Uma cidade que aprendeu a cultuar as letras

- O Estado de S.Paulo

Um dos melhores exemplos nacionais fez mutirão para melhorar a qualidade nas escolas

O recreio matinal na Escola Municipal Professora Terezinha de Lourdes Galvão tem um sabor especial para a diretora. É a hora de receber abraços dos estudantes. Carinhosos e espontâneos, dizem muito de uma das melhores escolas não só do semi-árido como de todo o País. Ana Maria de Azevedo Silva, a "tia Ana", e quatro auxiliares agem como vigia, pajem e monitora da criançada, enquanto os professores podem descansar e comer. "Queremos transmitir que estamos aqui para protegê-los. Qual é a criança que não abraça o pai protetor?" Funciona assim a escola chamada por cada um dos que trabalham nela como família Lourdiana. Em 2001, a família Lourdiana e as outras escolas de Acari, no Rio Grande do Norte, viam seus alunos com dificuldades crônicas de leitura e escrita. Ninguém sabia ao certo o que fazer. A saída foi pedir ajuda ao Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Associação Comunitária. Durante um ano, professores e diretores se envolveram numa terapia educacional, conhecendo novas práticas de estímulo à leitura. "Com uma pedagogia prazerosa, as escolas entraram numa euforia de leitura e escrita", lembra a secretária de Educação, Marluce Medeiros. O gosto pela leitura ganhou forma e conteúdo com o Baú da Leitura, a Noite de Autógrafos (um livro de brincadeira feito pelos alunos), o prêmio para melhor resenha literária. As idéias simples de cultuar o livro contagiaram. Pais se entusiasmaram quando seus filhos passaram a ler com mais desenvoltura. Eles próprios quiseram ingressar nesse universo. E assim, como uma bola de neve, a educação foi se agigantando. Se tudo der certo, o município vai ter educação para lá de Primeiro Mundo em 2022. É ainda mais curioso que a cidade tenha se saído tão bem no Ideb quando se descobre que os professores municipais ganham mal: R$ 494 por 40 horas semanais. No Estado, o salário é de R$ 650 por 30 horas semanais. Município encravado no Seridó, Acari faz malabarismos contábeis para dar merenda com arroz, feijão, macarrão, sopa, cuscuz e cachorro-quente, que ninguém é de ferro. Oferece uniforme e transporte, sem ter ônibus próprio. Na família Lourdiana, reforço escolar está a cargo de Vera Lúcia de Azevedo. Paciente, ela pega alunos como Samuel Tavares, de 7 anos, do 2º ano, que confunde ?ce-go-nha? com ?sem-ver-go-nha?, e os motiva a estudarem. Em Acari, escolas estaduais e municipais jogam juntas. E ambas cobram a participação da sociedade. Na Escola Estadual José Gonçalves de Medeiros, os alunos têm atividades curriculares no Museu Histórico de Acari, cuja diretora, Francinete Ferreira de Azevedo, é professora de história. Antigos presídio e Casa da Câmara, o museu tem ambientes temáticos do semi-árido. Ali se tem aula até de matemática e física. ALUNOS FISCAIS "A nossa filosofia é exigir, e não só dar nota. Cobramos que o professor ensine bem e tenha um aluno que corresponda", explica a vice-diretora Maria do Socorro da Silva. Para resolver o problema do distanciamento família-escola, a José Gonçalves de Medeiros iniciou uma série de atividades culturais que envolvem pais e filhos. E, na época da entrega dos boletins, se o pai não comparece, a escola vai até ele. Aos sábados. O diretor José Cavalcanti Filho gosta de dar exemplo. Entra de manhã e todos vão encontrá-lo nos turnos seguintes. Apesar de receber dinheiro para a merenda, o ensino fundamental distribui a comida também para o médio. "Todo mundo não tem fome?" A escola criou a figura do líder da classe. Se um colega faltar cinco dias, o "bedel" avisa e os pais são procurados. Na família Lourdiana, essa missão é do presidente do conselho da escola, Ailton de Oliveira, voluntário e professor. Acari, como outras escolas do Nordeste, acelerou a formação de professores por meio de cursos de fim de semana promovidos pela Universidade Vale do Acaraú. Nas escolas, faltam computadores conectados à internet. Quem precisa recorre a lan houses. O mimeógrafo está velho, mas ainda é útil. As paredes descascadas ou os tetos mofados dos prédios escolares precisam de pinturas. Educação física é improvisada no terreno das unidades ou no clube municipal. Laboratório de ciências é coisa que só se vê na TV. Adversidades que passam despercebidas diante da qualidade da educação. Certa vez, deram-lhe o título de cidade mais limpa do Brasil. Hoje, não seria um erro se rebatizassem Acari de a cidade das letras.