Toma que o pai é teu

Lola Felix, do Jornal da Tarde - O Estado de S.Paulo

Quando a idade avança, os papéis se invertem e quem cuidou a vida toda passa a precisar de cuidados

No filme A Família Savage, que entrou em cartaz nos cinemas, dois irmãos, Wendy (Laura Linney) e Jon (Philip Seymour Hoffman) interrompem suas vidas quando chega a notícia de que o pai deles, Lenny (Philip Bosco), está em um estágio avançado de demência. Sem saber como cuidar do velhinho, eles o internam em uma clínica geriátrica - a filha, cheia de culpa; o filho, nem tanto.  Na vida real, assim como na ficção, todos os pais envelhecem. Com o aumento da expectativa de vida divulgada pelo IBGE no fim de 2007, que passou de 71,9 anos, em 2005, para 72,3 anos, é natural que nosso pais vivam mais do que nossos avós. Com o avanço da idade, no entanto, muitas vezes vem a dependência e se vai a autonomia. Surge aí a necessidade de decidir quem vai ficar com eles. A solução, que freqüentemente causa culpa e angústia aos envolvidos, deve ser tomada com cuidado, analisando-se a saúde do idoso, seu grau de independência e a disposição de dinheiro e de tempo dos familiares. Segundo dados divulgados pela jornalista Marleth Silva, autora do livro Quem Vai Cuidar dos Nossos Pais? - a inversão de papéis quando a idade avança (Editora Record, R$ 31), quando o idoso começa a precisar de até três cuidadores, é melhor, financeiramente, para a família, que ele vá morar em uma casa de repouso. Mas, antes de analisar a questão pelo bolso, o mais justo é perguntar para o idoso o que ele acha melhor. "Se a capacidade cognitiva dá a ele condição de decidir onde irá morar, o idoso tem de participar desta decisão", aconselha o geriatra Clineu Almada, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).  Lar, doce lar A casa ainda é o melhor lugar para quem tem autonomia. "É em casa que o idoso se sente mais à vontade, mantém suas referências. Ele conhece o comércio ao redor da residência, conversa com os vizinhos, os funcionários do prédio, tudo é mais cômodo", pondera Marleth Silva.  A permanência em casa ou a ida para um asilo vai depender da capacidade que a pessoa tem para realizar tarefas cotidianas. É preciso verificar se a pessoa ainda tem condições básicas de cuidar de si mesmo, ou seja, se ela consegue alimentar-se, banhar-se, vestir-se, arrumar-se, mover-se e utilizar o banheiro de forma independente. Também é necessário avaliar em que condições está sua autonomia para tarefas mais complexas, como, por exemplo, fazer compras, tomar os remédios, utilizar transporte, cuidar da casa e administrar as finanças.  Na pesquisa Idosos no Brasil: vivências, desafios e expectativas na terceira idade, realizada em 2007 pelo Sesc, em parceria com a Fundação Perseu Abramo, concluiu-se que a presença da incapacidade nos idosos é um importante sintoma de que ele deverá, mais tarde, ser institucionalizado (ou internado em um hospital geriátrico).  Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o País tem hoje 15 milhões de idosos, quase 1 milhão deles na cidade de São Paulo. Segundo estimativas da psicóloga e gerontóloga Anita Liberalesso Neri, da Unicamp, menos de 1% dos idosos do Brasil vive em instituições geriátricas.  "Estas instituições de longa permanência surgiram no fim do século 19 e não acolhiam apenas velhos, mas também pobres, loucos e deficientes. E, como são recentes, ainda estão muito longe de atender adequadamente às necessidades dos idosos." Outra opção que vem se popularizando em São Paulo são os centros-dia ou day care, lugares que podem ser comparados a creches. Diretora de um centro dia para pacientes com Alzheimer, Parkinson e outras doenças debilitantes, a geriatra Daniela Simone Alves de Oliveira diz que esta é uma opção para quem não pretende deixar o idoso sozinho em casa, e também não quer que ele fique internado.  "Nos EUA, existem cerca de 4.000 centros-dia para idosos. O day care é uma forma de ir acostumando o idoso com o ambiente de um residencial, para que ele possa ser institucionalizado quando estiver debilitado, sem que isto se transforme em um choque", explica Daniela.  Por mais que os asilos - ou, como os geriatras preferem chamá-los hoje em dia, as instituições de longa permanência - tentem melhorar sua imagem, muitos idosos ainda relutam em deixar o lugar onde moraram a vida inteira para se entregarem aos cuidados de enfermeiros e fisioterapeutas. "Eu nem queria esta mordomia toda, preferia estar em casa", diz Dona Aída Gazzano Miezza, 90 anos, internada em um residencial na Zona Sul. Após um acidente no qual fraturou o fêmur, seu filho achou melhor ela ficar um tempo em repouso, sendo paparicada. Aída, no entanto, não teme passar seu futuro em uma instituição. "Acho que é bem diferente da idéia que tinha de uma clínica de repouso", conta. Segundo Anita Neri, a existência destas instituições é necessária para acolher os idosos que estão por vir nas próximas décadas. De acordo com o IBGE, até 2050 serão cerca de 36 milhões de idosos no Brasil, sendo 15 milhões só na região Sudeste. A esta altura, os filhos já deverão estar preparados para a "demonização" que irão sofrer. "Existe um valor cultural muito forte de que o filho deve retribuir o cuidado que os pais lhe deram com proteção e cuidados. Mas, na vida real, isto nem sempre é possível. É preciso analisar bem os sentimentos e avaliar o que será melhor para o idoso e para a família", afirma Néri.