Trapaceadores e cooperadores

Fernando Reinach* - O Estado de S.Paulo

"A minha terra dá banana e aipim. Meu trabalho é achar quem descasque por mim." Do ponto de vista evolutivo, o personagem de Noel Rosa leva vantagem sobre quem descasca as bananas. A energia que economiza usurpando o trabalho alheio pode ser utilizada para passar adiante seus genes. Mas existe um problema. O sucesso de nosso amigo depende da cooperação de outras pessoas. Se não houver alguém descascando mais bananas do que consome, nosso amigo vai morrer de fome. As relações entre trapaceadores e cooperadores têm sido motivo de atenção de economistas, sociólogos e cientistas políticos. O que tem passado despercebido é que esse mesmo fenômeno, aparentemente tão humano, carregado de conotações morais, surgiu muito cedo na história dos seres vivos e se repete todos os dias nos tanques de fermentação das usinas de álcool. Durante a fermentação da garapa de cana-de-açúcar, o fungo Saccharomices cereviseae transforma açúcar (sacarose) em álcool. É o álcool que bebemos na pinga e colocamos nos carros. O fungo não é capaz de absorver a sacarose, mas necessita que ela seja antes cortada ao meio (o ato de "descascar a banana"), produzindo uma molécula de glicose e uma de frutose (dois tipos de açúcar) - essas moléculas são facilmente ingeridas pelo Saccharomices. É a existência desse processo que permite que os fungos assumam o papel de trapaceadores ou cooperadores. Como a quebra da sacarose é feita por uma enzima na parte exterior da membrana que envolve o Saccharomices, somente uma em cada cem moléculas quebradas pelo fungo ("bananas descascadas") é absorvida por ele mesmo - as outras 99 são liberadas e podem ser absorvidas por qualquer outro fungo que passar por perto. Isso permite que um fungo incapaz de quebrar moléculas de sacarose (trapaceadores) se alimente do açúcar liberado pelos fungos capazes de cortar ao meio a sacarose (cooperadores). Agora os cientistas estudaram em detalhe a dinâmica dessa curiosa inter-relação entre trapaceadores e cooperadores. No início de uma fermentação existe somente sacarose e poucos fungos - um ambiente ruim para os trapaceadores e ideal para os cooperadores. Com o passar do tempo, a quantidade de glicose aumenta, criando um ambiente favorável para os trapaceadores. Estes, por não gastarem energia cortando sacarose ("descascando bananas") e se alimentado da glicose produzida pelos cooperadores, multiplicam-se rapidamente, até consumirem o excesso de "bananas descascadas" (glicose). Essa dinâmica resulta em um equilíbrio entre o número de cooperadores e trapaceadores. Manipulando artificialmente o número de cooperadores e trapaceadores e a quantidade de sacarose e glicose presente no tanque, foi possível deduzir as leis que controlam a interação social entre cooperadores e trapaceadores. O mais interessante é que também foi possível manipular o "custo extra" incorrido pelos cooperadores para degradar a sacarose (é como se a atividade de descascar as bananas fosse taxada com um imposto) e dessa maneira descobrir como esse custo afeta a dinâmica entre cooperadores e trapaceadores. A conclusão é que o processo de fermentação (consumo total de bananas) é acelerado pela presença dos trapaceadores (os que não descascam bananas), uma vez que eles são mais eficientes. Mas, na medida em que se aumenta o "custo" adicional incorrido pelos cooperadores (descascadores de banana), sua frequência no tanque (sociedade) tende a diminuir e a fermentação fica mais lenta. Os autores não tecem considerações sobre as implicações éticas, sociais ou econômicas de sua descoberta. *fernando@reinach.com Biólogo Mais informações: Snowdrift game dynamics and facultative cheating in yeast. Nature, vol. 459