Trabalho de formiguinha

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Um batalhão feminino vai de porta em porta para melhorar a qualidade de vida de famílias carentes

Se existe uma expressão que define à risca as atividades de uma agente comunitária esta é "trabalho de formiguinha". Como integrante de um batalhão feminino que se espalha pela cidade, essa profissional visita diariamente famílias de regiões consideradas de elevada vulnerabilidade social, ou seja, sujeitas a todo tipo de problema que uma vida precária é capaz de trazer.

 

Devidamente treinada, a agente comunitária chega a entrar nas casas de cerca de 200 famílias por mês, das mais carentes às pouco mais estruturadas, na periferia de São Paulo. Essa proximidade cria uma relação de confiança e a faz conhecer como poucos a realidade dessas pessoas, suas histórias, necessidades e problemas.

 

Quitéria Lourdete Sales de Oliveira, de 46 anos, casada e mãe de dois rapazes, é uma dessas "formiguinhas". Como agente de saúde, faz parte da equipe contratada pelo Programa Saúde da Família, que atua na capital, sempre em parceria com a Prefeitura e uma organização social - neste caso, a entidade filantrópica Associação Congregação de Santa Catarina (ACSC). Por mês, Quitéria visita 190 famílias moradoras do bairro Vila Guacuri, localizado na região de Pedreira, próxima a Interlagos, zona sul de São Paulo.

 

"Minha função é promover a saúde, levando informações sobre prevenção de doenças, e orientar a comunidade sobre a importância dos exames periódicos e vacinação", resume Quitéria. "Também faço a ponte entre o posto de atendimento e as pessoas." Nesse trabalho, encontrou a oportunidade de continuar atuando na comunidade onde mora, só que, em vez de voluntária, tornou-se profissional assalariada.

 

Quitéria sempre foi uma mulher engajada. Antes de se tornar agente de saúde, trabalhou como voluntária na Pastoral da Criança, fundada pela saudosa Zilda Arns, e na associação de moradores do seu bairro, Vila Guacuri. Com a capacitação que recebeu, hoje entende de doenças que conhecia superficialmente. "Mostro também como se pode adquirir hábitos mais saudáveis no dia a dia, para evitar doenças", conta. "Por maior que seja a dificuldade de acesso à alimentação, sempre há o que mudar."

 

O gerente médico da ACSC, que coordena o programa com as agentes de saúde, Roberson Kitamura, explica que o trabalho delas está voltado prioritariamente para a prevenção de hipertensão, diabetes, tuberculose, câncer, e o acompanhamento de gestantes e crianças, principalmente com menos de 2 anos. "A presença feminina maciça (elas representam 90% desses profissionais) facilita a entrada do programa nos lares", observa. Afinal, as pessoas têm menos resistência para receber uma mulher em casa do que um homem.

 

 

POUCO A POUCO

 

No contato direto com a família, as agentes comunitárias orientam sobre higiene, responsabilidade ambiental, ajudam em campanhas específicas de saúde - como a da dengue -, identificam casos de alcoolismo e de violência doméstica. Enfim, tornam-se referências fundamentais na comunidade.

 

"Vestimos e suamos a camisa", avisa Mariselma Ferreira Sousa da Silva, de 49 anos. "É muito gratificante semear informações e perceber pequenas mudanças positivas em uma família." Ela cuida das equipes do Programa Ação Família, que atuam nos bairros Jardim Lapenna, Jardim São Vicente e Jardim Pantanal, localizados em São Miguel Paulista, zona leste.

 

Com metodologia desenvolvida pela Fundação Tide Setubal, em parceria com a Prefeitura, o trabalho tem como objetivo investir na autonomia das famílias, para que passem a correr atrás de seus direitos, sem se esquecerem dos seus deveres. Ao invés de enveredar para o assistencialismo, Mariselma batalha para que as pessoas descubram suas qualidades e aprendam a reivindicar recursos públicos para reduzir as carências da comunidade.

 

 

                                              "Mostramos o caminho, sem carregá-los nas costas. Mudanças positivas refletem em todos à sua volta." Mariselma Ferreira Sousa da Silva, 49 anos,da Fundação Tide Setubal

Um dos exemplos mais emblemáticos desse trabalho é a questão do lixo. "Aqui havia pilhas de sujeira e ratos, que brigavam pela comida", conta Mariselma, que é casada, tem quatro filhos e é formada em Assistência Social. Os moradores se organizaram e conseguiram que o Departamento de Limpeza Urbana (Limpurb) disponibilizasse um pequeno caminhão para entrar nas vielas e recolher todo o lixo. De quebra, as pessoas passaram a condicionar os detritos de forma adequada.

 

 

As mulheres são fundamentais para a construção da cidadania dentro da família, e essa é sempre a porta de entrada para as transformações sociais, acredita Lúcia Amadeo, de 49 anos, coordenadora do Programa Ação Família da Fundação Tide Setubal. "Elas percebem que são capazes de alavancar melhorias primeiro dentro dos seus lares e, depois, nas suas comunidades", ressalta.

 

 

VOCAÇÃO

 

O voluntariado motivou Mariana de Brito, de 22 anos, estudante de Educação Física, a mudar a sua própria realidade. Moradora do Jardim Ângela, na zona sul, ela poderia ter o destino de outros jovens da região, que se enveredaram para o mundo do crime. Ou poderia ter se tornado uma mãe precoce, como muitas de suas amigas e vizinhas, estando num subemprego e longe da escola, sem perspectiva alguma.

 

Sua vida, no entanto, deu um salto quando soube das atividades realizadas pela organização Sociedade Santos Mártires. "Recebi um papelzinho e fui ver do que se tratava", lembra Mariana. "Tinha 15 anos, comecei fazendo cursos que a entidade promovia, depois me tornei educadora voluntária e, em 2005, fui contratada para trabalhar nos programas sociais."

 

No início, dava aulas de cidadania e projetos na comunidade. Com a experiência adquirida, foi convidada para trabalhar em um dos 29 serviços oferecidos pela Santos Mártires: o RAC - Redescobrindo o Adolescente na Comunidade, programa que atende menores infratores encaminhados pela Fundação Casa (antiga Febem) e pela Vara da Infância e Juventude. Aqueles que estão em liberdade assistida ou que são obrigados a prestar serviços à comunidade. Mariana faz parte da equipe que os recebe - basicamente, formada por mulheres - e acompanha seus passos.

 

 "Como tive a chance de mudar minha realidade, é um grande prazer  mostrar para adolescentes infratores outros caminhos para suas vidas." Mariana de Brito, 22 anos, do programa RAC

 

Durante o período de reabilitação, os adolescentes participam de oficinas socioeducativas, como as de pintura, violão e artesanato, entre outras atividades. "Eles chegam aqui cheios de estigmas, são mal vistos na família, na escola e no bairro", conta. "Por isso é importante reintegrá-los, fazendo com que se ocupem de forma produtiva."

 

O programa Redescobrindo o Adolescente na Comunidade virou livro e modelo para outras iniciativas. Um dos criadores é o psicólogo Sergio Bosco, gerente de planejamento da Santos Mártires. Na sua opinião, são trabalhos voltados para comunidades carentes que ajudam a evitar uma convulsão social numa metrópole com tantos problemas como São Paulo.

 

"A cidade só não teve um boom de violência por causa da atuação dessas organizações sociais, que conseguiram sobreviver até hoje graças a parcerias com instituições privadas e públicas."