Tratamento na rede pública é uma via-crúcis

- O Estado de S.Paulo

Entre os problemas enfrentados estão médicos que faltam e dificuldade de locomoção

A aposentada Geralda Aquino Costa, de 76 anos, vive em meio a lembranças e borrões. Com a visão limitada por catarata, ela não sai mais sozinha, tem dificuldade para circular pela própria casa e para executar tarefas domésticas. "Ando guiada pela memória, nunca vou só a lugares novos", conta ela, que já comandou a família, formada por 14 filhos e vários netos.A doença começou a evoluir rapidamente há 3 anos. A partir de então, sua vida virou uma via-crúcis à procura de tratamento: dificuldade para marcar consultas, exames perdidos, fila de espera e até cirurgia desmarcada por ausência de médicos. "Tudo é muito difícil. Como mamãe não anda sozinha, é preciso que um filho falte ao trabalho", conta a filha Hulda. Muitas vezes, o percurso para o hospital tem de ser feito de ônibus. "A condução demora muito a chegar, o trajeto também é demorado. Tudo isso para chegar ao hospital e receber a notícia de que o médico não foi."No fim do ano passado, Geralda recebeu uma oferta de operação. "Ligaram aqui, mas disseram que eu tinha de estar lá em menos de uma hora. Como eu iria, se dependo de filho, de condução?" Ela diz que sonha voltar a enxergar para ver pela primeira vez as feições dos netos mais novos, que reconhece somente pelo vulto e pela voz. Geralda tem poucas esperanças de que, na rede pública, isso ocorra rapidamente. "Se tivesse o que vender, faria uma operação com um médico particular." Enquanto isso não acontece, ela depende dos parentes: para se deslocar, é preciso sempre ajuda.MUTIRÃOTeresa Carvalho, de 73 anos, e Narciso Carvalho, de 74, operaram a catarata em 2000, em um mutirão. "Eu operei em um dia, ele, no dia seguinte", recorda Teresa, que acha difícil que isso tivesse ocorrido no modelo atual. "Para a gente tudo é difícil: condução, tempo. Só procuramos o serviço porque havia oferta de atendimento garantido, tudo relativamente rápido." "Depois da operação, nunca mais procuramos um médico de vista", diz Carvalho. Teresa diz que há dois anos passou a sentir desconforto. "Mas é tudo tão difícil de encontrar... Melhor ficar como está."