Time afinado

- O Estado de S.Paulo

Como uma música ou um perfume, a voz faz parte da memória afetiva das pessoas. Aqui, algumas referências

Credibilidade. Esse é o foco de Valéria Grillo, a voz por trás das chamadas do programa 'Roda Viva'. Foto: Felipe Rau/AE

 

 

A voz tem o poder de seduzir, intimidar, convencer, transmitir segurança ou credibilidade, e até acender a libido. No extremo oposto, uma fala autoritária, monótona, estridente, melosa ou trêmula pode soar como um tsunami aos ouvidos.

 

Entre os muitos elementos que compõem uma peça publicitária, a voz é crucial para fisgar e persuadir o consumidor. Cada produto ou serviço anunciado pede uma entonação específica, e é aí que entram os locutores do Clube da Voz, que reúne 50 associados, entre radialistas, atores e jornalistas. Além de trabalhar timbre, altura e modulação, para tornar a fala mais atraente, o profissional tem de ser um ator, pois interpreta vários personagens.

 

"Ter uma voz bonita é um requisito, porém, é preciso saber usá-la", explica Edson Mazieiro, presidente da entidade. Mas, lembra o locutor, uma voz chata e desagradável, beirando a caricatura, muitas vezes faz parte do enredo publicitário e acaba virando uma sacada genial. Um exemplo é um antigo comercial de beleza, anunciado por uma garota com voz de taquara rachada, que dizia: "A minha voz continua a mesma, mas os meus cabelos... Quanta diferença!"

 

Uma característica interessante do trabalho dos locutores é estimular a imaginação dos ouvintes, que criam enredos imaginários. "Eles idealizam uma pessoa a partir da voz, projetando idade, tipo físico, altura, mas, na maioria das vezes, acabam errando." Quando era locutor de uma rádio no interior, Mazieiro conta que uma fã ligou querendo conhecê-lo. "Eu era muito magro e usava óculos tipo fundo de garrafa. Quando me apresentei, ela ficou muda", brinca.

 

 

Embarque sensual. Os passageiros que, nos últimos 34 anos, embarcaram nos principais aeroportos internacionais do País, embalados pela voz de veludo de Iris Lettieri, poderiam jurar que quem estava ao microfone era Julie London, cantora de jazz dos anos 50 e 60. Iris foi contratada em 1976 pela Infraero, para ser a voz oficial do aeroporto internacional do Rio de Janeiro, graças à fala firme, pausada e com as sílabas prolongadas, que deixava os passageiros literalmente nas nuvens. "Essa era a ideia: uma voz que acalmasse, dissipando sobressaltos em relação aos voos", comenta Iris, que foi ícone da beleza nos anos 60, 70 e 80, e capa de revistas do Brasil e do mundo.

 

A voz famosa lhe rendeu algumas saias justas, uma delas durante uma premiação de fabricantes de calçados. "Estava no palco e, de repente, senti algo mexendo no meu tornozelo. Quando vi, era uma mão. Interrompi a apresentação e pedi para o técnico ir aumentando a luz aos poucos, até todos verem um empresário bem perto do palco, passando a mão na minha perna. Todo mundo se acabou de rir!"

 

Hoje, o anúncio dos embarques é feito por funcionários dos aeroportos. Mas sua voz ainda pode ser ouvida nos aeroportos internacionais do Galeão, Cumbica e Manaus, transmitindo informes oficiais sobre cuidados com o câmbio, vacinas, entre outros.

 

Fã apaixonado. A atriz e dubladora Tânia Gaidarji viaja por todo o Brasil, distribuindo autógrafos e tirando fotos com crianças e adolescentes. É conhecida por emprestar sua voz para as heroínas Chun-Li, de Street Fighter II, e a deusa Vishnu, de Shurato, e Bulma, de Dragon Ball Z. Enquanto Vishnu tem voz de mulher madura, Chum-Li e Bulma são garotinhas. "Quem faz dublagens tem de ser um ator", diz ela. Muitos fãs confundem dubladora e personagem, chamando-a pelo nome da última.

