Traição nunca sai de cena

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

É só olhar para o lado, para os filhos, comparar as gerações. Apareceram os ficantes, os noivos saíram do mapa, o divórcio deixou de ser bicho papão. Em meio às transformações dos relacionamentos, ela é a única que parece inalterada, firme e forte, no mesmo lugar. O comportamento sexual até evoluiu, mas, na prática, a infidelidade continua o mesmo tabu do passado. O tema ronda quase todas as novelas e, na nova trama do horário nobre, ?Paraíso Tropical?, é protagonizada por Tony Ramos e Maria Fernanda Cândido. Mas, na vida fora da telinha, em que nem tudo é um ?paraíso?, dificilmente o debate chega à mesa de jantar. Apesar de saber que a pauta é indigesta para a maioria dos casais que vivem o drama em família, a antropóloga Mirian Goldenberg consegue abordar o assunto das maneiras mais diferentes. E, por uma ?questão matemática?, ela traz para o cardápio das conversas a tão temida traição. ?O mercado de casamento no Brasil é muito favorável para os homens em função de uma questão demográfica. Primeiro, porque eles morrem cerca de oito anos antes, casam-se com mulheres mais jovens?, fala. ?Na faixa dos 50 a 54 anos, um homem não-casado tem uma chance 30 vezes maior de encontrar uma parceira do que uma mulher na mesma faixa etária?, enfatiza a especialista. As estatísticas de São Paulo confirmam a tese da antropóloga. Na Capital, as mulheres compõem a maioria da população paulistana, com um contingente 9% superior ao dos homens. Depois dos 60 anos, então, a população feminina é cerca de 50% maior que a masculina. Além de confirmar a crença popular de que ?falta homem no mercado?, todos estes dados são reforçados pelo padrão cultural. O resultado? ?Em uma cultura que valoriza a representação viril sobre a masculinidade e na qual ?sobram? mulheres, principalmente após os 30 anos, a infidelidade masculina é percebida como o comportamento esperado dos homens brasileiros?, revela a antropóloga. Mas antes de as defensoras da parcela cor-de-rosa acreditarem que têm carta branca para apontar o dedo na cara dos homens, com a certeza de que eles traem mais o pobre sexo feminino, Mirian Goldenberg traz novos números sobre a infidelidade: ?Cresceu o número de mulheres que admitem ser infiéis. Em meus estudos, dos 1.279 pesquisados, 60% dos homens afirmaram que já traíram, enquanto 47% das mulheres afirmaram o mesmo?. Apesar da proporção ainda estar desequilibrada, a pesquisadora escutou milhares de histórias nos últimos 10 anos. Ouviu ?traídos?, deu atenção aos ?infiéis?, não esqueceu das ?outras?. E os motivos da traição sempre acabam culpando os homens pela infidelidade. Nas entrevistas da antropóloga, eles justificam a traição porque sentem-se disponíveis para aventuras, mesmo quando amam e desejam suas mulheres. Falam que tudo é ?em nome da natureza masculina?. Já elas encaram a infidelidade como uma forma de vingança, por não acreditarem que são amadas e desejadas pelos companheiros. ?Na traição, o homem sempre é culpado. Quando ele trai, é em função de uma natureza poligâmica. Quando ela trai, é por causa das inúmeras faltas e desatenções masculinas?, conclui Mirian. Os motivos diferem, a aceitação nem sempre acontece, mas, mesmo com a evolução das gerações, a fidelidade ainda é exigência para os relacionamentos bem sucedidos. A especialista afirma que ?ser fiel? é um valor fundamental nas relações contemporâneas. E, independentemente do sexo, todos sofrem quando são traídos. ?A maior dor da traição é descobrir que não se é tão especial, único, insubstituível como se pensava. Que o amor não foi tão importante para o esposo ou a esposa pular a cerca.? A idéia de ser único pode parecer uma fantasia romântica, mas ainda é com esta garantia que homens e mulheres topam encarar a idéia dos ?felizes para sempre?. Mirian Goldenberg pesquisou o tema profundamente e, apesar de uma década de estudo, nem ela consegue responder de forma tão clara quais são os reais motivos para a traição. A reportagem do JT foi às ruas e encontrou homens e mulheres divididos. As pessoas até podem aceitar, mas também não sabem conviver com a traição.