Uma especialidade feminina

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

Um milhão e meio de brasileiras, munidas de catálogos e empenhadas na comercialização de tudo quanto é tipo de produto, é responsável pelo crescimento do setor de vendas diretas. Nos últimos três anos, o volume desse tipo de negócio aumentou 60%. Em 2006, a dinheirama que circulou no mercado foi de R$ 14,5 bilhões, 18 % acima do volume do ano anterior. Essas mulheres venderam 1,2 bilhão de unidades, entre artigos de beleza e higiene pessoal, roupas, utensílios domésticos, suplementos nutricionais, etc.Os dados fazem parte da pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD) em parceria com a WFDSA (sigla em inglês para a Federação Mundial das Associações de Vendas Diretas), com o apoio da empresa Ernst & Young. O resultado do estudo foi apresentado no encontro mundial do setor, realizado pela primeira vez no País, em fevereiro deste ano. ?Do total de 1,6 milhão de revendedores, 94% são mulheres?, ressalta Rodolfo Guttilla, presidente da ABEVD. ?Muitas são atraídas pelas facilidades oferecidas nesse tipo de negócio, como flexibilidade de horários. Além disso, não há restrições para o ingresso no setor, como nível de formação.?Creuza Campelo, de 57 anos, mãe de três filhos já moços, esposa e dona de casa, deixou de ser apenas consumidora e aceitou o convite de uma amiga para ser consultora da Avon. Organizada e obstinada, seus ganhos ultrapassaram os do marido. Hoje, oito anos depois, ela conta com orgulho que conseguiu comprar duas casas em Poá, município de São Paulo onde mora, e mais uma casa no litoral norte do estado.O patrimônio foi alcançado também graças aos prêmios que recebeu, pelo programa de incentivo da Avon: três motos e três carros. Os muitos eletrodomésticos que ganhou, como geladeira e fogão, lhe serviram para equipar as casas. Ainda na ativa, Creuza ajuda a filha caçula, que segue os mesmos passos da mãe. Juntas, administram um negócio que não é mais informal, mas sim uma pequena empresa:- No começo foi difícil, não sabia direito como lidar com a parte financeira, então fiz o curso do Sebrae e não parei mais. O importante é se aperfeiçoar. Aprendi a investir no estoque: assim, quem compra na minha mão leva o produto na mesma hora, não precisa esperar a encomenda chegar. Mantenho uma equipe de 200 revendedoras. Costumo incentivar as mulheres a não dependerem economicamente de seus maridos, pois foi o que me motivou no passado.PROFISSÃO URBANAO estudo da ABEVD aponta o perfil das revendedoras brasileiras: 42% têm idades entre 18 e 34 anos e 41%, entre 35 e 49 anos; 65% são casadas; 81% vivem em áreas urbanas e 45% não concluíram o ensino médio, enquanto 46% têm esse grau de instrução e 9% são diplomadas. A remuneração média anual é de R$ 2.113.Apesar de ser enquadrada no perfil minoritário, Aparecida Cláudia de Brito, de 27 anos, é formada em Design de Interiores, mas guardou o diploma na gaveta para investir na revenda de roupas, bijuterias e utilidades domésticas da marca Hermes. Aliás, ela pagou toda a faculdade com a renda desse trabalho. Durante um estágio numa construtora, percebeu que a remuneração como designer não seria tão convidativa quanto a que conseguiria obter com a venda direta. A labuta diária, porém, não é nada fácil. Ela bate perna para conseguir tirar o necessário para se manter, ajudar nas despesas da casa - onde mora com os pais - e ainda se preparar para o casamento. Além das visitas que costuma fazer à casa de clientes já conhecidos, encara o antigo esquema porta a porta: com a identificação da empresa, apresenta-se em novas residências para oferecer produtos. Claro que leva muitos ?nãos? na cara, mas não se abala. Há dias em que Aparecida ainda encara a panfletagem em pontos cruciais, ou seja, onde há concentração de mulheres: feiras, salões de beleza, porta de escolas. ?Tem que ter jeitinho, ser educada, estar bem vestida para abordar as pessoas, e não se pode intimidar com as recusas. O importante é oferecer a comodidade da compra sem sair de casa e atender com muita atenção para que o cliente se torne fiel, indicando meu serviço para outras pessoas.? Há quem abdique da carteira assinada para trabalhar com venda direta. Rosana Caxito, de 37 anos, era auxiliar de escritório e engordava o salário vendendo Natura para os colegas de sua empresa. Acabou pedindo as contas para se dedicar integralmente à segunda atividade. Aos poucos, foi ampliando a rede de clientes. Criou