Teste detecta aids pela saliva em apenas 20 minutos

Alexandre Rodrigues - O Estado de S.Paulo

Kit sob análise da Anvisa custará cerca de R$ 35, mas não será vendido em farmácias

Um novo método de diagnóstico do vírus da aids a partir da saliva, que fornece resultado em 20 minutos e custa cerca de R$ 35, foi apresentado ontem no Rio. Trata-se de um kit descartável batizado de OraQuick, capaz de identificar a contaminação de um indivíduo pelo HIV tipos 1 e 2.Fabricado pela americana OralSure Technologies, o kit de diagnóstico está sob análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A expectativa da fabricante é ter seu uso no Brasil liberado no início do ano que vem. A empresa também negocia com o Ministério da Saúde o fornecimento para o serviço público.A OralSure afirma que o kit tem precisão de 99%, mas os médicos recomendam um teste tradicional para confirmação dos resultados.SEM VENDA EM FARMÁCIAO método já é aplicado nos Estados Unidos desde 2004. Ao contrário dos testes rápidos de gravidez, o OraQuick não será vendido em farmácias. O exame continuará a ser feito por profissionais treinados, mas com vantagens em relação ao tradicional exame de determinação da aids, o Elisa, a partir do sangue.O kit chegou ao Brasil em junho, quando foi apresentado na Feira Hospitalar de São Paulo. O lançamento do produto no Rio foi acompanhada de uma palestra da médica Ely Côrtes, chefe do setor de Infectologia do Hospital da Lagoa e coordenadora do Programa de Aids da instituição federal.Ely é defensora da adoção de métodos rápidos de detecção da aids no sistema de saúde para estimular as pessoas a fazerem os testes. A médica ressaltou que muitos pacientes só descobrem que são portadores do HIV quando chegam a unidades de saúde com doenças oportunistas, principalmente os mais pobres. Em um país onde check-ups e exames periódicos não são um hábito, muita gente descobre que tem aids quando vai tratar doenças como tuberculose, a mais comum entre soropositivos de baixa renda.DIAGNÓSTICO PRECOCE"Temos de ampliar a testagem usando métodos rápidos para que mais diagnósticos sejam feitos precocemente. As pessoas estão chegando muito tarde ao diagnóstico", constata Ely. Calcula-se que 10% dos pacientes não voltam para pegar o resultado dos exames de sangue e podem contaminar pessoas sem saber.Segundo Ely, já existem testes sanguíneos com resultados em até 30 minutos no Brasil, utilizados em situações excepcionais. A vantagem do novo método é substituir o sangue pelo fluido oral dos pacientes, eliminando a utilização de materiais como agulhas, seringas e luvas. Com isso é mais fácil levar os testes a lugares de difícil acesso, áreas de vazios demográficos como a Amazônia ou ambientes isolados como o sistema carcerário.O próprio paciente, sob orientação especializada, colhe a amostra, que não pode ser de qualquer porção de saliva. Com uma palheta, o fluido a ser analisado deve ser recolhido da gengiva. Mergulhada num frasco com reagente, a palheta apresenta uma linha, se o resultado for positivo, ou duas, se negativo. O método não detecta o HIV, que não é encontrado na saliva, mas anticorpos."Apesar da facilidade, o teste só deverá ser aplicado por pessoas treinadas, capazes de dar uma orientação pré e pós-teste, principalmente se o resultado for positivo. A aids é tratada hoje como doença crônica, mas ainda é fatal. Não tem cura. Imagine como é esse momento de se descobrir com a doença", observa Ely.Segundo a médica, aspectos como a reação psicológica diante do resultado ou a confidencialidade dos exames foram levados em conta para que o produto não seja vendido em farmácias. A restrição também evita distorções como o uso do exame antes do ato sexual para determinar o abandono da camisinha. "Talvez um dia a autotestagem possa acontecer. Nem nos Estados Unidos isso foi permitido. É preciso antes uma discussão com a sociedade."