Um Oscar para a inovação

Patrícia Cançado e Renato Schroeder - O Estado de S.Paulo

Versão nacional do Idea, concurso de design dos EUA, premia 53 [br]produtos, projeta brasileiros no exterior e traz à tona a discussão [br]sobre o papel do design na economia

O conceito de design é amplo. Não é artesanato nem arte. Muito menos algo no meio do caminho entre os dois. É conceber um produto ou um processo com preocupações não só estéticas, mas também funcionais e econômicas. Por muito tempo, essa discussão foi encarada pela maioria das empresas brasileiras como um assunto menor, quase que de gueto. O País, no entanto, começa a virar essa página. Nos anos 80, apenas seis escolas formavam designers no Brasil. Hoje são cerca de 300. A efervescência recente da criação nacional chamou a atenção do premiado designer Tucker Viemeister, que convenceu os organizadores do International Design Excelence Awards (Idea), espécie de Oscar do design mundial, a criar uma versão brasileira do prêmio. A competição existe há 30 anos, mas nunca havia saído dos Estados Unidos. Agora, apenas seis meses depois desse "pedido", o Brasil quebra a regra e produz pela primeira vez uma versão local do Idea. Na noite da última quinta-feira, 53 produtos foram premiados entre 353 inscritos, que concorreram em 18 categorias - que vão desde singelos sapatos a aviões de luxo. "O que chamou a atenção foi a quantidade de empresas interessadas em participar. Normalmente, os prêmios de design no Brasil despertam interesse só dos profissionais", afirma Joice Joppert Leal, coordenadora da Objeto Brasil, entidade sem fins lucrativos para promoção do design e representante do prêmio americano no País. Segundo ela, todos os vencedores concorreram automaticamente ao prêmio nos EUA. Lá, a entrega dos troféus está marcada para 18 de julho. Já se sabe que doze produtos brasileiros serão premiados na disputa mundial. O nome deles ainda é mantido em segredo. "Os europeus enxergam o design brasileiro há muitos anos, mas nos últimos cinco anos os americanos e o resto do mundo começaram a olhar para a produção daqui com outros olhos", diz Newton Gama, dono da N Gama Design e que por 26 anos esteve à frente da área de design da Whirlpool, multinacional americana dona da Brastemp. Mais do que o reconhecimento individual de cada um desses profissionais, o Idea servirá como uma chancela ao design feito no Brasil, na opinião do especialista em design de marcas,Lincoln Seragini, que participou do prêmio com duas criações - o Café Octávio, de São Paulo, cuja planta baixa tem o formato de um grão de café, e uma máquina de café de coador para a Universal, empresa de médio porte de Petrópolis (RJ) que estava perdendo bons clientes (padarias, principalmente) porque ainda vendia uma cafeteira antiquada. Os brasileiros não são estreantes em prêmios internacionais de design. Os irmãos Fernando e Humberto Campana tornaram-se referência mundial, influenciando gerações daqui e do exterior. Na década de 70, uma dupla de designers gaúchos, Nelson Ivan Petzold e José Carlos Bornancini, colocou o desenho brasileiro no catálogo de vendas da loja do MoMa, o Museu de Arte Moderna de Nova York. O produto? Talheres de camping criados para a empresa Zivi-Hércules, hoje Mundial. Outros grandes nomes cresceram com a evolução da indústria local, como Freddy Van Camp e Newton Gama na Cônsul, Oswaldo Mellone, que desenhou maçanetas para a Papaiz, e Angela Carvalho, "dona" do ventilador de teto da Singer. Mais recentemente, Guto Índio da Costa, outra referência no assunto, transformou um ventilador de teto, batizado de Spirit, em ícone do design contemporâneo. A aproximação com o artesanato projetou nomes como o de Renato Imbroisi, que trabalhou com vários tecelões de diversos Estados do Brasil e de Moçambique, na África, Claudia Moreira Salles, que cria móveis sofisticados com detalhes em palha produzidos por artistas do Piauí, e Carla Tenembaum, que aproximou o artesanato das tecnologias de aproveitamento de resíduos industriais. Ninguém duvida do potencial criativo do Brasil. Mas ainda há muito a ser feito nessa área. Ao mesmo tempo em que revela um tesouro escondido da maioria dos brasileiros, o prêmio Idea também traz à tona uma discussão importante sobre o papel do design na economia brasileira. "Por muito tempo, a indústria brasileira copiou, reproduziu ou trouxe patentes de design do exterior", diz Marcelo Prado, diretor do Instituto de Estudos e Marketing Industrial, coordenador de uma pesquisa que vai investigar o estágio atual do design brasileiro nos mais diversos setores da economia. "Acredito que o Brasil esteja no jardim de infância, mas as empresas estão começando a perceber a competitividade que o design pode trazer." A globalização, que derrubou as fronteiras do comércio e aumentou a competição entre as empresas, passou a exigir mais investimentos em produtos e conceitos inovadores. Isso vale também para o Brasil. "As empresas brasileiras, principalmente as exportadoras, têm uma demanda latente por design." Quando o Brasil começou a exportar de verdade, a partir de 2001, as empresas tinham um cenário razoavelmente confortável. Com o real desvalorizado, era possível ganhar mercado com preço baixo. "Mas elas foram para fora e perceberam que precisariam evoluir muito", diz Prado. Experiências mostraram que competir por preço com a China tornou-se praticamente inviável. Muitas empresas brasileiras quebraram no meio do caminho. Outras foram bem-sucedidas justamente porque apostaram em inovação, caso dos chinelos Havaianas e das sandálias Melissa, que levaram para o mundo um autêntico design brasileiro.