Uma cidade cheia de emoções

Mariana Abreu Sodré - O Estado de S.Paulo

Personalidades que vivem em São Paulo citam o melhor e o pior da capital, que completa 454 anos no dia 25

"Adoro todos os serviços 24 horas que a cidade oferece, tipo café, restaurante, supermercado e tudo mais. Odeio as mudanças bruscas de tempo. Aquela coisa de sair toda encapotada com roupas de frio e depois fazer um calor absurdo, ou sair em um look de verão e logo depois cair a temperatura..."Laura Vieira, dona da Agência Ten Models, que cuida da carreira de Raquel Zimmerman no Brasil"Gosto de São Paulo porque posso morar no Brasil, que adoro, tendo acesso a coisas bacanas do mundo todo. Janto no japonês, lendo uma revista francesa, ouvindo música inglesa e, de quebra, tomo um sorvete americano. Tudo comprado a menos de 500 metros de casa. Mas, exatamente por esses motivos, fico completamente entupida de informação quando estou em São Paulo e preciso sair da cidade para conseguir descansar."Maria Prata, editora de moda da Vogue Brasil "O que mais gosto na cidade de São Paulo é minha esposa, Mariana: foi por causa dela que eu vim parar aqui. Gosto também do clima da Vila Madalena e do fato de São Paulo fazer ponte direta com o resto do mundo. E o que menos gosto: a chuva. No geral, ela é gostosa e pode até ser bonita, mas em São Paulo não, a chuva no concreto entristece a cidade." Seu Jorge, cantor e compositor"Gosto da miscigenação, ou seja, as raças que convivem de forma pacífica.Odeio a poluição visual."Houssein Jarouche, designer e empresário, dono da loja Mi Casa"Adoro os motoboys que resolvem tudo e são a cara da cidade. E odeio paulista folgado...( é que sou carioca )" Pinky Wainer, artista plástica"Gosto da enorme mobilização das pessoas pelo trabalho. Da capacidade que a cidade tem de gerar, produzir. Da seriedade e da competência. Da grande quantidade de lugares e eventos artísticos e culturais (cultura também é qualidade de vida), do acesso à informação, da oferta de produtos. Da variedade de restaurantes. Do Jardim Botânico. Das árvores que florescem timidamente, num ato de resistência, no meio das avenidas, do cimento e da poluição. Não gosto da falta de uma política permanente que preserve a história de São Paulo. Da quantidade de casas que são derrubadas. Da pouca quantidade de árvores que ainda são maltratadas. Da poluição. Do excesso de carros e da falta de opções de transportes. Da falta de segurança no trânsito e nas ruas. Da falta de parques e praças. Da falta de lugares públicos para as crianças." Lígia Cortez, atriz "Adoro a coragem e a força produtiva que move os paulistanos. Esta ação enérgica é construtiva e ninguém fica alheio a ela. Não gosto da hipnose-coletiva-social. Da violência contra a qualidade de vida de todos. Isto abrange todos os tipos de violência e todos os cidadãos, dificultando ou, muitas vezes, anulando o desenvolvimento das nossas potencialidades." Marina de La Riva, cantora"Do que mais gosto é da minha casa, porque é lá que tenho tudo o que amo. Do que menos gosto é da sujeira... por que?.. ora, e alguém gosta de sujeira?" Rita Lee, cantora"Adoro tudo o que é 24 horas: cozinhas de todos os tipos, baladas, festas, gente de todas as tribos, cinemas, a cidade nunca pára! Detesto a falta de faixas de bicicletas e ciclovias. São pouquíssimas e, se fossem mais comuns, seria possível ir ao trabalho de bicicleta ao invés de usar carro ou transporte público. A cidade seria menos poluída e o trânsito, mais leve."Vanessa Rozan, maquiadora artística da MAC "Amo a dinâmica da cidade, a velocidade das coisas e acontecimentos, que nos empurram pra frente e nos forçam a produzir sempre no máximo, no limite. Odeio: situações que mostram falta de cidadania, como jogar lixo na rua ou motoristas que desrespeitam pedestres." Eduardo Srur, artista plástico que costuma fazer intervenções artísticas nas ruas da cidade. "Do que mais gosto em São Paulo: da mistura de povos de todos os cantos do Brasil e do mundo. Da gastronomia, exposições, shows, concertos, teatros, bibliotecas, praças, parques, enfim, São Paulo é uma metrópole muito rica em cultura. Do que menos gosto: do trânsito, especialmente da falta de educação dos motoboys e da falta de uma política específica para as motos que aumentam em número a cada dia."Andreas Kisser, guitarrista"Adoro o Conjunto Nacional, na Paulista, um espaço múltiplo, que reúne lazer, trabalho e moradia. Tudo isso na arquitetura modernista brasileira de David Libeskind. Também adoro as obras da Lina Bo Bardi: Masp, Sesc Pompéia, Teatro Oficina, a Casa de Vidro... Não gosto da escassez de áreas verdes no espaço urbano, das calçadas estreitas e irregulares, do insuficiente sistema de transporte público e desses prédios novos com um padrão imitando Neoclássico."Calu Fontes, artista plástica"Gostamos da liberdade de expressão: aqui, as pessoas sempre enxergaram o grafite como uma forma de recuperar espaços deteriorados. Odiamos o que está acontecendo agora.... a atual Prefeitura, do senhor Kassab, tem um programa de ?limpeza? que enquadra o grafite como sujeira. Obras de arte com 10, 15 anos estão sendo apagadas. Há ainda a poluição ambiental, o trânsito, a violência e o total descaso com a cidade. Não há respeito, por exemplo, às casas históricas e vilas. É uma cidade sem controle, sem dono. As pessoas aprenderam a se conformar e improvisar na maneira de viver."Os Gêmeos, grafiteiros "Adoro a oferta de informações culturais e acho as tribos de São Paulo muito bacanas. Ao mesmo tempo em que você pode circular por qualquer uma e somar amizades, pode não encontrar aquela turma que quer evitar, basta ir a um lugar que esteja fora do circuito deles... Bom, não gosto nem um pouco de ter que pegar a Marginal diariamente e ficar parada no trânsito entre os caminhões."Costanza Pascolato, editora, consultora de moda e empresária"Adoro a possibilidade de poder sair a qualquer hora e encontrar alguma coisa interessante para fazer. Os restaurantes, teatros e cinemas ficam abertos até tarde. Odeio os motoboys mal educados."Turi Cervone, diretor geral do Instituto Europeu de Design no Brasil "Gosto da 9 de Julho, no sentido centro, dos grafites, do metrô, do Brás e da sensação de descobrir que ainda tem muito lugar por aí que é novo. Gosto do Ipiranga, do Glicério, da Augusta, do Centro. Quando me encho de concreto, volto para o mato, a Vila Madalena, e vou andar na rua, tomar uma cachaça. Não gosto da dificuldade extrema de se viver aqui para a grande maioria dos habitantes, que não tem litoral no fim de semana nem uma casa no campo."Johnny Araújo, diretor de cinema