 

Recebe muitas mensagens em sua página no Orkut, no blog pessoal e Youtube. "Uma vez, no meio dos recadinhos do Youtube, tinha o elogio de um fã, que se dizia emocionado por entrar em contato com a dona da voz que lhe era tão familiar. Na hora, respondi apenas um ‘obrigada’. Horas depois, fui ver quem havia me mandado aquele recado e descobri que tinha sido um cantor talentoso. Após muitas conversas pelo MSN, nos encontramos e nos apaixonamos." Ambos romperam outros relacionamentos e viveram uma grande paixão, encantados pelas vozes um do outro. "O romance durou pouco, mas valeu a pena", conta Tânia.

 

Credibilidade. No extenso "cardápio" vocal, cada tipo de trabalho (dublagem, comercial, jingle) exige uma característica. No caso de um documentário ou telejornal, imagine a voz infantil de Xuxa ou de um empolgado Faustão na locução? Valéria Grillo, que apresentou por mais de 20 anos o telejornal da TV Cultura, sempre se preocupou em transmitir clareza e credibilidade por meio da fala. Com sua voz inconfundível, faz as chamadas em off do programa Roda Viva e a narração do documentário Planeta Terra.

 

"Paralelamente, faço muitos trabalhos no mercado corporativo, quando solicitam uma voz feminina, recurso que ajuda a suavizar temas áridos", fala Valéria. Para manter a voz de veludo, largou o cigarro. "Tive de recorrer a uma fonoaudióloga para reaprender a trabalhar a respiração. Também evito gritar, tomar gelado e me expor a choques térmicos." Para Valéria, a voz é o grande cartão de visitas das pessoas, apesar de não ter a devida valorização.

 

 

ETIQUETA DA VOZ

 

Evite berrar ao celular ou gritar em locais públicos.

O tom de voz pode dar margem a diversas interpretações, portanto, atenção.

Pior do que falar alto é falar alto e errado.

Voz nasalada? Pratique falar por alguns minutos, de forma quase inaudível, para melhorar a musculatura do

céu da boca.

Mulheres com voz muito infantil conseguem modificar essa característica se abrirem mais a boca ao falar.

Entre a menarca e a menopausa, a voz costuma ser mais suave, macia e aveludada, passando erotismo.

Uma voz masculina calma, segura e com bom timbre valoriza a conquista.

(Consultores: Fabio Arruda e Edson Mazieiro)

 

 

 

OPINIÃO

Cid Moreira, locutor

 

O "boa noite" mais carismático da TV brasileira foi o deste locutor de Taubaté, que ficou 27 anos no Jornal Nacional e 25 no Fantástico, ambos da Rede Globo. À frente do telejornal, entre tantos fatos que narrou de forma imparcial e impecável, relembra de alguns momentos tensos, quando foi traído pela emoção, como ao dar a notícia da decretação do AI 5 ou ao informar a morte de um grupo de amigos jornalistas em um acidente. "Já a notícia mais impactante foi o anúncio das eleições para presidente, após a mobilização Diretas Já."

 

Também era sua a voz que narrava o noticiário Canal 100, exibido nos cinemas antes dos filmes. "São 65 anos de carteira assinada em trabalhos como locutor de programas de rádio, mais de 1.500 documentários, dezenas e dezenas de comerciais, filmes institucionais, sem falar nas apresentações de eventos por todo o Brasil."

 

O que ninguém imagina é que Cid Moreira já foi tímido um dia. Na estreia do JN, em 1969, demorou um bocado para ficar tranquilo. Conta que, entre um bloco e outro, acabava pigarreando muito por causa do estresse da timidez, mas mantinha a postura como podia. "Sinceramente, entre os meus amigos que trabalhavam na mesma área, achava que era o que menos tinha condições de enfrentar a bancada."

 

Um dos segredos para manter o ouvinte interessado, revela, é a entonação. Diz que vai modulando de maneira que o texto não fique todo igual, desprovido de expressão. "Em uma conversa, é isso o que fazemos: falamos mais baixo, mais grave ou agudo, intercalando sons associados à alegria, tristeza, introspecção, calma, irritação. Cada palavra tem vida própria e o conjunto delas nos fala sobre o que vai na alma."