táticas para se diferenciar de outras consultoras. Por exemplo: entrega os produtos com maior rapidez porque aproveita as promoções para comprar as mercadorias por preços mais baixos, aumentando o estoque e a margem de lucro.?Não tinha carro, pegava ônibus com sacolas pesadas, dependia de carona para buscar mercadoria?, lembra Rosana, que há dez anos mantém a revenda da Natura. ?Hoje tenho uma vida estável, e o meu rendimento mensal me possibilitou comprar um apartamento e um carro. Prezo a flexibilidade de horários. À noite, ainda vou para a academia.? Sem revelar valores, ela garante que ganha hoje três vezes mais do que a remuneração no escritório. Mantém uma equipe de 30 revendedoras e pretende aumentar o número. Em datas comemorativas, consegue triplicar seus ganhos. De acordo com Guttilla, presidente da ABEVD, o Brasil passou a despontar no mercado mundial de venda direta a partir dos anos 90. Hoje, o País ocupa a quinta posição nesse ranking, atrás de países como Alemanha (quarto lugar), Coréia (terceiro), Japão (segundo) e Estados Unidos (primeiro).Dagmar Brum, vice-presidente de vendas da Avon, diz que, ao longo de 120 anos de existência, a marca sempre priorizou a força da relação entre revendedora e cliente. Por isso que as vendas pela internet não estão nos planos da multinacional. O computador é usado só mesmo para organizar e agilizar os pedidos, feitos sempre tête-à-tête. Afinal, hoje há mais de 30 milhões de clientes da Avon só no Brasil. A boa receptividade do brasileiro é um dos fatores que podem explicar a popularização desse tipo de serviço, segundo observa Alexandre Coelho, gerente de mercado da Natura na região metropolitana de São Paulo. ?O aumento anual do número de revendedoras também está associado ao crescimento do mercado informal e à diminuição dos empregos com registro em carteira?, acrescenta. ?Há muitos recém-formados que não conseguem vaga no mercado de trabalho e se transformam em empreendedores.?A Natura oferece assessoria jurídica para incentivar seus revendedores a ingressar no INSS. A marca nasceu no Brasil, e mantém 561 mil consultoras no País e 56 mil na América Latina (Argentina, Peru, Chile, México e Venezuela). Desde o ano passado, esse conceito chegou à França e o empreendimento já conseguiu arregimentar revendedores europeus. SEX SHOP DELIVERYO mercado tem sido tão sedutor que a consultora do mercado erótico, Paula Aguiar, de 39 anos, criou uma empresa de venda direta de produtos picantes, a Tantric, ideal para aquelas mulheres que não têm coragem de pisar num sex shop. Logo de cara, conseguiu 110 candidatas ao trabalho de revenda, que passaram por treino específico. Elas são orientadas a não usar palavras chulas, a dar explicações sobre os produtos de forma sutil e a perguntar à cliente sobre os limites do companheiro, para evitar brigas de casal. Paula reformulou o seu catálogo para agradar a gregos e troianos, ou seja, às mais pudicas e às mais ousadas. ?A pedidos, acrescentei acessórios ?hot?, além de lingeries apimentadas e fantasias. Mas estão impressos em folhas avulsas para não causarem constrangimento a ninguém?, avisa a empresária. ?A consultora acrescenta ou tira as folhas conforme o perfil da cliente. A discrição é tanta que há até vendedoras evangélicas.? Segundo Paula, as consumidoras são, basicamente, das classes C e D. ?As mulheres das classes A e B vão ao sex shop. ?No mundo da venda direta, há até histórias de gente que enriqueceu - e faz questão de mostrar. Carlota Batista, de 50 anos, e seu marido José dos Santos Batista, de 55, fizeram uma homenagem e tanto à Herbalife, empresa de suplementos alimentares e dietas: o logotipo da marca está estampado no chão, em mosaico com pedras portuguesas, ao lado da piscina da mansão onde moram. Os dois fazem parte de um grupo seleto da empresa, de 40 casais brasileiros que chegaram ao topo, ou seja, lucram muito bem com esse negócio. Há 11 anos, a situação financeira da família de Carlota era bem diferente. O marido, engenheiro, havia sido demitido da empresa onde trabalhava. Ela mantinha quatro lojas de roupas infantis a muito custo. Estava com aluguel e a mensalidade da escola dos dois filhos atrasados. ?Pedia a Deus alguma oportunidade para conseguir pagar as contas.? Hoje, ela e o marido administram mais de mil distribuidores (ou revendedores) da Herbalife, entre homens e mulheres espalhados por vários lugares do Brasil. Os filhos, de 25 anos e 27 anos, também já entraram de cabeça nessa atividade.