Torpedos viraram uma eficiente estratégia de paquera

Giuliana Reginatto - O Estado de S.Paulo

Pelo menos 12% dos relacionamentos amorosos já são motivados por ‘gracinhas’ trocadas pelo telefone

Eu te amo. As palavras mais esperadas pelo ouvido de um apaixonado podem custar a sair por pura falta de coragem. Escrever é mais fácil do que dizer. Evita olhares envergonhados, faces coradas e o risco de um silêncio constrangedor como resposta, aquele que deixa claro a falta de correspondência ao sentimento mesmo sem usar palavras - ditas ou escritas. Deve ser por isso que as mensagens via celular, conhecidas como torpedo ou SMS, passaram a ser uma eficiente estratégia de paquera. Estima-se que 12% dos relacionamentos amorosos sejam motivados por ‘gracinhas’ trocadas pelo celular. Esta é a conclusão de uma pesquisa com mais de 8 mil pessoas recrutadas em oito países: Malásia, Indonésia, Filipinas Cingapura, Rússia, Itália, Grã-Bretanha e Alemanha. Realizado pela empresa de tecnologia da informação LogicaCMG e publicado pela rede inglesa BBC, o estudo apurou ainda que um em cada seis entrevistados prefere receber uma mensagem a um cartão ou caixa de chocolates no Dia dos Namorados. Ainda não existem estudos de grande abrangência sobre a importância dos chamegos digitais na vida dos brasileiros. Uma sondagem feita pela reportagem no Portal Estadão (www.estadao.com.br) indica que, por aqui, as cantadas discadas também vêm ganhando adeptos. Exatos 30% dos 131 votantes garantem que já viveram um romance motivado pela troca de torpedos. É o caso da comissária de bordo Adriane Bayard, que namora há dois anos. "Meu namoro engatou por causa dos torpedos. No início, a gente se escrevia mais do que telefonava", diz. Adriane é uma mulher bonita e segura, de 26 anos. Por que, então, camuflava-se pelo celular para paquerar? "Não queria ser aquela chata que liga de hora em hora, mas queria que ele soubesse que eu pensava nele. Ficou tudo mais fácil com o torpedo. Ele deixou de ser apenas mais uma forma de comunicação, é um instrumento importante para a aproximação das pessoas", acredita. Para psiquiatras e psicólogos que estudam o comportamento humano, a interferência do celular e de outros instrumentos tecnológicos nos relacionamentos tem um efeito paradoxal: afasta e também aproxima, de acordo com o tipo de uso que se faz. "Para os tímidos, a tecnologia se mostra um verdadeiro facilitador, um jeito de fortalecer a auto-estima e encorajar a interação social. Internet e celular devem ser vistos como mais uma ferramenta de aproximação, mas não como a única. Eles não podem se transformar em escapismo", opina a psicóloga Luciana Zuffo, do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática ( NPPI), da PUC - SP. Luciana explica que a paquera via SMS seduz pela chance de premeditar a cantada. "Há tempo para elaborar a mensagem, a pessoa sente que está no controle da situação. É como se o celular deixasse o indivíduo sempre disponível para contatos, já que ele acompanha a pessoa o dia todo. Ocorre, porém, que toda forma nova de interação assusta. O telefone fixo, quando surgiu, também foi muito criticado" opina. Doutor em Psicologia pela Universidade La Sapienza de Roma, o psicoterapeuta Cesare Guerreschi enxerga o uso crescente do celular como uma verdadeira ameaça. Em seu mais novo livro, New Addictions - As Novas Dependências (Ed. Paulus. R$ 29), ele caracteriza o apego excessivo ao aparelho como um vício, tal como já se fez com internet, sexo e compras. "Se observarmos a relação cotidiana que a maioria das pessoas têm com o celular, admitiremos que ele alimenta comportamentos que facilmente poderiam ser considerados patológicos. Desenvolvem-se sentimentos intensos de investimento afetivo e de prazer dirigidos a um objeto inanimado. O objeto técnico se torna mais necessário quando devemos suprir uma falta real, um momento de não-comunicação ou perda temporária da relação afetiva", descreve Guerreschi. Em New Addictions, o psicólogo aponta três categorias de fanáticos por celulares - entre elas, o grupo dos dependentes de SMS. "Eles têm necessidade constante de enviar e receber mensagens escritas. Muitos têm um calo em um dos polegares, ou as teclas estão gastas de modo anormal", explica Guerreschi. O italiano defende que a obrigação do uso da tecnologia nas relações afetivas pode fazer com que as pessoas percam sua autenticidade e, com ela, a capacidade de enfrentar uma relação direta com seus próprios recursos emotivos. "Perde-se o hábito de estabelecer uma comunicação espontânea e original que, de uma certa forma, não havia sido programada", explica. Vanessa Leal, de 25 anos, é contra todo tipo de crítica feita à comunicação premeditada pela troca de mensagens. Foi assim, trocando recadinhos pelo MSN, que um desconhecido da internet virou seu marido. Antes de qualquer contato físico, eles já estavam namorando: ela em Guarulhos; ele no interior do Paraná. "Após um mês de conversa pela internet, marcamos de nos encontrar. No fim, ele pediu demissão do emprego, mudou-se para minha casa e abrimos uma loja de brinquedos. Casamos em abril", conta. Casos de amor pela internet são mais comuns do que romances via SMS, assim como estudos sobre a overdose de computador também avançam mais rápido que investigações a respeito do celular. Ligado à Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, o departamento de dependências não-químicas é um dos principais pólos de estudos sobre o uso patológico da internet no País. Para seu coordenador, o psiquiatra Aderbal Vieira Jr., é preciso ver a questão com cautela. "Podemos nos relacionar de forma dependente com todo tipo de coisa. Há um uso exagerado do celular, sim. Quantas ligações você fez nesta semana que eram imprescindíveis? Nem todo comportamento inadequado, porém, é um problema médico. Se a liberdade de escolha não está em jogo e não há prejuízos efetivos para a pessoa, por que eu diria que se trata de uma dependência?", questiona Vieira. A psicóloga Rosa Farah, profissional do NPPI e co-autora do livro Relacionamentos Digitais (Giz Editorial, R$ 21), também acredita que se tem feito alarde exagerado em torno da tecnologia. "A sociedade tende a ‘demonizar’ toda novidade. Não digo que a perda do contato humano não mereça atenção, mas o comportamento compulsivo não é algo específico da tecnologia. É a qualidade do uso e não sua quantidade que define o que há de patológico no comportamento."