UE debate doping intelectual

Jamil Chade - O Estado de S.Paulo

Governos questionam uso de remédios por cientistas

Um debate toma conta do mundo acadêmico e de governos na Europa e nos Estados Unidos: o doping mental ou intelectual. Trata-se do uso de substâncias e remédios que possam ter algum impacto na capacidade cognitiva de cientistas e estudantes. Nos EUA, uma série de departamentos do governo vem realizando estudos para saber qual é o impacto das substâncias em diferentes setores. Na Inglaterra, a Associação Médica quer a imposição de novas regras para dificultar o acesso às substâncias. Os produtos usados foram criados pelo setor farmacêutico nos últimos anos para melhorar o aprendizado de crianças, como em casos de hiperatividade, e evitar a perda de memória, que acomete pessoas com o mal de Alzheimer. Há quem defenda no governo britânico que haja um debate ético sobre seu uso por pessoas saudáveis. Para a parcela dos cientistas a favor dos produtos, a questão é simples: se um quadro de um artista que se droga é valorizado pelo resultado final, por que isso não poderia ocorrer nos laboratórios?Já outros alertam que, se há um controle de doping no esporte, ele deveria ser feito também na ciência. Esse grupo ainda lembra que, nesse meio, a concorrência pode ser tão dura quanto numa competição esportiva e que bolsas e prêmios são dados aos que melhor desempenham suas atividades.Tudo começou com uma sondagem feita pela revista Nature neste ano. Ela mostra que um em cada cinco pesquisadores se dopam durante o trabalho. Entre 1,4 mil cientistas questionados nos EUA e Europa, 20% deles confirmam que tomam regularmente substâncias para melhorar suas habilidades cognitivas.Pela pesquisa, a maioria dos usuários (62%) opta pelo metilfenidato, indicado para crianças hiperativas e com problemas de concentração - que fica exacerbada em pessoas saudáveis.Além disso, 44% dos entrevistados usam o modafinilo. O efeito não é muito diferente ao da cafeína: mantém a pessoa acordada e permite que passe noites estudando. A grande maioria dos entrevistados (80%) diz estar ciente das conseqüências e ser favorável ao "livre-arbítrio" entre os adultos.Mas os governos não vêem a questão da mesma forma. Um estudo da Academia de Ciências Médicas da Grã-Bretanha alerta sobre uma tendência cada vez maior do uso de substâncias por estudantes em escolas e universidades e pede regulamentações rígidas.O governo inglês aponta, apenas, que vai estudar as recomendações. Mas admite que o tema será relevante nos próximos 20 anos. A Associação da Indústria Farmacêutica Britânica rejeita a necessidade de novas leis.A sociedade civil já começa a se mobilizar. No próximo mês, cientistas de todo o mundo se reúnem no principal congresso mundial de neuroética, em Washington. O tema do "doping mental" está na agenda.