Uma nova arma na luta contra o câncer

Fernando Reinach* - O Estado de S.Paulo

Em 1877 Tolstoi escreveu que famílias infelizes são infelizes de diferentes maneiras, mas que famílias felizes são felizes de maneira parecida. Isso vale para as células de nosso corpo. Enquanto células normais se comportam de maneira semelhante, existem centenas de maneiras de uma célula se tornar cancerosa. Por isso, o câncer é uma coleção de doenças, cada uma causada por uma dessas maneiras. Apesar da diversidade de causas, células capazes de formar tumores malignos compartilham seis características. A novidade é que descobertas sugerem uma sétima. Essas características são: 1) desrespeito aos sinais que inibem sua proliferação. Por não respeitarem essas mensagens, elas escapam do controle "social" exercido pelas outras células; 2) autossuficiência na produção de moléculas que estimulam sua proliferação. Elas não param de se dividir quando deixam de receber estímulos de outras células; 3) imortalidade. Células tumorais são capazes de se dividir um número infinito de vezes. Células normais, após certo número de divisões, perdem a capacidade de proliferar; 4) incapacidade de se suicidar. Células normais são capazes de se imolar quando estressadas; 5) capacidade de migrar. Elas deixam seu lugar de origem, formando novas colônias em outros órgãos: as malditas metástases. A maioria das células normais restringe sua perambulação ao tecido de origem; 6) capacidade de cooptar vasos sanguíneos para novas metástases. Sem a alimentação trazida pelos vasos sanguíneos, metástases não crescem. A sétima foi descoberta quanto um grupo de cientistas cultivou células de diversos tipos de tumores malignos em tubos de ensaio. Após crescerem, as células foram retiradas do meio de cultura. O meio "condicionado" pelas células foi analisado para verificar se continha hormônios ou outras moléculas capazes de causar inflamação. Foi descoberto que, ao contrário das normais, células cancerosas produzem e secretam substâncias capazes de induzir o processo inflamatório. A inflamação é uma resposta complexa do corpo, mas que todos observamos quanto entra uma farpa em nosso dedo. O local fica quente, vermelho e inchado. Os resultados obtidos nesses experimentos sugerem que células cancerosas têm a capacidade de provocar uma resposta inflamatória no local em que se instalam as novas metástases, e parece que essa resposta inflamatória é necessária para a formação delas. A descoberta talvez abra uma nova frente de combate. Se as metástases dependem do processo inflamatório, talvez seja possível retardar sua formação bloqueando a inflamação. *Biólogo - fernando@reinach.com Mais informações: Carcinoma-produced factors activate myeloid cells through TLR2 to stimulate metastasis. Nature,vol. 457