plantas" (uma técnica de multiplicação). Quando voltou de viagem, em 1996, se associou à entidade e lá começou a conviver com pessoas que nutrem a mesma paixão.

Já a dona de casa Cecília de Oliveira Morimoto (que, apesar do sobrenome, garante não ter nenhum grau de parentesco com Lúcia), calcula que haja cerca de 1.500 plantas em sua coleção, iniciada há dois anos. Uma parte fica em seu sítio no interior de São Paulo, onde construiu um orquidário, e a outra, em sua casa. A maior loucura que já fez em nome desse hobby foi pagar R$ 3 mil por uma planta que amou à primeira vista, a cattleya valquiriana, que tem um nome popular bem apropriado: feiticeira. "Nem conto para ninguém. Gostei, comprei, parcelei e pronto."

Diz que aprendeu a gostar dessas plantas depois que começou a fazer companhia para o sogro (hoje com 94 anos), quando ele ficou viúvo, há cerca de 10. Todo fim de semana ela vai com a família para o sítio, mas nem quer saber de piscina e caminhadas. Sua diversão é cuidar das cerca de mil plantas que cultiva lá. "E telefono diariamente para o caseiro para saber como elas estão", conta.

PARA COMEÇAR

Como toda paixão, a orquídea requer cuidados especiais. Quem fizer o básico, mas com dedicação, poderá cultivá-la por muitos e muitos anos. Quando comprar um exemplar (seja em uma floricultura, orquidário ou durante um evento), pergunte o nome científico da planta para buscar informações. "Se não souber isso e ela ficar doente depois, ninguém vai saber ajudá-la nem dar informações precisas", alerta Lúcia, que também sugere nunca tirar a etiqueta. As mais comuns são as híbridas, que já foram cruzadas e passaram por alguma mutação para facilitar o cultivo.

Outra dica: na hora da compra, o consumidor não deve se impressionar com a beleza das flores, mas sim ficar atento à saúde das folhas, observando se os brotos estão sadios e se as folhas estão brilhosas. Quando tem apenas quatro ou cinco flores, é de terceira linha. O ideal é optar por aquelas que têm mais de 15 flores - duas hastes com bastante flores ou apenas uma haste com muitas. "Paga-se mais, mas vale a pena", completa o professor titular do departamento de Botânica da USP, Gilberto Barbante Kerbauy.

Para plantar, nada de terra nem areia. As orquídeas são "calçadas" em musgo, casca de pino ou fibra de coco. "A questão fundamental é não manter encharcada", ensina o professor Kerbauy.

Outro detalhe vital: seja qual for a espécie, orquídeas são plantas muito delicadas e só se adaptam a um lugar que ficou determinado como seu hábitat. Sendo assim, nada de ficar trocando a planta de lugar dentro de casa. Se ela chegou e ficou perto de uma janela, é ali que deve permanecer. "Às vezes trocam tanto de lugar, porque está sol ou pela falta dele, que a planta não consegue se adaptar", explica Lúcia. "Ela só precisa de um ambiente que reconheça como seu", resume.

Molhar as folhas é um detalhe importante, que serve para qualquer planta. "A folha é como as pessoas. Se não tomar banho, fica doente", exemplifica. "Só evite molhar a flor, pois se uma bactéria que gosta de água pousar ali, pode se desenvolver", completa. Embora goste de muita água na raiz, a orquídea não suporta ficar encharcada. "Acaba apodrecendo", destaca.

Quanto ao adubo, recomenda-se utilizar os dissolvidos em água apenas uma vez por ano, quando surgem os brotinhos ou folhas novas. Este é o sinal de que a planta vai precisar de bastante nutriente.

Em um quintal, o melhor lugar para acomodá-la é em cima de uma árvore. "De preferência, a que tenha uma copa com entrada de luz. Elas vão agradecer", garante o professor Kerbauy.

CASA OU APARTAMENTO

Se for cultivá-la em apartamento, prefira a espécie phalaenopsis, popularmente conhecida como orquídea borboleta. O detalhe é que não tem variação de cor - há apenas brancas. Seja em apartamento ou casa sem quintal, ela precisa de 50% ou 60% de luz natural e ventilação, para que o ar seja renovado. Deve-se tomar cuidado para a planta não secar e a flor não murchar. "Não são samambaias e não gostam de pés úmidos, nem de raízes encharcadas.".

Funcionária pública aposentada, Eunice Pimentel de Moraes cultiva orquídeas como hobby e garante que cuidar dessas plantas é como cuidar dos filhos, "tem de estar sempre por perto." "Graças a elas fazemos novos amigos, trocamos informações e até plantas", diz. Eunice morava em apartamento e acabou se mudando para uma casa para poder abrigar melhor seu cachorro e suas orquídeas. "Em dois meses já senti diferença. Elas estão mais vistosas."

O fato é que, apesar de todos os cuidados, só florescem uma vez por ano. Sempre no mesmo período. Então, quando as flores caírem, continue cuidando da planta, pois no próximo ano, na mesma época, suas flores vão desabrochar novamente.

Nas regiões temperadas como Europa, América do Norte e Ásia, há espécies exclusivamente terrestres. Já nas regiões tropicais e subtropicais, normalmente úmidas, predominam as que vivem sobre as árvores, conhecidas por epífitas. Em suas observações, o professor Kerbauy reparou que as cattleya aclandiae, laelia tenebrosa e cattleya velutina estão se tornando raras.

"A azulada é a ocorrência mais rara na natureza. E por isso são as mais caras", explica Lúcia - pois o azul não é uma cor dominante e, por isso, perde sua pigmentação quando misturado a outra cor.

No Brasil ouviu-se falar das orquídeas há poucos anos, mas, segundo Lúcia, na Ásia existem manuscritos sobre elas há 5 mil anos.

Que fascinam e seduzem pela beleza não há dúvidas. A dona de casa Cecília de Oliveira Morimoto tem uma boa teoria para tanta paixão: "quem cultiva orquídea não tem tristeza." Alguém duvida?

SERVIÇO

linkAssociação Orquidófila de São Paulo: www.aosp.com.br

linkOrquidário da Mata: www.orquidariodamata.com.br

linkOrquidário Morumby: www.orquidariomorumby.com.br

linkOrquidário Paulista: www.orquidariopaulista.com.br