''''Ter de manter 80% estimula a derrubar''''

- O Estado de S.Paulo

Produtores vão sugerir ao governo que aumente para 50% taxa permitida de desflorestamento

Grandes e pequenos produtores rurais do centro-sul do Pará afirmam que não querem briga com o governo. Temem que medidas como o corte do crédito rural e a proibição da autorização para novos desmatamentos venham a prejudicá-los. Propõem negociações com as autoridades federais para estancar a derrubada da Amazônia. A proposta de consenso é de que seja liberado o desmate de 50% da área, com igual tamanho para a preservação. "No dia 8 de março, vamos realizar uma grande reunião aqui em São Félix do Xingu com grandes e pequenos fazendeiros. Queremos fechar uma série de propostas para levar ao governo e propor uma trégua nessa batalha que não leva a nada", diz Décio Matos, diretor da ONG Instituto de Cooperação e Promoção Comunitária (ICPC), que congrega as associações de agricultores proprietários de até 100 hectares. Décio disse que um esboço das propostas já foi entregue a André Lima, diretor de Ações na Amazônia do Ministério do Meio Ambiente. O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de São Félix, Adebeldo Cândido, concorda com a sugestão de que o desmatamento seja aumentado para 50%. "Manter 80% estimula qualquer um a desmatar, porque ele não pode utilizar quase nada de sua propriedade. Se o governo baixar para 50%, garanto que todo mundo vai respeitar. E, quem derrubar uma árvore além disso, tem de ir para a cadeia." TÍTULOS Outra ação sugerida pelo ICPC é a regularização dos títulos das propriedades. Hoje, praticamente ninguém tem documento definitivo. Isso faz com que a grilagem seja facilitada e que surjam documentos falsos por todos os lados, o que, de alguma forma, contribui para aumentar a violência na região. "O governo precisa tomar decisões. Tem de parar de falar, e agir. Não pode desconhecer que as pessoas chegaram aqui, desbravaram, conseguiram documentação precária, fizeram benfeitorias. Querer parar com tudo é voltar pra trás", afirma Matos. "Nos propomos a parar com o desmatamento, mas não na condição que o governo quer nos impor. Tem de nos oferecer oportunidade de melhorar e crescer. Todo mundo que veio para cá quer isso", insiste. Uma das formas de isso ocorrer, de acordo com as idéias que estão sendo desenvolvidas pela ONG, em conjunto com os grandes produtores, seria o governo dar incentivo para a criação de agroindústrias destinadas à fruticultura. "Também podemos pensar em formas de substituir parte do rebanho bovino por ovinos, que ocupam espaço menor", afirma Matos. "Não dá é para o governo querer nos acuar agora, depois de tanto tempo, depois que famílias foram constituídas, vidas mudadas e consolidadas."Outra sugestão seria facilitar o financiamento de grandes áreas de reflorestamentos com "teca" (tectona grandis), espécie de árvore gigante originária do Sri Lanka, Indonésia, Tailândia, Laos e Camboja, que se adaptou muito bem na Amazônia. O Banco da Amazônia (Basa) já financia alguns projetos de plantio de "teca" na região de Xinguara e Pau d?Arco. De acordo com o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (Ipef), a "teca" é a melhor madeira no mundo para a construção de navios, tanto é que a Inglaterra trabalha com ela desde o século 18. Na Europa é mais valorizada que o mogno, por causa da sua alta resistência.